VINGANÇA. VOCÊ JÁ PROVOU?

“Eu vou te pegar,
Eu vou atrás de ti até o inferno.
Vou te triturar,
Vou te ver arder no fogo eterno.
Vou furar teu olho, arranhar tua cara,
Vou quebrar tua perna, vou saber te machucar,
E quem sabe no final de tudo com você todo fodido
Eu possa enfim te perdoar
.”

In: Canção da Vingança – de Titãs

 

Uma coisa é certa: a pessoa que planeja vingança precisa manter suas feridas abertas porque, caso contrário, elas podem sarar – Francis Bacon.

Responda com sinceridade: quando alguém lhe machuca ou lhe trai, você sente que gostaria de devolver a dor na mesma moeda? E essa busca por vingança realmente lhe faz sentir-se melhor?

É bem verdade que esta resposta não é tão simples como alguns desejam. O fato é que quando somos feridos, esta pode ser uma resposta humana e natural. O instinto de vingança surge em muitas pessoas, mas nem todas irão atuar dentro dele.

Logo, o tema vingança inunda não apenas o imaginário coletivo, mesmo que enquanto uma mera possibilidade, mas, principalmente, muitas práticas orientadas no sentido de destruir tudo aquilo que é projetado nos outros – e que não se consegue realizar em si ou para si.

É preciso não perder de vista que pensar na possibilidade de uma revanche pode reabrir e agravar suas feridas emocionais. Ainda que você se sinta tentado a punir alguém, a verdade é que acabará se punindo por não pode se curar.

Mas o que você faz se foi prejudicado? Como você pode lidar com os intensos sentimentos emocionais? O que você faz se sente uma intensa necessidade de desforra?

Existe uma maneira saudável de lidar com esses afetos que podem ajudá-lo(a) a curar e dar ao seu cérebro a mesma quantidade de recompensas só que sem as consequências.

Aquele(a) que não consegue viver sem atormentar a vida da(o) ex-parceira(o), que não passa um dia sequer sem arranjar uma forma de atingi-la(o) das mais variadas formas, seja demonstrando ódio ou amor; aquele(a) que precisa berrar aos quatro ventos tudo o que sofreu e ainda sofre, no fundo, deseja chamar a atenção para si e para o que sente, desconsiderando o que a outra pessoa escolheu para si.

Conheço pessoas que passaram anos inventando formas, muitas vezes pouco razoáveis (para dizer o mínimo), de exibir suas feridas, aquelas mesmas que não deixam cicatrizar simplesmente porque decidiram que o “outro” não pode seguir a vida sem a sua perversa e avassaladora presença.

Por outro lado, é importante registrar que o sadismo é um traço de personalidade dominante que explica porque certas pessoas são mais propensas do que outras a buscar vingança.

Estas pessoas não gostam de admitir que possuem características ou tendências socialmente inaceitáveis. Aliás, se você perguntar ‘Você é uma pessoa vingativa?’ ninguém dirá que sim.

Ao compreender melhor o que leva alguém a se vingar de algo, podemos tentar identificar aqueles com maior probabilidade de cometer violências, por exemplo.

É evidente que nem todo mundo que se sente injustiçado sai matando quem encontrar pela frente. Nem todo mundo quando é injustiçado começa uma briga quebrando garrafas no bar. Mas algumas pessoas o fazem. E o tempo todo.

Enquanto sentimento, a vingança pode ser quase uma ‘arte’ praticada por aqueles que não admitem perder ou não sabem deixar de brigar. Ocupa a mesma face da moeda da carência, só que desenhada em cores desagradavelmente berrantes.

O problema de quem se alimenta dela é que enquanto vive esse rancor, tantas vezes encoberto, outras vezes escancarado, deixa de experimentar novos rumos e de procurar alternativas que ajudem a aproveitar as inúmeras possibilidades que a vida oferece, além da chance de vivenciar relações mais satisfatórias.

Concentra-se com tamanho empenho em “atazanar” a vida alheia que se esquece da própria existência e das gratificações que dela poderia extrair, se tamanha energia fosse investida em novos projetos.

Então, vingar-se de alguém porque deixou de ser amada(o) ou de fazer parte de sua vida, é o mesmo que gritar para ser ouvido por quem não possui a capacidade de ouvir. E não importa os motivos alegados: ter dado mais do que acredita ter recebido; ter aberto mão de inúmeras coisas; ter perdido oportunidades; ter deixado a própria felicidade de lado. Não passam de meras e esfarrapadas desculpas. Pretender vingar-se por ter sido preterida(o) ou esquecido(a) é optar por brigar solitariamente contra exércitos de sombras numa atitude que, de fato, só revela o ódio na sua mais concreta e assustadora concepção. Veja bem: ódio e não o decantado amor, como planeja transparecer.

O vingador deixa pistas porque pretende mesmo ser identificado. É uma carta anônima com nome e endereço de remetente pois deseja que seu alvo saiba do que ele é capaz e até onde pretende ir. Desta forma, é uma maneira de tentar ‘vencer’ pelo medo.  

Alguns desavisados espectadores do ato, muitas vezes, sentem-se comovidos e tendem a identificarem-se com o algoz que se autoproclama vítima. É o caso da mulher deixada pelo namorado que passa a mostrar publicamente a dor que garante sentir. Mesmo que utilizando palavras carinhosas quando se refere ao ‘ex’ ela, no fundo, deseja que todos o condenem por fazê-la tão infeliz.

Ou do sujeito que publicou inúmeras notas declarando um amor “extraordinário” pela ex-companheira, enquanto ela, discretamente, tentava seguir em frente, vivendo sua vida sem incomodar ninguém.

Até que ele encontrou uma forma que entendeu ser infalível para atingi-la: publicou fotos e trechos de cartas íntimas trocadas entre os dois muitos anos atrás com a alegada e falsa intenção de persuadi-la a retomar a relação. O resultado foi nefasto e transformou a vida da ‘ex’ num verdadeiro inferno com direito a um doloroso processo judicial que se arrasta há anos.

Portanto, anote aí: todo vingador se julga acima do seu objeto de vingança por subestimá-lo acreditando ser (muito) mais esperto que ele. Pretende debitar toda a sua incapacidade de viver em paz na conta do outro e pressupõe estar habilitado para ensinar-lhe uma “verdade” que só ele vê e que o faz humilhar-se para que aquele a quem martiriza sinta-se humilhado também.

Se eu pudesse falar-lhe claramente, diria:

Não se vingar, não fazer nada e avançar com a própria vida, com certeza, é a melhor forma de provar deste insosso e indigesto prato de mágoa profunda que fica como subproduto no final de um relacionamento. Mas, creia: esta experiência dolorosa pode nos tornar mais fortes e melhores. E muito mais interessantes!

Afinal, convenhamos, as relações começam e terminam como tudo na vida. Vá em frente que atrás – quando se está bem – sempre virá gente.

Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

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