O ABUSO MORA AO LADO

Imagem Movimento Marionetes 2

“Ser o senhor e ser a presa
É um mistério, a maior beleza;
Amor é dom da natureza.
Amar é laço que não escraviza…

Ser o que serve e é servido,
Só o amor é tão bonito.
Ser o que planta e sentar à mesa,
Amor é dom da natureza.
Água que limpa e mata a nossa sede,
Sede de viver…
De deixar viver…
De fazer viver…
E de ser feliz!”

In: Coisas da Vida – de Milton Nascimento

 

Relações abusivas ocorrem em convivências que – no âmbito reservado, público ou familiar – se sustentam através do exercício de controle, manipulação, desrespeito e até violência.

É uma ‘doença’ que pode ocorrer em todo tipo de relacionamento, seja ele oriundo de laços familiares ou não.

Pais podem se tornar abusivos, ainda que pareçam prestativos e carinhosos, assim como namorados(as), amigos(as), parentes, chefes, etc. Ou seja: qualquer forma de ligação humana pode servir de espaço propício para fazer brotar o que de pior existe dentro de nós.

As formas de abusos variam entre a meramente emocional (e nem por isto menos lesiva), passando pela verbal até alcançar, muitas vezes, a física e a sexual.

Pessoas abusivas, via de regra, também foram vítimas de algum tipo de abuso no decorrer de suas vidas.

E é bastante provável que jamais tenham se reconhecido como vítimas deste padrão relacional. Desta forma, aquele tipo de relação é o único modelo que possuem em seu repertório – pobre e desfalcado de novos e saudáveis parâmetros.

Mas ter esta consciência, evidentemente, não as exime da responsabilidade de repensarem suas nefastas práticas e sua corrosiva maneira de ser.

Então, deixem-me contar algumas histórias de abusos claramente reconhecidos dentro de relações aparentemente insuspeitas e cuja reflexão tive o imenso prazer de ajudar a provocar. Elas muito contribuíram para minha prática nestes anos de experiência clínica.

Caso 1

Carla era uma garota muito bonita. Desde a infância despontou como a criança mais linda da família, da vizinhança e da escola. Onde chegava chamava a atenção não só pelos belos traços como pela incrível e exuberante simpatia. Sua irmã e seu irmão mais velhos eram graciosos, mas não se destacavam tanto quanto ela.

Por algum motivo, porém, aquilo incomodava sobremaneira a mãe que percebia, com algum desconforto, os olhares embevecidos do pai diante daquela filha tão meiga e formosa.

Não tardou para que ela começasse a ‘revelar’ as outras tantas qualidades da filha Cláudia, as quais insistia em não conceber em Carla. Passou a aclamar acerca das aptidões artísticas e esportivas da mais velha, assim como sua ‘impressionante’ capacidade com nomes, números e datas, habilidades que passavam ao largo da filha mais bonita e limitada. Logo, Cláudia passou a ser vista como a mais interessante, inteligente e capacitada enquanto que Carla, apesar da aparência deslumbrante, não se saia bem em quase nada!

Em pouquíssimo tempo, na altura da adolescência, Carla já se sentia insuficiente para todas as coisas que não dissessem respeito a sua beleza. Como não cresceu o suficiente para tornar-se modelo, passou a tentar a carreira como manequim e deu-se bem durante algum tempo. Depois também tentou ser atriz, sempre sustentada pela mãe que se ”conformava” com o fato de que a filha não dera certo na vida. “Apesar de linda”, costumava dizer.

Ou seja, o desejo interno de arruinar aquela figura com a qual internamente antagonizava, posto que provoca-lhe profunda e inconfessável inveja, fez com que esta destrutiva e ciumenta mãe ajudasse a formar uma jovem absolutamente incapaz de perceber suas capacidades e seus recursos a fim de tornar-se minimamente independente e feliz.

Assim a beleza, no lugar de lhe conceder algum benefício, passou a ser vivida enquanto um verdadeiro fardo.

Foi preciso muita dor e uma grande dose de autoconhecimento para que esta bela mulher (depois de muitos anos) enxergasse o tamanho do prejuízo que sua mãe, ainda que sem total consciência, provocara em sua vida.

E, para tanto, foi necessário distanciar-se dela. Desmisturar-se deste vínculo doentio de dependência que fora criado, ainda que a mãe clamasse por gratidão chamando-a de ingrata.

