PERTO DE VOCÊ UMA CRIANÇA SOFRE

Imagem Movimento Abuso 6

“Como as plantas somos seres vivos,
Como as plantas temos que crescer.
Como elas, precisamos de muito carinho,
De sol, de amor, de ar pra sobreviver.

Quando a natureza distraída
Fere a flor ou um embrião,
O ser humano, mais que as flores,
Precisa na vida
De muito afeto e toda compreensão.”

In: Natureza Distraída – de Toquinho

 

Ou: Até quando vamos permitir que todos os tipos de abusos contra nossas crianças continuem a ocorrer?

INFÂMIA 1: L.A.M.M., de 16 anos, foi estuprada pelo avô, um velho de 64 anos, que é delegado no interior de São Paulo. A mãe da menina também acusa o pai de estupro na adolescência. A infâmia seguinte fica por conta da recente sentença proferida por um “juiz”:

“A não anuência à vontade do agente, para a configuração do crime de estupro, deve ser séria, efetiva, sincera e indicativa de que o sujeito passivo se opôs, inequivocamente, ao ato sexual, não bastando a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte. (…) Não há prova segura e indene de que o acusado empregou força física suficientemente capaz de impedir a vítima de reagir. A violência material não foi asseverada, nem esclarecida. A violência moral, igualmente, não é clarividente, penso”.

A menina, logo depois, tentou suicídio.

INFÂMIA 2: Há pouco tempo, outro velho, coronel da PM carioca, de 62 anos, feio, grotesco e arrogante, foi surpreendido no meio da noite dentro do seu carro, estacionado em um posto de gasolina, abusando sexualmente de um bebê de 2 anos de idade. A menininha, que estava nua, chorava desesperada nas mãos do maníaco canalha que ainda teve coragem para tentar subornar os policiais que o abordaram. Tinha (e ainda tem) tamanha certeza da sua impunidade, pois vive num país conhecido pela sua falta de justiça e pela forma dantesca com a qual trata suas crianças, seus jovens, suas mulheres, seus índios, seus negros, seus LGBT’s e todos os demais.

INFÂMIA 3: A menina, de apenas 12 anos, escreve para a mãe uma carta. E, em letras garrafais, suplica: “ME PERDOA. ME AJUDA.” Na mensagem a garota conta que é abusada pelo próprio pai há mais de um ano e que o último abuso havia acontecido naquele dia, na frente do irmãozinho de dois anos que chorou muito ao ver a cena.

INFÂMIA 4: A menina Laura Cardoso, de 3 anos, foi estuprada pelo padrasto Rafael Silva dos Santos e morreu do traumatismo craniano que sofreu durante o espancamento.

INFÂMIA 5: A mãe de uma menina de 9 anos, descobriu, ao ler seu diário, que a filha era abusada pelos próprios parentes. Após conversar com ela, denunciou o caso à Polícia Civil, que prendeu os suspeitos: o avô materno, de 52 anos, o marido da avó, de 42, o padrinho da garota, de 54, e o padrinho da irmã dela, de 52, único que negou o crime. A criança relatou que sofria abusos há cinco anos.

INFÂMIA 6: O “pastor” Felipe Heiderich foi denunciado pela esposa, a também “pastora” Bianca Toledo, por abusos sexuais cometidos contra o filho dela, um menino de 5 anos.

INFÂMIA 7: Após ser estuprada pelo primo do pai, de 32 anos, menina de 5 anos pede pra morrer. Quero ir morar com Deu”, falou a criança enquanto o acusado oferecia uma casa, em Cubatão, para que pais não o denunciassem.

INFÂMIA 8: Um “líder religioso” abusava sexualmente da própria filha desde que ela tinha 14 anos. O “pastor”, que é dono de duas igrejas, alegou que agia em nome de Deus e mantinha tais atos para comprovar a virgindade da adolescente.

INFÂMIA 9: A menina de 13 anos grava toda a cena do estupro praticado pelo pai e mostra para a diretora da escola em que estudava em Alto Taquari. Foi a única saída que encontrou para se salvar.

INFÂMIA 10: O empresário Evaldo dos Santos, 41 anos, abusou sexualmente da própria filha por quatro anos (dos 12 aos 16 ), segundo a mãe da menina, Marli, que o denunciou.

INFÂMIA FINAL (por que não haveria espaço para as centenas de milhares de casos): Há poucos dias, em Maceió, o caso de estupro contra uma criança de seis anos só veio à tona depois que o irmão dela, de 9 anos, que era obrigado a presenciar o crime praticado pelo padrasto dentro de casa, passou a se mutilar. O sofrimento do garotinho só foi percebido pelos colegas de escola, que resolveram contar aos professores.

