A INTOLERÂNCIA E O INTOLERANTE

Imagem Movimento Raiva

“Como água no deserto
Procurei seu passo incerto
Pra me aproximar
A tempo.

O seu código de guerra
E a certeza que te cerca
Me fazem ficar atento. 

Não me importa a sua crença, 
Eu quero a diferença
Que me faz te olhar
De frente.”

In: Tolerância – de Ana Carolina

 

INTOLERÂNCIA: Substantivo Feminino; do latim intolerantia.
1. Falta de tolerância  2. Violência  3. Intransigência
Atitude agressiva ou repressora para com as diferenças de outrem relativamente à etnia, crença, opinião, modo de vida, etc. (intolerância religiosa/ideológica).

Invariavelmente associada a outras práticas não muito edificantes como violência ou intransigência, a vovozinha rude, sem-noção e mal-educada intolerância, na maioria dos casos onde resolve dar o ar da sua desgraça, nada mais faz do que revelar a angústia e o medo de enxergar, no outro, partes de si mesma.

Ou seja: quanto mais o (a) intolerante se identifica com aquilo que acredita não ser cabível, aceitável, confiável ou legal, mais ele(a) de tudo fará para menosprezar, desacatar, aniquilar o que, no fundo, tanto ameaça suas frágeis convicções.

Quer dizer: se tenho tamanha certeza daquilo que penso, não preciso exterminar meu “oponente” posto que, de uma maneira ou de outra, o razoável e o crível necessariamente irão se sobrepor à tudo aquilo que está errado.

A mentira e o engodo sempre encontram um jeito de aparecer. Ou não?

Mas a vovó intolerância não pensa assim. Ela acredita piamente que todo e qualquer opositor é um ser indigno, maldito e, o que é pior, capaz de fazer acordar aquele cão feroz que ela carrega dentro de si.

Senão, vejamos.

Laura tinha uma prima que parecia ser a parente mais cabeça aberta da família posto que, quando escolheu terminar um casamento de anos com um homem muito rico, resolveu viver um caso amoroso com uma mulher com quem morou por vários anos.

Depois disto, teve alguns namoricos (entre homens e mulheres) e, ainda que aparentasse bastante independência e segurança, estranhamente jamais prescindiu do auxílio esporádico do ex-marido em relação às suas necessidades pessoais assim como da sustentação total das coisas ligadas à filha de ambos. Logo, diga-se de passagem, este homem jamais se furtou a socorrê-la em nenhuma de suas demandas.

Portanto, como Laura muito a admirava, criaram uma convivência bastante tranquila, chegando a participarem juntas de encontros familiares e confraternizações.

Mas houve um dia em que, no meio de um desses almoços e no centro de uma conversa sobre qualidade dos desfiles de carnaval que àquela altura inundavam os canais de tevês, Laura emitiu uma opinião sobre uma conhecida rede de televisão. Disse que não assistia a globo porque não gostava de sua programação. A resposta veio de maneira destemperada, em altos brados e absolutamente desproporcional ao tom do diálogo: “ – Como assim você não gosta da globo? Ela é reconhecida internacionalmente e ganha os melhores prêmios lá fora! Bah…. eu também já fui como você. Vivia bem e tinha de tudo enquanto ficava com peninha dos miseráveis!

Laura, então, retraiu-se ponderando que o único deslize que cometera fora dizer que não gostava de um canal de televisão.

Momentos depois recebeu um pedido de desculpas da prima que explicou que andava mesmo muito nervosa e pedia que o despropósito não merecesse nenhuma consideração.

Tudo voltou a ficar bem até que, meses depois, parte da sociedade entrou num embate acerca do impeachment ou não de uma presidenta eleita.

Não precisou de muito tempo para que a prima de Laura – ainda que esta última jamais entrasse na timeline de ninguém para registrar nenhum tipo de opinião – passasse a apresentar sua raiva latente através dos famigerados “Reaction Buttons” usados, dentro do facebook, como forma de reação aos posts de pessoas conhecidas ou não.

