O ‘AMOR’ QUE NINGUÉM MERECE

Imagem Movimento Gangorra

“Se o caso é chorar,
te faço chorar.
Se o caso é sofrer,
eu posso morrer de amor.

Vestir toda minha dor
no seu traje mais azul,
restando aos meus olhos
o dilema de rir ou chorar.”

In: Se o Caso é Chorar – de Tom Zé

Há alguns anos conheci uma garotinha que tinha no rosto uma terrível marca de queimadura. Apenas depois de muito tempo, quando ganhou confiança em relação a mim, ela conseguiu contar que aquela cicatriz havia sido produzida pelo ferro de passar roupa de sua mãe que, por causa de um pedaço de goiabada comido antes do jantar, resolveu castigá-la desta forma atroz.

O fato é que, depois deste e dos demais maus-tratos denunciados por vizinhos, a menina foi colocada em um abrigo onde, em nenhum momento, reclamou das experiências traumáticas sofridas e, pelo contrário, repetia a todo momento o quanto amava a mãe e como desejava voltar a viver com ela.

Confesso que passei muitos anos imaginando as escolhas que esta criança fatalmente iria fazer na vida adulta, diante dos modelos com os quais fora obrigada a conviver.

Essa é apenas uma das inúmeras histórias que colecionei acerca de pessoas incapazes de se distanciarem de seus algozes, muitas vezes, não apenas adorando-os, mas também reverenciando-os cegamente.

Os exemplos são muitos e as explicações nunca serão simples, evidentemente.

Centenas de livros foram escritos na tentativa de explicar aquilo que alguns resolveram chamar de Codependência ou Síndrome de Estocolmo.

Sobreviventes de relacionamentos abusivos costumam reconhecer algumas das razões pelas quais permaneceram nestas relações – vínculo parental ou conjugal, situação financeira, medo de se sentirem sozinhos, afetos confusos, sentimento permanente de autodepreciação, etc.

Por que indivíduos pacatos, doadores e altruístas – os codependentes – se sentem tão encantados por parceiros egoístas, egocêntricos e controladores – os manipuladores?

Quando falamos de relacionamentos amorosos, os codependentes são habitualmente atraídos para relacionamentos que, mesmo iniciados de forma muito promissora, logo se transformam em uma dolorosa e difícil experiência. A relação entre o manipulador e o codependente emocional possui uma natureza paradoxal, posto que ali, duas personalidades opostas dividem algo que, apesar das promessas repletas de excitação, alegria e euforia, sempre desembocará numa rio de drama, dor e angústia.

O que tento descrever aqui é um tipo de relacionamento muito mais comum do gostaríamos de imaginar e que muitos de nós já experimentamos, mesmo que tentemos negar.  

É importante entender que codependentes e manipuladores emocionais sempre se sentem envolvidos um pelo outro, ainda que isto inevitavelmente provoque enormes transtornos emocionais e pessoais.

Se percebermos esta nociva dinâmica, que aproxima a ‘fome’ (devastadora) da ‘vontade de comer’ (aniquiladora), compreenderemos que não será (jamais) possível viver com um mínimo de tranquilidade (e dignidade) dentro desta aproximação doentia.

Relacionamentos existem para nos tornarem melhores, mais fortes e mais felizes. E este, acredite, nunca será o caso deste tipo de ligação, onde um não só atrai o seu oposto como passa a necessitar dele para sobreviver.

A vinculação entre o codependente e o manipulador certamente resultará numa relação disfuncional a médio prazo. Na mesma medida em que parceiros emocionalmente saudáveis terão mais chances de se fortalecerem, se afirmarem e se satisfazerem mutuamente.

A esta altura, penso que possamos simplificar as coisas, descrevendo algumas das condições que levam à esta forma de união complementar e patológica.

Acreditar que arranjar um(a) companheiro(a) está acima de tudo.

A necessidade é um elemento primitivo e profundamente poderoso que pode anular nosso julgamento. Temos condições de identificar necessidades físicas básicas, como fome, sede, sexo – assim como respirar.

