ALGUÉM PRECISA DE VOCÊ AGORA!

Imagem Movimento Solidão 5

“Solidão é lava que cobre tudo,
Amargura em minha boca,
Sorri seus dentes de chumbo.
Solidão palavra cavada no coração,
Resignado e mudo,
No compasso da desilusão.
Desilusão, desilusão,
Danço eu dança você
Na dança da solidão.”

In: Dança da Solidão de Paulinho da Viola

 

Tenho passado as últimas semanas ouvindo relatos dramáticos sobre sentimentos envolvendo dias repletos de solidão.

Pais cujos filhos nem ao menos telefonam, avós esquecidos em suas casas, parentes isolados que ninguém procura, vizinhos apartados de qualquer tipo de contato, amigos desamparados, numa proporção que jamais poderia imaginar.

Se você conhece pessoas que estejam vivendo sozinhas nestes tempos sombrios, procure-as agora. Vá até elas para saber como estão e se precisam de algo. Dê telefonemas, mande recados, passe mensagens. Converse, ouça e preste bastante atenção. Estas pessoas precisam muito disso, acredite.

Não deixe para depois porque poderá ser tarde demais.

Você não faz a menor ideia de quantas pessoas estão cometendo suicídio ou seriamente pensado nele.

Não deixe que isto aconteça perto de você.

Coloque o rancor de lado, jogue o orgulho no fundo do poço e procure diminuir o sofrimento que estão passando – ainda que não confessem sua dor.

A solidão é o problema mais prevalecente e global que tem atingido, praticamente, todas as pessoas nos últimos tempos.

Diversos estudos vinculam este estado a várias condições crônicas, incluindo: doenças cardíacas, pulmonares, cardiovasculares, hipertensão, aterosclerose, acidente vascular cerebral e distúrbios metabólicos, como a obesidade.

É, também, um dos principais responsáveis por problemas psicológicos como depressão, estresse mental e ansiedade. 

Há cada vez mais idosos vivendo sozinhos, e alguns deles correndo o risco de se sentirem desprovidos do afeto tão necessário, abandonados e socialmente isolados, embora saibamos que solidão e isolamento sejam duas coisas bem diferentes: uma pessoa pode ficar sozinha e não se sentir sozinha e vice-versa. 

Há uma pequena distinção entre solidão emocional e solidão social. 

A solidão social pode ocorrer quando se tem menos contatos sociais do que se deseja, ou quando o nível de intimidade encontrado nos relacionamentos é baixo demais. 

A solidão emocional se refere à ausência de conexões profundas e significativas e à falta de vínculos amorosos saudáveis, que fazem parte dos nossos mecanismos de sobrevivência enquanto humanidade.

A solidão social se refere à falta de uma rede amistosa, à ausência de um círculo de pessoas que permita ao indivíduo desenvolver um sentido de pertencer a um grupo, de fazer parte de uma comunidade. 

No entanto, solidão e isolamento, juntos, podem colocar as pessoas em risco de vulnerabilidade física ou de fragilidade social. E esse conceito dinâmico de escassez pode, também, estar intimamente ligado à exclusão social e falta de recursos. 

Me relatou uma pessoa:

Ocorre algo estranho quando você fica isolado por muito tempo. Porque solidão é uma forma de fome. Dói. E para romper suas paredes, você precisa, primeiro, derrotar o que a fez construí-las. E é difícil entender como isso se deu.

Você vira um ser anônimo, um fantasma deslizando pelas multidões, sem corpo e sem sombra, sem deixar pegadas. É como vivenciar uma espécie de invisibilidade. O barulho, as pessoas conversando, tudo faz você estremecer. Todo movimento externo soa dolorosamente insano e parece não haver nenhum espaço onde você deseje estar.

Teve um dia que resolvi ficar sentado em uma lanchonete, trabalhando no notebook, porque meu apartamento estava frio demais para tolerar. Um grupo de crianças entrou e se sentou do meu lado, gritando umas com as outras, numa algazarra febril, enchendo o local com suas risadas. O proprietário, então, se aproximou e disse: ‘desculpem, estamos fechando mais cedo hoje. Então, vocês terão que sair’.