Fez isto de maneira ostensiva por diversas vezes e Laura não se manifestou.

Dias depois, nesta mesma rede social, uma outra pessoa que a prima sequer conhecia resolveu abrir uma discussão de maneira agressiva e, em seguida, começou a atacar os demais conhecidos de Laura que, imediatamente, posicionou-se contra o sujeito – ainda que percebesse que a prima expressava clara e abertamente seu apoio ao agressor. Minutos depois não só o lunático como também a prima haviam retirado Laura de seu “rol de amizades” virtuais.

Quanto ao fulano, Laura sequer preocupou-se. Mas a prima muito a surpreendeu porque isto significava, sem qualquer dúvida, uma demonstração cabal de rigidez e fanatismo operando acima de qualquer rastro de sensibilidade e de quaisquer laços de afeto.

E assim parentes vão separando-se uns dos outros.

Já Carlos, por outro lado, adorava a tia de sua esposa e que era conhecida como Nena. Nutria, então, pela doce Nena muito carinho e uma boa dose de genuína afeição.

Por isto foi pego de surpresa quando, no meio de uma discussão acerca da possibilidade do mesmo impedimento acima descrito, ela publicamente lhe criticou porque entendia (erroneamente, segundo Carlos) que este defendia um determinado partido por ela detestado.

Escreveu algo bastante ríspido ainda que, em contrapartida, a resposta do sobrinho tenha sido extremamente delicada. A partir de então, tia Nena decidiu desvincular-se do casal na ‘vida real’ negando-se, inclusive, a participar de reuniões familiares por eles promovidas.

Posteriormente, tanto a filha quanto os netos da tia, de maneira mais sutil, envergaram o mesmo e pesado fardão do sectarismo da mãe.

Se tanto a prima quanto a tia dos meus caros leitores buscassem compreender as raízes de tamanha inflexibilidade, certamente encontrariam a resposta na maneira com a qual, provavelmente, ambas foram tratadas no decorrer de suas vidas.

Entenderiam que, tendo sido elas mesmas cuidadas com tão pouca tolerância e delicadeza, estariam reproduzindo justamente o mesmo comportamento do qual, lá atrás, foram meras vítimas incapazes de defesa.

Perceberiam que as temíveis ‘diferenças’ poderiam revelar-se enquanto verdadeiras oportunidades de rever padrões viciados e conceitos ultrapassados. Porque, afinal, abrir-se à influência do diferente pode nos render gratas e extraordinárias experiências.

Fora tal compreensão só lhes restará permanecer acreditando que estão desobrigadas de conviver com tudo aquilo que enxergarem como diferenças e imperfeições.

Pois vítimas inconscientes geralmente tornam-se algozes – na primeira oportunidade. E da pior qualidade.

E demoram a entender (quando entendem) que somos todos lados de uma mesma e dinâmica realidade onde as polaridades jamais serão eliminadas ou definitivamente resolvidas.

Porque tudo aquilo que vier em nome de criar uma dimensão sem qualquer tipo de conflito redundará no terror infligidos pelos pretensamente mais ‘fortes’.

Logo, todos os abusos cometidos em nome de “verdades absolutas” transformam-se em cárceres e em cenas de horror.

Cabe a cada ser pensante escolher o seu polo de maneira livre da mesma forma que lhe cabe deixar que o outro também o escolha sem pressões ou ameaças. Convivendo com as diferenças de maneira humana e solidária. Abrindo mão das certezas que mais nada são do que formas de nos afastarmos de uma existência mais livre e plena – que tantos temem. 

Então, o intolerante que deseja suprimir todo o pensamento discordante impondo aquilo o que pensa de maneira grosseira e malfadada, nada mais é do que um obtuso e fraco covarde pelo qual devemos apenas sentir pena.

PENA : Substantivo Feminino. Do Grego Poiné, pelo Latim Poena)
1.Sentimento provocado por sofrimento alheio.  2. Compaixão.  3. Dó.  4. Lástima.

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