ESTAMOS JUNTOS NO MEDO

Imagem Movimento Coronavirus

“Ouve o que eu te digo.
Vou te contar um segredo.
É muito lucrativo
Que o mundo tenha medo.
Medo da gripe,
São mais uns medicamentos,
Vêm outros vírus
Reforçar os dividendos.”

In: Medo dos Medos de Os Paralamas do Sucesso

 

Por que o medo e a ansiedade estão cada vez mais difíceis de controlar?

As pessoas sempre tiveram medo de algo. Por vezes, o medo nos ajudou a sobreviver. Outras vezes, nos impediu de avançar. 

Os filósofos, na antiguidade, não tinham um único ponto de vista sobre este fenômeno humano, mas todos eles acreditavam que as emoções (paixões, sentimentos) existiam em contraposição à razão. Geralmente, neste sistema binário, a coragem se contrapunha à covardia, a generosidade à ganância, a bondade à maldade, e daí por diante. Aristóteles afirmava, no entanto, que o excesso de coragem também se tornaria um vício, uma imprudência ou uma insolência. A virtude seria algo intermediário, um equilíbrio entre estes dois polos. Aristóteles definiu, então, o medo como uma dor mental frente à expectativa do mal, mas também observava que ele era, ao mesmo tempo, positivo diante, por exemplo, da vergonha.

Medo de sentir vergonha.

O filósofo grego Epicuro acreditava que o sofrimento se encontrava enraizado no medo, e que as pessoas tinham medo basicamente de duas coisas – da morte e da ‘retribuição’ da vida após a morte. Porém,  achava que a morte não poderia ser algo assim tão terrível, justamente porque não teria nada a ver com a vida em si, uma vez que, enquanto existimos, a morte estava ausente e quando ela chegava, nós é que não estaríamos mais presentes.

Do ponto de vista da psicologia, o medo é um sinal de parada, um aviso de que devemos desacelerar antes que seja tarde demais.

Ao contrário da Grécia Antiga, onde tudo estava organizado em prateleiras, agora temos uma percepção irracional do medo. O medo é quase uma supressão da razão, uma forte emoção associada aos mecanismos desenvolvidos durante nossa evolução. Mas também é uma luz de freio, ainda que seja difícil lidar com essa herança biológica com a ajuda de um bom raciocínio, mesmo porque o mecanismo do medo em si foi criado para desativar justamente esse mesmo raciocínio.

Por um lado há a emoção e, por outro, o modo como nos relacionamos e lidamos com ela, e o que podemos fazer apesar dela.

Uma outra abordagem é eliminar completamente o medo. Isso é loucura, ou fica bem na fronteira dela. Outro jeito envolve agir contra o medo. Algumas pessoas lidam facilmente com as emoções e são guiadas pela razão, enquanto outra são incapazes de controlá-las. 

A IMPORTÂNCIA DA RACIONALIZAÇÃO

Uma vez, em uma entrevista, um veterano soldado soviético lembrou como, em 1941, ele e outros alunos do primeiro ano de uma universidade foram enviados para a frente de batalha para defender Moscou do exército nazista de Hitler. Ele falou sobre esse sentimento terrível experimentado por jovens estudantes: eles estavam sozinhos em um campo aberto com dezenas de toneladas de metal quente espalhadas entre eles. Puro horror, junto do desejo de desaparecer, de escavar um buraco fundo, de deixar de existir. 

O aprendizado, que eles absorveram nos bancos da faculdade de História e Filosofia, os ajudou a sobreviver e superar o medo, encontrando um ponto de apoio racional, independente da situação que enfrentavam externamente.

Por outro lado, quantos soldados americanos enlouqueceram no Vietnã, no Afeganistão ou no Iraque? Quantos, ainda hoje, surtam e matam quem encontram pela frente?

Certamente estes não encontraram qualquer razão para as vidas inocentes perdidas.

Alguns profissionais da área da saúde desenvolveram um método para lidar com os medos, chamado “intenção paradoxal”. Descobriram que é preciso se relacionar com a situação com humor e desejar se aproximar do que mais se teme.

Existe apenas uma estratégia comum para lidar com os medos – enfrentá-los.

E devemos conversar muito sobre o que esperamos do futuro. O que podemos fazer para torná-lo melhor e mais suportável. Mas é preciso entender o que nos levou a este presente. Ganância de alguns grupos? Interesses escusos de outros? Desprezo pela humanidade? Tudo isto junto?

O que devemos fazer para que isto não se repita ou não se perpetue?

Afinal, não desejamos deixar um mundo tão obscuro para os nossos filhos ou netos, certo?

SOBRE MEDOS

Existem vários tipos de medos. O primeiro tipo são medos que podem ser associados a uma causa, condição ou situação específica. O segundo tipo são medos difusos, ansiedades vagas, estados de pânico que não estão associados a nenhum fator. Podemos distinguir um terceiro tipo de medo – existencial, por exemplo, envolvendo o medo da morte. E há outro que, às vezes, é chamado de “temor a Deus”. O teólogo alemão Rudolf Otto o chamou de numinoso – este é um medo de um poder místico que ultrapassa a imaginação humana, antes mesmo que a pessoa sinta sua inutilidade.

