E O RAIO DA FELICIDADE VIRTUAL?

Imagem Movimento Rede Social 2

“Perdoem a cara amarrada,
Perdoem a falta de abraço,
Perdoem a falta de espaço,
Os dias eram assim.

Perdoem por tantos perigos,
Perdoem a falta de abrigo,
Perdoem a falta de amigos,
Os dias eram assim….”

In: Aos Nossos Filhos – de Ivan Lins

 

 

Ninguém entra nas redes sociais para se sentir triste ou solitário. 

Apesar disto, vários estudos garantem que é exatamente assim que muitas pessoas se sentem nestes espaços. Ou seja, elas estão cada vez mais infelizes dentro da rede, muito embora finjam não estar.

E na mesma medida em que se simula falsas alegrias e efêmeros sucessos, a inveja também aparece como uma espécie de efeito colateral indesejável, principalmente se considerarmos que o uso destes meios pode se tornar rapidamente viciante, assim como desembocar em uma sensação persistente de negatividade, que pode levar ao ressentimento doentio e atroz. 

Ainda que pareça que desejamos aprender sobre outras pessoas e fazer com que outras pessoas aprendam sobre nós, é exatamente por meio desse processo altamente fantasioso que começamos a nos sentirmos frustrados tanto em relação à vida dos outros quanto com a imagem que temos de nós mesmos. 

É bem possível que a mesma coisa que as pessoas achem atraente seja o que elas acabam repelindo quando identificam dentro de si, num paradoxo confuso e doloroso.

A história a seguir é real e conta um pouco desta realidade.

Luis Carlos chegou ao encontro dos amigos bastante acabrunhado. Mesmo diante da sincera e calorosa recepção motivada, principalmente, por sua inexplicável ausência nas últimas reuniões, demonstrou abatimento e desalento.

Depois de alguns minutos, e frente a insistência dos presentes, esclareceu que o motivo de seu notório recolhimento fora um episódio depressivo no qual sentia-se, ainda, mergulhado. Afastara-se, desta forma, para não preocupar os amigos sempre tão felizes, e para não ser a nota destoante daquelas animadas celebrações, onde todos pareciam muito distantes da tristeza que o perseguia nos últimos tempos.

Percebendo que o amigo ficara bastante comovido, com os olhos marejados e a ponto de chorar, todos o abraçaram e fizeram algumas brincadeiras para desanuviar o clima carregado de emoção. Pouco tempo depois voltaram a parecer o pândego e ruidoso grupo contando piadas e rindo ao relembrar, pela enésima vez, algumas das aventuras vividas na época da faculdade e que eram também recontadas, quase que diariamente, nas páginas que mantinham em uma rede social.

Luis parecia já recomposto e participava da alegria com um pouco mais de entusiasmo. Pediram o jantar e saborearam a deliciosa massa da cantina que fora sorteada no mês anterior, como era o hábito do grupo nesses 22 anos de existência.

Fotografaram cada abraço, cada risada, cada passagem. Tudo devidamente registrado em suas contas pessoais e coletivas. Alguns, postaram em tempo real. Outros, um pouco depois.

E foi por isso que ninguém entendeu porque Luis Carlos, o amigo mais querido de todos, simplesmente excluiu seus perfis, trocou o número do celular e nunca mais compareceu aos encontros festivos.

A emblemática e, por sinal, verdadeira história serve para ilustrar um fenômeno bastante atual que proponho chamar de a acachapante necessidade de parecer feliz.

E isso, sem grandes análises ou conjecturas, significa que:

Se você não participar de muitas baladas, se não tiver muitos amigos, se não conquistar muitas curtidas em suas manifestações virtuais, você não será considerado uma pessoa feliz e popular. 

Se você não tiver ao menos um “curtir” para cada imagem publicada – mesmo que, ao fazê-lo, a pessoa não se dê ao trabalho de ver ou ler com alguma sincera atenção o que por você foi divulgado,  se não ‘emocionar’ ninguém, se não for mencionado numa foto qualquer – você estará bem distante de ser ‘admirável’. Se não puder exibir amigos que pareçam interessantes, brilhantes  e influentes, sendo que alguns devam parecer lindos e desencanados, você não terá mesmo grandes chances neste mercado.

