QUANDO O SILÊNCIO É O COADJUVANTE ATROZ

blog-criancas-abandonadas-final-imagem-1

“A violência está em todo lugar.
Não é por causa do álcool,
Nem é por causa das drogas.
A violência é nossa vizinha.
Não é só por culpa sua,
Nem é só por culpa minha.
Violência gera violência.
Violência doméstica violência cotidiana,
São gemidos de dor todo mundo se engana.
Você não tem o que fazer saia pra rua
Pra quebrar minha cabeça ou pra que quebrem a sua.

In: Violência de Titãs

 

Segundo o dicionário informal, o termo pastor teria se originado no grego poimén, aquele que ‘apascenta’ – que significa conduzir à paz como um pacificador. Ou aos pastos. Aquele que cuida, alimenta e protege as ovelhas das bestas feras.

O problema é que grande parte destes ‘pastores’, na verdade, são os próprios lobos devoradores.

Enfim. O fato é que uma mulher, autointitulada ‘pastora’, se juntou ao seu segundo marido, também autointitulado ‘pastor’, e, durante anos, ofereceu ‘conselhos amorosos’ a desavisados casais que estavam passando por algum tipo de problema conjugal. E fizeram muito sucesso.

Tempos depois, no entanto, a mulher descobriu que seu filho de 5 anos – do matrimônio anterior – estava sendo vítima de abuso sexual por parte do companheiro. O ‘pastor’.

Quando já seria bem viável imaginar que conflitos entre os dois ‘pastores’ existissem, ela revelou a ausência de desejo sexual do marido desde a noite de núpcias.

Ainda assim, fotos e notícias publicadas acerca deste estranho par, davam conta de uma felicidade de fachada. Como o são todas as vidas que teimam em se exibir através das redes sociais.

Diante de fatos como estes, ocorre-me, então, fazer a pergunta incômoda que provavelmente poucos arriscam fazer:

Até que ponto certas pessoas são capazes de ir para fingirem um equilíbrio que NÃO possuem e uma felicidade que NÃO sentem?

No caso do descarado pastor, não há mais desculpas para se subestimar a habilidade do pedófilo precisamente porque ele tem total entendimento da situação na qual se envolve.

Sabe que “famílias” fazem qualquer coisa para manterem as aparências. E é desta forma que ele fica no controle. E este controle só conseguirá ser mantido se o criminoso contar com o silêncio e a cegueira dos adultos próximos – cúmplices que preferem fingir não enxergarem os rastros que constantemente são deixados como rastros de sangue.

E pistas podem aparecer tanto nos comportamentos e nas opiniões expostas pelo malfeitor quanto em seu jeito de se relacionar com pessoas e problemas de maneira geral.

Por outro lado, meu conhecimento e minha experiência clínica me levam a crer que o silêncio, junto ao desconhecimento e à desinformação, tem sido o maior e mais feroz aliado deste crime.

Quando um adulto se cala a respeito dos perigos e das armadilhas às quais as crianças estão cotidianamente expostas, está colocando-as frente ao mundo adulto e diante de seus potenciais algozes, de forma despreparada e desprotegida.

Não conversar abertamente com as crianças a respeito do assunto caracteriza uma forma de abandono. Mais que isso: uma certa conivência com a trágica situação que daí poderá advir.

Registro isto porque quando escrevi sobre crianças, principalmente sobre as meninas que são as presas preferenciais do predador sexual, recebi muitas cartas e depoimentos de pessoas que, vítimas deste crime hediondo, que me fizeram compreender outro aspecto fundamental neste drama:

O complicado e, muitas vezes, possível processo de recuperação do inevitável trauma que irá se instalar, só ocorrerá se houver uma compreensão geral e irrestrita de que, em nenhum momento e de forma alguma, estes jovens e crianças tiveram qualquer responsabilidade sobre esta terrível e penosa experiência.

Uma das inquietantes facetas da personalidade doentia do malfeitor é a de que ele tem absoluta consciência da impropriedade de seus desejos e instintos.

Por isso, como predador que é, rastreia um indefeso ser com o qual possa estabelecer uma doentia relação de poder unilateral na medida em que tudo o que o pretende é subjugar e retirar toda e qualquer capacidade de resistência contra suas investidas.

O criminoso prevê cada passo com astúcia e precisão, contando com a perspectiva da impunidade, por um lado, e com o medo da vítima e da família, por outro.

