QUARENTENA & SOLIDÃO

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“Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe…
Quanto tempo, pois é,
Quanto tempo?”

In: Sinal Fechado – de Paulinho da Viola

 

Nestes dias de confinamento compulsório, quem já não recebeu as tais lives (vídeos ao vivo publicados em redes sociais) produzidas por uma lista incontável de criaturas que, classificadas como influenciadores e celebridades (atrizes, atores, cantores, cantoras, modelos, profissionais de diversas áreas, etc.) registram vidas repletas sabedoria, alegria e felicidade – apesar de todos os pesares?

Estas pessoas parecem fascinantes justamente porque pretendem aparentar viver em um universo paralelo que apenas, e bem de longe, se parece com o nosso – tão comum e banal.

Estas aparições fantásticas e fora da realidade, repletas de fotos editadas em planos alterados, servem para que a vida dos mortais comuns – como eu e você – pareça terrivelmente monótona e desprovida de emoção.

E, em tempos difíceis como os atuais, isto torna tudo muito pior, acredite.

Porque, sem dúvida alguma, essa questão levanta inúmeras reflexões sobre o mal-estar da nossa sociedade.

No entanto, queiram ou não, essas ‘personalidades’ tornam-se o que são: irrelevantes diante da urgência da vida de verdade.

E apesar de ainda não existirem pesquisas acerca do impacto causado pelo atual isolamento imposto pela pandemia de coronavírus, é absolutamente imprescindível entender que nosso povo está sofrendo – e muito – não só por conta da solidão, mas, principalmente, pelos sentimentos envolvendo medo, abandono, fome, ausência de perspectivas no presente e no futuro, dentre outra dores.

Com efeito, muitas pessoas estão se sentindo desamparadas, enquanto, ao mesmo tempo, experimentam ansiedade, frustração, tristeza e irritabilidade – como jamais haviam vivenciado.

Um metro de distância – de todos e de tudo o que nos rodeia. Estamos oficialmente em um período de pandemia, mas também estamos entrando em um período de dor social.

Há um nível de sofrimento social vinculado ao isolamento do qual ninguém está falando.

A ideia parece simples: para impedir o avanço do vírus, pede-se as pessoas que evitem contatos não essenciais e permaneçam em casa.

Se você sai para fazer compras, precisa fazer isso sozinho – e de máscara. Quando está no supermercado ou na farmácia, deve manter distância dos outros. É possível que, durante meses, todos nós não tenhamos contato humano dentro destes 60 centímetros que nos cercam e que podem pesar tanto quanto uma doença.

Se, por um lado, o coronavírus ameaça mergulhar o mundo em um verdadeiro desterro econômico, por outro, seu efeito colateral pode ser uma espécie de recessão humana. A solidão, tal como o vírus que estamos enfrentando, provavelmente atingirá pessoas mais e menos vulneráveis.

Este é um apenas um dos aspectos envolvendo as consequências para a saúde mental das populações do mundo.

Trata-se de uma inquietação que atualmente assola tanto crianças quanto adolescentes, adultos e, especialmente, idosos.

É claro que é possível ser socialmente isolado sem se sentir sozinho e pode-se ficar sozinho sem estar socialmente isolado. Contudo, as duas condições vivenciadas em conjunto, têm consequências para a saúde física e mental.

É importante saber que o isolamento social está associado a diversas doenças, entre elas, a alteração de açúcar no sangue, insônia e distúrbios psíquicos como depressão, ansiedade e estresse.

solidão também está associada a algumas deficiências hormonais no cérebro, reduzindo níveis de cortisol, adrenalina e serotonina, isto tudo afetando diretamente o sistema imunológico.

Pesquisadores analisaram dezenas de estudos onde encontraram uma relação consistente entre isolamento e estes distúrbios físicos e psíquicos.

Em todos os momentos de nossas vidas, as coisas que mais nos preocupam são perder a independência, perder a consciência ou morrer, e cada um desses elementos é afetado pela solidão, independentemente de outros fatores de risco.

Isto porque os seres humanos evoluíram com a ideia de segurança dentro de uma coletividade, de um grupo. E, consequentemente, percebemos o isolamento como um estado de emergência.

É por isso que o coronavírus é uma ameaça dupla: o estresse derivado do medo do vírus e da necessidade de isolamento exigido por sua prevenção.

Ninguém pode prever como esta pandemia afetará as pessoas mais em risco. Mas quanto mais tempo, maior o impacto e mais difícil será restabelecer as conexões interpessoais.

Assim, uma solução que temos é, exatamente, mantermos uma conexão profunda e humana com aqueles que nos são próximos, ao mesmo tempo em que devemos tentar criar novos vínculos, baseados na solidariedade – aí reside o segredo da nossa sobrevivência diante deste momento tão intimidador.

Agora, mais do que nunca, podemos nos juntar com outras pessoas por meio de canais de comunicação verbais e não verbais, buscando maneiras que não exijam contato físico.

Afinal, somos animais sociais. Estarmos conectados aos outros é importante tanto para o nosso bem-estar quanto para nossa sobrevivência enquanto espécie.

O verdadeiro abrigo é aquele que se constrói coletivamente. O solitário não é um ermitão.

E, lembre-se: existe uma diferença importante entre a solidão temporária e a solidão crônica; e o isolamento social é diferente do isolamento físico.

Se você não possui recursos suficientes (sejam eles emocionais, mentais ou financeiros) e não possui conexões sociais que possam fornecer esses recursos, o estresse e a solidão crônica podem se estabelecer.

A boa notícia ainda é que a maior parte da população acredita que a vida voltará ao normal assim que a propagação da nova doença de coronavírus, COVID-19 for contida. E isto é, de fato, fundamental.

Estar confiante de que coisas como trabalho, escola e vida social voltarão ao que eram antes da pandemia, é muito importante.

Isto coloca todos os arautos do ‘fim do mundo’ numa posição bastante perigosa. Alardear aquilo que não têm o poder – nem o direito – de afirmar é extremamente contraindicado, improdutivo e perigoso.

Além de totalmente irresponsável.

Os psicopatas parecem terem reencontrado seu espaço diante do medo comum a todos os seres no planete. Não podemos esquecer que estes indivíduos que pululam hoje em dia nas redes sociais são tudo, menos humanos.

Todo cuidado com essa gente é pouco.

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2 pensamentos sobre “QUARENTENA & SOLIDÃO

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