Cláudia, a outra filha, também sofreu com tais excessos. Fez uma faculdade que não desejava, casou-se com um homem de sucesso que não amava e teve filhos lindos sem estar preparada. Enfim, tentou alcançar o lugar de sucesso que a mão lhe reservara em nome de apagar a existência da filha que tanto a perturbava.

Portanto, aviso aos navegantes: as mães, humanas que são, também carregam seus conflitos e aflições. Se for o caso da sua, seja firme, ainda que suave. Afaste-se dela para sobreviver melhor e com mais qualidade. É bem possível que, diante disto, ela também vá finalmente procurar se autoconhecer para dar conta das suas próprias mazelas.

Caso 2

Luciana casou-se com o primeiro namorado. Ela, uma moça simples de família humilde. Ele, um homem belo de uma das famílias mais ricas da pequena cidade do interior de São Paulo onde ambos moravam.

Com ele teve a sua primeira experiência sexual. Logo, tudo o que ela sabia sobre sexo aprendera através dele – e não junto com ele. O que quer dizer que aprendeu como agir, o que dizer e, principalmente, o que não fazer na cama com ele. E só muitos anos depois – e após o divórcio – foi que descobriu que jamais tivera um orgasmo – isto quando entendeu o que era um.

No começo no namoro, todo aquele cuidado e suposta idolatria do companheiro a embeveciam. Percebia, envaidecida, os olhares invejosos das meninas da cidade. Ele não a deixava ir sozinha a lugar nenhum. Não lhe permitia sequer visitar seus parentes desacompanhada. Com o tempo, acostumou-se com tanto “zelo”.

No dia do casamento, no entanto, estranhou quando o agora marido reclamou enfurecido do modo como dançara com seu tio mais querido. Perguntou-lhe, entredentes, se gostara de esfregar-se àquele “velho nojento”.

Luciana computou este deslize na conta do excesso de champanhe e não pensou mais no caso.

A partir da lua de mel, no entanto, percebeu que o marido passara a desaprovar constantemente suas roupas por menos decotadas que fossem. Se antes havia um pouco de preocupação da parte dele, naquele momento tal cuidado já se revelava para além de exagerado. Tentou conversar e ouviu que ele não se casara com uma “puta”.

Deixou pra lá porque preferiu acreditar que tratava-se de excesso de amor. E também deixou de pintar as unhas com esmaltes vermelhos, usar batom nos lábios, blusas que revelassem os contornos de seus seios, saias que mostrassem seus joelhos e mais uma porção de outras coisas. Da menina alegre e cheia de vida restara pouco. Quase nada.

Com o tempo tornara-se tão amarga que já não se reconhecia nos espelhos da casa. E, então, passou a evitá-los.

Nos restaurantes que dificilmente frequentavam era obrigada a sentar-se de costas para qualquer tipo de movimento sob o risco dele achar que estivesse admirando algum homem que por ali passasse.

E apenas depois do segundo e doloroso parto –onde não contou com a companhia do marido que alegava não suportar ver sangue – foi que recebeu uma ‘carta anônima’ dando conta do nome e do endereço da suposta amante do parceiro que, quando questionado, ainda se deu ao luxo de bater em sua cara quebrando-lhe dois dentes enquanto acusava-a de vagabunda e mentirosa.

Foi preciso muita força e um tanto de coragem para recuperar, dentre  tantos caquinhos, o fio de esperança que lhe restava.

Este homem ainda tentou atrapalhar não só a vida dela como a dos filhos sonegando pensão e acesso às coisas que tinham construído juntos.

Hoje, Luciana, com um novo e radiante amor, garante que por nada nesse mundo trocaria a alegria da sua atual liberdade pela gaiola dourada onde permitiu que fosse por anos aprisionada.

Portanto, cuidem-se. Homens controladores são fortes candidatos a serem descontrolados em seus comportamentos “privados” – ou seja, longe de você. Olho vivo. Porque todo comportamento exagerado em relação ao outro procura esconder justamente aquilo o que se pratica e que não se deseja ver reconhecido como seu.

E como este post não poderia esgotar-se em apenas dois casos, na próxima semana trago mais. Prometo.

E aguardo sua mensagem caso deseje me contar sua história. Sem identificações desnecessárias e, como sempre, com todo o meu respeito.

Até lá!

Escreva para: psicologaheloisalima@gmail.com 

E acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

 

2 pensamentos sobre “O ABUSO MORA AO LADO

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