Medos difusos estão intimamente ligados à posição de uma pessoa na sociedade, ao nível de estabilidade dos seus laços sociais e de como ela sente segurança frente as instituições. Quanto mais rígido e autoritário for o sistema, mais forte a pessoa sente sua vulnerabilidade, inutilidade, depreciação, e mais fraca sua confiança no futuro. 

O medo mais persistente é em relação as crianças e aos entes queridos. E define o horizonte da existência de muitas pessoas. Em segundo lugar, está o medo da guerra. Aparentemente, este é um trauma da ‘Grande Guerra Patriótica’, que continua até hoje. É por isso que o ‘surto patriótico’, patrocinado pelos governantes, atualiza as camadas de memória coletiva associadas a esse medo. 

Além disso, existem medos sociais bastante específicos: perda de emprego, medo da pobreza, padrões de vida em declínio, medo de ficar sozinho, da velhice, etc.

Na psicologia, os medos relacionados à projeção para o futuro são chamados de ansiedade que envolve uma das teses populares e relativamente novas da psicologia, que é a teoria do gerenciamento do medo da morte. O homem é a única criatura consciente de sua mortalidade, e muitas de nossas ações são motivadas pelo desejo de evitar essa consciência. Um dos mecanismos pelos quais fugimos dos pensamentos acerca de nossa própria morte é nossa identificação com alguma coisa considerada ‘maior que tudo’: “Faço parte desta nação. E ela permanecerá por milhares de anos e, assim, não preciso pensar na minha própria morte“. É assim que muitos mecanismos de identificação coletiva funcionam.

Concluindo, quando a energia da ansiedade é direcionada à atividade, ficamos mais calmos. 

Mas agora todo o apartamento está cheio de suprimentos, uma mochila de sobrevivência está no corredor, um bunker foi construído na casa de campo – e ainda estamos preocupados.

Como parar de se atormentar com medo? Para começar, seria bom perceber nossa própria individualidade. Se todo mundo ao redor estiver em pânico e rodando no mesmo lugar, isso não significa que você precise fazer o mesmo. Isso não significa que o medo deles seja justificado ou que eles estejam correndo na direção certa. Sua tarefa é revisar seus próprios objetivos e interesses e não seguir os planos de outras pessoas.

Em seguida, você precisa examinar seu medo e responder a algumas perguntas. É melhor fazer isso por escrito: será mais eficaz do que dizer mentalmente a si mesmo: “Sim, tudo está claro”. A ansiedade é apenas o critério de que “nem tudo está claro”. E as perguntas são:

  1. “Do que exatamente eu tenho medo? Que problemas vejo no futuro? ” Não basta escrever aqui que você tem medo de contrair o coronavírus. Precisa de detalhes: você tem medo da ansiedade coletiva? Hospitais? Perda de emprego? Morte? Quanto mais você apresentar suas razões, melhor se sentirá.
  2. “Quais são os prós e os contras dessa situação?” Em outras palavras, se você contrair o coronavírus, o que acontecerá a seguir? O que você vai perder e ganhar? Qualquer situação tem consequências positivas e negativas. Seria bom imaginá-las também.
  3. “Qual é a probabilidade de falha?” Se você estuda cuidadosamente as estatísticas, é fácil perceber que no mundo existem muitos eventos bem mais perigosos e disseminados do que a infecção por vírus. Por que essa pandemia lhe assusta tanto? Talvez você superestime os riscos?
  4. “O que farei se o contágio ocorrer?” Em outras palavras, você precisa de um plano de ação. O medo é um sinal de que o perigo está à frente. A melhor resposta a esse sinal é se preparar para o ‘perigo’. Não com uma ansiedade sem fim, mas com o desenvolvimento de uma estratégia razoável de comportamento. Nesse caso, você manterá o maior controle possível sobre a situação e não se sentirá desamparado.
  5. “A ansiedade me ajuda ou me atrapalha? Como posso usar minha preocupação a meu favor? ” De fato, por que você está preocupado? Vale lembrar aqui que nós mesmos criamos nossas emoções. Mesmo quando ela parece um efeito de algo externo. As emoções não vêm de algum lugar externo; ela é resultado do trabalho de nossa psique. Você não pode desligá-las pela força de vontade, mas pode direcioná-las para uma direção construtiva. Se você tem medo de que, devido à epidemia, não verá sua família, talvez agora dedique um tempo para seus entes queridos. Se você está preocupado de perder suas férias planejadas – talvez você deva encontrar opções de férias alternativas.

É possível lidar com a ansiedade sem fortalece-la. É mais útil ver que geralmente superestimamos o perigo e nos afogamos em experiências estéreis, em vez de avaliar adequadamente os riscos e nos prepararmos para eles.

Pense racionalmente e não fique doente. E, acima de tudo, exercite a empatia em todos estes momentos difíceis.

Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

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