Além do mais, sem informações adequadas e sem uma transparente educação sexual voltada para a consciência do próprio corpo e para os limites que os cuidados com ele devem impor, não há como prever o primeiro ataque, assim como não existe muita chance deste escapar.

Não, se considerarmos que vivemos numa sociedade extremamente doente, onde o individualismo é a moeda corrente e a frieza é o comportamento que nos domina.

Se fôssemos uma comunidade mais amorosa onde as pessoas, além de seus afazeres diários e de suas tarefas cotidianas, tivessem oportunidade de conversar e trocar ideias, o entendimento e a convivência ocorreriam com muito mais prazer e harmonia e, certamente, nos sobraria TEMPO – esta mercadoria tão valiosa pela qual os homens matam e morrem – e nos caberia muito mais amor e afeto a serem compartilhados. 

Mas não é assim que ocorre em nossa em nossa tão combalida e desafortunada sociedade, onde ninguém consegue cuidar do outro com a atenção e o carinho que todos necessitamos.

Justamente por conta disto é que, nos casos em que a pessoa é mantida como refém deste abuso, a razão reside única e exclusivamente na falta destas condições e do aporte familiar, aliados a inexistência de uma rede de apoio capaz de acolhê-la e socorrê-la. E isto, em se falando de Brasil, é praticamente uma utopia.

Depois de sofrer a violência, a vítima também não conta com ambientes propícios à revelação, que poderiam envolver, além da família, a escola ou algum grupo de apoio ao qual eventualmente pudesse recorrer.

Mesmo assim, para a maioria destas pessoas, sejam homens ou mulheres, o fantasma da culpa é outro indesejável coadjuvante que, muitas vezes, permanece ao seu lado por um longo e sofrido tempo.

Reconhecer o trauma, ter espaço e condições para falar sobre ele com pessoas preparadas para compreender a profundidade da dor que provoca, oferecendo acolhimento incondicional e sem julgamentos, são condições básicas para que a superação se dê.

E, desta maneira, extirpar o tormento, como quem retira um tumor maligno, se torna o caminho viável para se alcançar a plena sanidade e o almejado equilíbrio.

E, para auxiliar na identificação de alguns dos sinais que vítimas de abusos podem emitir, ainda que silenciosa e discretamente, preste muita atenção quando e se:

  • O menor disser que foi tocado de forma inadequada ou sexual;
  • Começar a se comportar de forma estranha em relação aos outros (incluindo contatos físicos bizarros);
  • Usar, repentinamente, linguagem de cunho sexual;
  • Parecer saber mais sobre sexo do que deveria, na sua idade;
  • Se retrair diante de alguns ou de todos os membros da família, dos amigos, dos professores ou de uma pessoa em particular;
  • Começar a apresentar sintomas de depressão ou ansiedade;
  • Estiver se machucando (automutilação) e escondendo as marcas;
  • Escolher se menosprezar, demonstrando uma baixa autoestima;
  • Aparecer com marcas de sangue em suas roupas íntimas;
  • Se queixar de dor na área genital;
  • Apresentar lesões genitais, hematomas, hemorragias ou inchaço. As lesões podem causar dor ao caminhar ou sentar;
  • Mudar em relação ao aproveitamento escolar, com flagrante desinteresse, rebaixamento de notas, tarefas perdidas, faltas repetidas, etc.;
  • Manifestar sintomas regressivos, como molhar a cama ou chupar o dedo;
  • Expressar cuidado excessivo em relação a segurança dos irmãos mais novos;
  • Mudar hábitos de higiene, recusando-se a tomar banho ou manter-se limpo, ou, ao contrário, passar a se limpar de maneira compulsiva;
  • Aparecer em casa trazendo presentes ou dinheiro de uma pessoa mais velha (um vizinho, pastor, professor, treinador, etc.).

Certas situações colocam as crianças em maior risco de abuso sexual. Um jovem também pode estar correndo perigo se:

  • Morar em uma casa onde os pais são divorciados e / ou moram com os padrastos ou desconhecidos;
  • Viver em uma região com pouca ou nenhuma segurança;
  • Ter sido vítima de outro tipo de abuso, como físico ou emocional.
  • Costuma ficar longos períodos de tempo a sós com pessoas revestidas de algum tipo de ‘autoridade’, como professores, médicos, clérigos, treinadores, babás, etc.

Se você souber que uma menor foi abusado sexualmente, denuncie imediatamente à polícia. Leve-o ao médico para um exame. Procure ajuda.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “QUANDO O SILÊNCIO É O COADJUVANTE ATROZ

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s