A família é o lugar onde se pratica a grande maioria das violências assim como quase todos os homicídios de crianças.

De acordo com estatísticas os autores são principalmente os pais, sendo que as figuras paternas são responsáveis pela maioria das violências sexuais (81,6% dos autores) e as maternas pela negligência e descuidos gerais (considerando que são elas que, na maior parte dos casos, cuidam dos filhos).

Com a invisibilidade e a impunidade, a família pode vir a ser uma das piores ‘áreas livres’ para a prática de ilegalidades, e se transformar em um sistema totalitário real, onde todos os direitos fundamentais das crianças são violados e onde é possível se cometer crimes e ultrajes inconcebíveis contra pessoas indefesas, totalmente dependentes e privadas de liberdade.

A criança ainda é, muitas vezes, considerada uma propriedade de seus pais aos quais ‘deve’ respeito e obediência. No entanto, esta autoridade “master” dos pais deveria durar apenas até verdadeiramente protegerem a criança na segurança, saúde e educação, a fim de garantir sua autonomia e permitir seu desenvolvimento, com o devido respeito à sua integridade. Mas não é o que ocorre em grande parte das vezes.

Pais que maltratam filhos são geralmente protegidos em nome de um cínico e sórdido “respeito sagrado” à família, à tradição e à “relação” pais e filhos. Da mesma forma, quando a criança está exposta a algum tipo de violência doméstica grave, e não necessariamente física contra ela, como, por exemplo, quando um dos pais é violento com o cônjuge – geralmente com a mãe – este ainda pode ser considerado um “bom pai”, mesmo que sustente crianças aterrorizadas e traumatizadas.

A fala da criança é sempre pouca considerada e, muitas vezes, desqualificada.

Muitas crianças, que não são salvas em nenhum desses estágios das violências que ocorrem dentro da sua infância ou adolescência, costumam apresentar, como sequela, uma variedade imensa de sofrimentos enquanto transtornos de conduta (suicídio, automutilação, fuga de casa, suicídio, comportamentos de risco, uso de álcool, abuso de drogas, pequenos delitos, etc.).

Segundo o CRAMI – Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância do ABCD – 90% dos casos de violência praticada contra crianças e adolescentes não são denunciados.

Lembre-se sempre de que o agressor procura fazer com que a criança abusada pareça ‘participar’ do abuso e a faz acreditar que “aquilo” nada mais é do que um jogo divertido e que ela também é responsável por ele.

Desgraçadamente, na maioria das vezes, a criança esconde os abusos. O agressor a convence ameaçando-a com intimidações sutis (‘sua mãe vai odiar você por isso’) ou descaradas (‘vou matar sua mãe’).

Então, cabe a cada um de nós a tentativa de transformar esta situação. Portanto, preste bastante atenção em tudo aquilo que parecer não estar indo bem em relação àquela criança ou adolescente próximos de você. Identifique como sinais de alerta se ela:

  1. É extremamente submissa;
  2. Parece muito agressiva e antissocial;
  3. Apresenta um fraco ou quase inexistente relacionamento com seus colegas e tem muita dificuldade de criar vínculos de amizade e de participar nas atividades escolares e sociais;
  4. Tem dificuldade de concentração na escola;
  5. Apresenta queda repentina no desempenho escolar;
  6. Demonstra muito medo de adultos de sexo oposto ao seu;
  7. Tem pesadelos ou outros problemas de sono, sem uma justificativa médica ou psicológica;
  8. Parece, muitas vezes, estranhamente distraída ou distante;
  9. Tem uma súbita mudança de hábitos alimentares ou se recusa a comer;
  10. Perde ou aumenta drasticamente o apetite;
  11. Tem problemas com deglutição;
  12. Sofre mudanças de humor repentinas com raiva, medo, insegurança ou silêncio;
  13. Deixa “pistas” que parecem querer provocar uma discussão sobre questões sexuais;
  14. Escreve, desenha, toca ou sonha com imagens sexuais ou de natureza assustadora;
  15. Desenvolve medo novo ou incomum por certas pessoas ou lugares;
  16. Recusa-se a falar sobre um segredo compartilhado com um adulto ou criança mais velha;
  17. Fala sobre um novo amigo mais velho;
  18. De repente tem dinheiro, brinquedos ou outros presentes sem motivo;
  19. Pensa de si mesma ou de seu corpo como algo repulsivo, sujo ou ruim;

