SOBREVIVENTES DE GUERRA

BLOG 0 ÓDIO NOSSO DE CADA DIA (DE ONDE VEM O ÓDIO MORTAL) Imagem 2

“Talvez alguém não aceite outra versão dos fatos:
Que a fantasia é a mordaça da realidade…
Os ídolos de barro para os insensatos,
E aos verdadeiros homens, homens de verdade.

Quem foi o herói que era fidalgo e nobre,
Foi um barão duma rabeira pobre.

Quem foi o Herói que libertou o homem,
Foi quem lutou para não passar mais fome.”

In: Guararapes – de Dorival Caymmi

 

 

Muita gente anda se perguntando: o que fazer nesse momento tão emblemático, mas, ao mesmo tempo, tão confuso e desolador?

Ora, num país com tantos desacertos e conflitos, além de tamanha miséria, não podemos nos dar ao luxo de pessimismos. É preciso manter acesa uma chama de esperança que nos aqueça a todo instante. Necessitamos ser otimistas. Olhar adiante com alegria e entusiasmo – porque é só para frente que devem seguir nossos passos. E, para tanto, é imprescindível não ter pressa.

Há um enorme abismo entre nossa história, como país colonizado e submetido aos desmandos das várias metrópoles que se foram alternando no alvissareiro posto, e a possibilidade de nos tornarmos uma civilização definitivamente independente, autônoma e verdadeiramente humanizada.

Tal dicotomia, aparentemente, resulta dos acontecimentos históricos e dramáticos que nos envolveram desde os primórdios da colonização e que fizeram desmoronar quaisquer possibilidades de construirmos uma identidade nacional de imediato, sem mediações, confeccionada de um amor francamente altivo ao que significamos enquanto “pátria” assim como uma teia consistente de boas relações sociais e, consequentemente, interpessoais.

Como sobreviventes de guerra, nos mantemos dentro de uma arena onde os conflitos são cotidianos e impregnam todas as nossas relações pessoais. E é este ambiente competitivo, hostil, indiferente, insano e, basicamente, perverso, que nos conserva muito distantes dos laços da fraternidade, amizade, solidariedade, mais comuns nas sociedades que não viveram guerras declaradas ou veladas – igualmente desumanizadoras.

Logo, perdemos um mundo possível para vivermos em uma espécie de dimensão transitória, em um limbo onde tudo ainda está por vir, ser ou acontecer.

Enquanto ‘nação’ precisamos resolver questões de base que conceberam evidentes e profundas desigualdades que não são mais passíveis de serem sequer camufladas. Estas mesmas que nos separam de maneira irreconciliável.

Nossa sociedade criou condições terrivelmente favoráveis para as injustiças, os preconceitos de todas as ordens, os ódios de diversas matizes, as discriminações e os piores tipos de intolerâncias.

Somos, paradoxalmente, um povo de diferentes que não toleram diferenças!

Desta forma, as novas e atuais gerações se ressentem muito da falta de saberes e de experiências consistentes acerca de laços de afetos, companheirismos e camaradagens.

Muito bom seria se os intelectuais, os formadores de opinião (seja lá o que isto signifique), os astutos, os peritos, os estudiosos, os velhacos e os cientistas – todos quase sempre tão cínicos quanto imorais – que permanecem comodamente trancados dentro de seus conchavos, seus grupinhos fechados, suas salas fétidas, de suas academias empertigadas, realizando pesquisas encomendadas por interesses privados, esperando honras e prêmios, certos de que estão cheios das sabedorias que, longe do povo, não servem para absolutamente nada – funcionassem, neste rico momento, como uma ponte, uma espécie de contrabandistas dos conhecimentos de um lado para o outro.

Talvez, desta forma, abandonassem seus longínquos castelos e viessem testar suas (vãs?) teorias no meio da sua gente. E, assim, uma nova ciência se forjaria a partir desta preciosa matéria prima.

Sabemos que tudo se transforma de dentro para fora. Não existe nenhuma outra maneira de fazer nascer um ser, uma história, uma pátria.

É preciso começar a pensá-la a partir do começo – onde éramos animais gregários, fortemente adaptáveis e, de forma absoluta, intrinsecamente amorosos e solidários.

Voltar a tecer nossa rede de relações fundamentada nas necessidades básicas de sobrevivência da espécie, proteção, cuidado mútuo, empatia, observação serena, alegria, benevolência, amor e, acima de tudo, na intuição que urge ser resgatada.

Todos os laços podem ser fortalecidos pela imprescindível semente da confiança – substrato indispensável para a construção da coletividade baseada na igualdade e na fraternidade.

Mas, como disse o poeta Walt Whitman: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma.”

Descontando o temor e a incerteza – sentimentos que quase nos compõem integralmente, com bons motivos para tanto – fora a ambição que impulsiona o desejo de estar acima dos outros, de ser mais e maior que tudo o que nos cerca e, sem considerar, ainda, a sedução pelo poder e o orgulho exacerbado que nos domina, temos ainda uma maravilhosa capacidade humana de nos amarmos com atenção e ternura.

Vamos entender que “nossa pátria” nasce em nosso grupo mais íntimo (seja de sangue ou não, isto muito pouco importa, creia) que, por sua vez, nasce a partir dos laços que estabelecemos com nossos semelhantes. Não existe outra sequência possível.

Se observarmos que a razão da paz que nosso país parecia representar se assenta sobre coisas que não conhecemos, entenderemos que é para isso que servem as competições, a falta de parceria e amizade, as drogas, os circos, as novelas e os programas de auditório – para que ninguém descubra os demônios e nem abra a “caixa de pandora”.

Se nos concentrarmos no que realmente importa, ou seja, em construir relações pessoais realmente afetivas e profundas que possam criar vínculos profícuos de confianças, teremos condições de reencontrar um fio da meada.

Por isso, a receita é bem simples: não se impressionar com as flácidas dimensões das coisas. Elas podem se esvaziar rapidamente, num piscar de olhos. E vão.

Vamos?

Daí, a importância de reter o que sobressai da bruma oriunda dos gazes vorazes emanados das armas nas mãos das milícias ferozes.

Conversar muito, reunir mais, trocar impressões e ideias. Ler, debater, estudar. Desenvolver laços, sair da frente do computador e do celular para experimentar o revolucionário e verdadeiro contato humano. Abraçar não apenas causas, rixas, reivindicações mas, sobretudo, os parceiros dessa nossa tão breve jornada.

Que desta magnífica experiência se crie uma estrutura mais ampla de relações humanas porque apenas estas serão capazes de sustentar e defender os justos ideais e, assim, transformar nosso país em um lugar onde se possa desejar viver – com orgulho e apreço.

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