Já as necessidades emocionais – como empatia, autoconfiança, amor, afeto – são muito mais abstratas e costumam se manifestar quando estamos diante de pessoas que nos são sensíveis e tangíveis, como um parceiro compreensivo, um amigo solidário, uma atividade gratificante ou uma vida prazerosa. O problema acontece quando entramos em um relacionamento que não só atende a poucas das nossas demandas emocionais básicas, como não sustenta nossa necessidade amorosa (e humana) primordial.

É quando uma companheiro, por exemplo, demonstra compreensão diante de alguma dor ou dificuldade nossa e, logo depois, passa a usar esta fragilidade contra nós. 

Como o chefe que mostra admiração por nosso trabalho e, ao mesmo tempo, nos humilha publicamente diante de qualquer pequena falha.

Ou aquele amigo cuja presença constante em nossa vida vem sempre estranhamente acompanhada de uma sensação persistente de negatividade.

Da mesma forma como um(a) companheiro(a) pode ser alguém com quem o sexo seja algo maravilhoso, mas com o qual as emoções envolvendo o dia a dia sejam devastadoras – para dizer o mínimo.

Experimentar um amor saudável nos permite uma sensação de relaxamento, segurança e paz muito concreta que, na maior parte das vezes, é mais acalentadora e prazerosa do que termos outras necessidades atendidas.

O amor é quase um compromisso que nos enseja a atender as necessidades daquele que amamos a fim de criar este vínculo essencialmente benéfico.

Trocar o amor-próprio pelo amor ao outro.

O amor pelo outro, ou o amor de outro por nós, não pode, por si só, sustentar um relacionamento saudável, porque se amamos o outro em detrimento da nossa integridade, nos preparamos para uma vida miserável de desrespeito e de baixa autoestima.

Portanto, a afirmação de que alguém só pode lhe amar o tanto que você se ama parece bastante verdadeira, uma vez que o amor-próprio define o padrão dos sentimentos que poderemos tolerar receber.

Parceiros em relacionamentos disfuncionais costumam dizer: “Eu dei tudo” ou “Eu sacrifiquei minha vida“. Quando damos algo de maneira prejudicial a nós mesmos, ficamos ressentidos e também perpetuamos os maus-tratos.

Amar um parceiro generosamente, sem reservas e de todo o coração é ótimo e ajuda a nos sentirmos bem. Se, por outro lado, alguém se aproveita da nossa devoção para agir de modo egoísta e invasivo, sabendo que não temos condições de perceber a manobra, vamos sofrer. E não importa quanto amor alguém derramar em nosso buraco existencial, ou vice-versa, porque sem o amor-próprio, ele nunca poderá ser preenchido. Trocá-lo pelo amor do outro nos dará um falso senso de totalidade e nos fará evitar o trabalho crítico e humano de aceitar quem somos, com falhas, defeitos e qualidades, claro.

Outra razão pela qual as pessoas permanecem em relacionamentos prejudiciais é a crença no que chamamos de “amor incondicional”. As pessoas costumam perguntar o que significa amor incondicional, sem saber que não precisamos amar alguém que nos machuque e que se o fazemos é porque não sabemos nos desvincular de condições inaceitáveis, que nos obrigam a tolerar abusos, a fim de alcançar um certo amor – que não nos merece.

O amor é, por definição, uma emoção maravilhosa que só persiste quando é mútuo – quando as duas pessoas se tratam de maneira verdadeiramente amorosa, com base nas atitudes que envolvam bondade, respeito e generosidade. Quando isso acontece, cada parceiro oferece o que tem de melhor sem ressentimentos, sem almejar marcar pontos e sem pensar duas vezes – ou seja, incondicionalmente.

Quando um sentimento se torna condicional, quando começamos a ouvir: “Se você me ama, você vai fazer...” precisamos conceber que isto não se baseia mais em amor, mas numa mera e egoísta troca.

Se você entendeu quão injustas podem ser tornar estas negociações, pode pensar mais cuidadosamente antes de aceitar fazê-las, a partir de agora.

Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

 

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