(Os sinais a seguir são mais típicos em crianças menores)

  1. Comporta-se como se fosse mais jovem do que é;
  2. Tem novas palavras para partes específicas do corpo;
  3. Resiste em tirar a roupa em situações apropriadas (banheiro, cama, troca de fraldas);
  4. Solicita que outras crianças se comportem sexualmente ou joguem jogos sexuais;
  5. Imita comportamentos sexuais de adulto com brinquedos ou bicho de pelúcia;

(As seguintes evidências são mais comuns em adolescentes)

  1. Pratica alguns tipos de autolesão (cortes, queimaduras, etc.);
  2. Mantêm uma higiene pessoal inadequada;
  3. Faz uso abusivo de drogas e álcool;
  4. Passa a ter atitudes sexuais promíscuas;
  5. Foge de casa;
  6. Apresenta sinas de depressão e ansiedade;
  7. Passa por tentativas de suicídio;
  8. Demonstra muito medo da intimidade ou proximidade;
  9. Come compulsivamente ou faz dieta o tempo todo;

(Os próximos alertas físicos são menos frequentes)

  1. Dor, descoloração, sangramento ou inflamações em órgãos genitais, ânus ou na boca;
  2. Sente dor persistente ou recorrente durante a micção ou evacuação;
  3. Defeca ou urina fora do toalete.

O que você pode fazer ao perceber alguns desses sinais? Não espere por mais “provas” de abuso.  Observe com muita atenção. Procure padrões de comportamento que tornam aquela criança ou adolescente menos seguro. Mantenha o controle e:

  1. Fale imediatamente com algum familiar de confiança que não esteja entre os “suspeitos”;
  2. Procure algum profissional (judicial, policial ou da área médica ou psi);
  3. Ligue para o Disque 100 – serviço do governo federal que recebe denúncias de violações de direitos humanos;
  4. Procure pelos Conselhos Tutelares da sua cidade aqui: http://www.sdh.gov.br/assuntos/criancas-e-adolescentes/programas/fortalecimento-de-conselhos/cadastro-nacional-dos-conselhos-tutelares-2
  5. Pesquise os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) pois oferecem o atendimento direto e especializado a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual da sua cidade. Em São Paulo, procure aqui:  http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/assistencia_social/cras/index.php?p=1906
  6. Utilize o http://new.safernet.org.br/denuncie para crimes desta natureza dentro da internet;
  7. Os números 191 e 190 também atendem este tipo de denúncia 24 horas por dia e sete dias por semana;
  8. Baixe o aplicativo Proteja Brasil que é gratuito e permite a toda pessoa se engajar na proteção de crianças e adolescentes. É possível fazer denúncias pelo aplicativo, localizar os órgãos de proteção nas principais capitais e ainda se informar sobre as diferentes violações. As denúncias são encaminhadas diretamente para o Disque 100, serviço de atendimento do governo federal. Aqui: http://www.protejabrasil.com.br/br/
  9. A criança pode usar o Canal 123 Alô. Esse serviço funciona por telefone se você estiver no Rio de Janeiro, ou por chat se você estiver em qualquer lugar do mundo, Aqui: http://www.noos.org.br/123alo/

Este último é o tipo de serviço que precisa ser expandido para todo o país e funcionar 24 horas por dia.

No Brasil nossos jovens deveriam ser ensinados em casa, na escola, por outdoors espalhados pelas cidades e pela televisão, a utilizar um número fácil que poderia ser acessado gratuitamente, inclusive em telefones públicos, e que lhes garantiria sempre alguém disponível para ouvir, responder, registrar e cuidar de todas as suas dúvidas, queixas e denúncias. Ou um aplicativo bem simples onde pudesse gravar o seu sofrimento.

O que estamos esperando para exigir que isto ocorra por aqui?

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para: psicologaheloisalima@gmail

6 pensamentos sobre “PERTO DE VOCÊ UMA CRIANÇA SOFRE

  1. Pingback: PERTO DE VOCÊ UMA CRIANÇA SOFRE – O PODER DA LEITURA

  2. não sei se fico feliz ou imensamente triste com todas estas informações, sei que temos que falar sobre; mas é deplorável até onde vai um ser ao fazer estas coisas, confesso que não sei como lidar com todas estas informações.
    seu post é bastante intenso e parabéns por ter como fazer estas denuncias.
    boa semana

  3. Pingback: PERTO DE VOCÊ UMA CRIANÇA SOFRE — O sentido do ser | O LADO ESCURO DA LUA

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