Se você não se utilizar daquela convincente maquiagem que transforma toda a vida num sonho invejável e repleto de aventuras maravilhosas, sua trajetória estará fadada a ser considerada banal e demasiadamente sem graça. Logo, você estará a quilômetros-luz de parecer minimamente estimado e venerado.

Se a sua família – aquela mesma, cheia de gente pentelha, invejosa, rancorosa e rabugenta; gente doente, gente sem alguns dentes; gente esclerosada; gente que ronca, que bebe demais, que fala demais (besteiras, de preferência); gente que fuma, gente que adora uma fofoca, gente que mente e trapaceia, enfim, uma família igual às todas as demais famílias  – não puder parecer naturalmente perfeita nas fotos que você deseja divulgar, então, sinceramente, você está bem longe do ideal. Porque, sem uma imagem dessas, as chances de tornar-se um ‘ídolo virtual diminuem de maneira cabal.

Se você não conseguir manter bem escondidas suas mazelas, os sinais de conflitos e todos aqueles deslizes humanos, a imagem de harmonia e equilíbrio será colocada em cheque e você, certamente, sucumbirá ao crivo cruel do julgamento dos outros, aquela sinistra categoria onde se escondem todos aqueles seres invisíveis que estão a nos observar impassivelmente, submetendo-nos ao julgamento frio e impiedoso, capaz de nos aniquilar com suas atrozes sentenças.

Os inflexíveis outros e seus ameaçadores olhares a desconfiarem da veracidade da alegria estampada em nossas manifestações virtuais, da boa-fé das nossas confissões e dos nossos relatos. Os temíveis outros que nos afligem com seus preconceitos e suas implacáveis conjecturas.

Uma recente pesquisa registrou que ao se depararem com a aparência de tanto sucesso, tanta felicidade e tamanha ausência de problemas como, invariavelmente, fica registrado na timeline alheia, a tendência das pessoas é sentir que vivem defasadas em relação à maioria e que, portanto, são mais infelizes que os demais.

Quase 70% dos brasileiros se encontram engajados nas redes sociais e as mais utilizadas por aqui são (nesta ordem): Youtube, WhatsApp, Facebook, Instagram, Messenger, Twitter, etc.

Das duas, uma: ou no resto do mundo o povo tem mais o que fazer do que inventar amiguinho virtual para chamar de seu, ou o brasileiro é o povo mais amistoso sobre a face da terra. O que, convenhamos, seria um exagero e tanto. E não devemos perder de vista a informação mais importante: este Universo foi criado, exclusivamente, para impressionar a elite norte-americana formada pela Universidade de Harvard. Ou seja: nada a ver com nossa identidade latino-americana que teimamos em renegar.

Então, façamos um esforço para entender que aquele mundo onde todas as pessoas se amam sem restrições e onde as famílias não comportam raivas, despeitos, mentiras e, muito menos, traições; onde amigos não invejam amigos, nem carregam desconfianças entre si; onde ninguém se fere e tampouco se engana; aquele mundo onde o presente é promissor e prepara o futuro edificante, simplesmente NÃO EXISTE!

O que existe está bem aqui, à nossa mão, gritando através de uma realidade repleta de promessas – se ficarmos atentos para enxergá-la como se apresenta, na sua mais legítima configuração.

Para isso, urge que façamos algo verdadeiramente útil para nossas vidas: buscar a autenticidade perdida quando ainda éramos muito jovens e procurar superar, a cada dia, os entraves que criamos como forma de sobrevivermos sem grandes transtornos. Como? Fragmentando dentro da gente tudo o que for velho e estiver morto. Nos desfazendo, com sincero desapego, de tudo aquilo que não nos faz bem. Pois só assim nos tornaremos mais sólidos e fortes.

Teclar menos, abraçar mais. Deixar de postar para apostar na vida fora desta telinha tão concorrida.

Olhar para os dentros da gente. Porque é neste lugar, muitas vezes nebuloso, que vamos encontrar o que temos de melhor para ser e para dar. E é nele que vamos alcançar a nossa original e esplendorosa natureza humana.

E entender que, como diria nossa Cora Coralina do alto dos seus 95 anos de idade, “o importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade”.

E isso não dá mesmo para fotografar ou postar.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

 E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

 

 

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