Enquanto os pequenos saíam, eu me levantei. O proprietário sorriu e disse que o lugar na verdade não estava fechando, que ele havia usado aquela desculpa para retirar as crianças porque havia percebido o quanto aquelas presenças haviam me incomodado. Esclareceu que eu estava livre para ficar o tempo que quisesse. 

Agradeci, oprimido e culpado por ter sido observado daquela forma, por lembrar que meus pensamentos interiores estavam claramente expressos no meu rosto.

Percebi o quanto eu já estava sozinho e, ainda assim, queria ficar mais sozinho!

Quando vive em uma situação dessas, você é capaz de arranhar as paredes para poder fugir dos lugares onde se sente preso. Você deseja desesperadamente retornar ao seu casulo. Trancar-se em um banheiro. Ir pra fora dali acender uma fogueira para que a fumaça lhe esconda de tudo e de todos. Há tanta inquietação… é então que você resolve evitar o contato visual com quem quer que seja.

A única coisa que deveria aliviar minha solidão – como um tempo perto das pessoas – em vez disso, me levava a um acesso de pânico. A fala era um fardo. Os rituais estranhos necessários para que eu parecesse aceitável ​​diante dos outros, também eram um peso.

Na maioria dos dias, o esforço para desembaraçar meus cabelos e trocar o pijama era suficiente para me confinar em ambientes fechados, numa espécie de gaiola invisível cheia dos meus próprios medos.

E você não percebe que gaiola encolhe dia após dia, com as barras se fechando sobre você, como a hera que cresce sobre as dobradiças. Quanto mais você estiver sozinho, mais difícil será romper este distanciamento dos outros.”

Diante deste e de outros depoimentos, entendo que quando as pessoas entram em uma experiência de solidão, elas desencadeiam o que chamamos de hipervigilância diante daquilo que sentem como ‘ameaça social’. Nesse estado, o indivíduo começa a experimentar o mundo em termos cada vez mais negativos.

Isto cria um ciclo vicioso no qual a pessoa solitária se torna cada vez mais isolada, desconfiada e retraída. E quanto mais solitária a pessoa fica, menos hábil se torna em navegar nas correntes sociais.

Os relacionamentos saudáveis ​​dependem de um senso saudável de nós mesmos, algo impossível quando você fica sozinho por muito tempo.

O resultado é um círculo vicioso de fuga, em que a pessoa solitária se torna cada vez mais cismada, intensificando sua necessidade de isolamento. As pessoas solitárias percebem ameaças sociais de maneira automática e muito mais rápida do que os não-solitários.

Para se sentir menos solitário, comece a se concentrar nas necessidades e nos sentimentos dos demais quanto menos atenção em seus pensamentos e sentimentos solitários, melhor. Faça algum esforço para alcançar os outros, iniciar uma conversa e enfrentar as dificuldades, mesmo quando isto parecer impossível.

Você também pode quebrar o ciclo de solidão encontrando e passando algum tempo com quem desfruta dos mesmos interesses que você. Conheça pessoas esta é a base natural para iniciar uma amizade. Você tem muito o que conversar. Assim, você se concentrará em algo que não seja você.

Ao optar por lidar com a nossa solidão, buscando apoio social, criamos mais momentos coletivos com as pessoas ao nosso redor, e este movimento geralmente reduz nosso isolamento.

Fique curioso em relação aos outros e não espere perfeição. Se você estiver genuinamente interessado, eles serão atraídos por você, porque você estará prestando atenção neles. E, acredite, você receberá atenção em troca!

Se todos os seus esforços falharem, busque ajuda. Converse com um profissional. Encontre um ambiente seguro para falar sobre como se sente e procure alguém que possa compreendê-lo.

Ou me escreva. Quem sabe eu possa ajudar você.

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

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