SUICÍDIO: O QUE PRECISAMOS ENTENDER

Imagem Movimento Gota de Água

“E o que eu posso ser até o amanhecer
É a soma de tudo,
Eu quero mudar o mundo.
Então eu posso ser até o amanhecer
Quem em alguns segundos
Ilumina o mundo
.”

In: Ilumina o Mundo – de Detonautas Roque Clube

 

Já é bem sabido que as taxas de suicídio aumentam em tempos de conflitos sociais e incertezas econômicas. O brutal impacto da recessão sobre a saúde mental e as taxas de suicídio da população é absolutamente claro.

Medidas de austeridade – como cortes atingindo o bem-estar da população e os gastos com saúde, educação, previdência, etc. – também foram identificadas como causa para picos nestes índices.

Diante da atual crise econômica do Brasil, envolvendo fechamentos de empresas, perda de empregos, dificuldades financeiras, dívidas, aumento dos valores das contas essenciais, além da ausência de perspectivas promissoras, não é de surpreender que este relato negativo e implacável da presente situação brasileira esteja afetando a saúde emocional de tantas pessoas, ao mesmo tempo em que se percebe o drástico aumento nas taxas de depressão e automutilação.

Perda de benefícios, cortes salariais ou rebaixamentos e redução de horas de trabalho, são também identificados como graves estressores financeiros que atingem os que permanecem empregados.

Muitos destes indivíduos não estão sequer em contato com os serviços de saúde mental ou com algum médico capaz de identificar o problema, por motivos óbvios: não possuem recursos para tanto.

O aumento do desemprego parece responder por cerca da metade do crescimento estatístico das mortes por suicídio durante estas crises; dívidas e o impacto das medidas de austeridade são provavelmente outros importantes contribuintes.

A falta de oportunidades de trabalho para os jovens é um dado particularmente dramático neste momento. E não é à toa que, segundo um recente estudo, o suicídio entre os 10 e 19 anos de idade cresceu 24% nas seis maiores cidades brasileiras: Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

Pessoalmente, tenho ouvido muitas queixas sobre ausência de confiança numa melhora, de emprego, de dinheiro, de afeto, de solidariedade e de esperança num futuro melhor, entre outras sentimentos que remetem ao abandono e a solidão.

E me preocupa que este quadro de desesperança generalizada esteja alcançando tanta gente.

De acordo com um recente relatório da OMS a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. O país com maior número de mortes é a Índia.

A cada 40 minutos uma pessoa se mata no Brasil. 79% homens. 21% mulheres. E os homens são os que mais resistem a pedir ajuda.

Para cada 10 suicídios acontecem de 40 até 60 tentativas. 

O Brasil já é o MAIOR PAÍS DO MUNDO com pessoas portadoras de transtornos de ansiedade.

E 90% dos casos de suicídio poderiam ser prevenidos. E cada um desses tristes eventos impacta cerca de 125 pessoas próximas ou não.

Este mesmo levantamento aponta o Brasil como o oitavo país neste triste páreo. E tenho grandes motivos para acreditar que esta posição já tenha subido alguns pontos.

Em nosso país, todos os dias, trinta e duas pessoas consumam sua intenção de tirar a própria vida. Mas o número de casos pode ser muito maior – isto porque muitos não são esclarecidos ou são encobertos pelos familiares.

Não obstante sua prevalência na camada com idade superior a 50 anos, a prática suicida vem aumentando significativamente entre jovens e adultos dos 14 aos 30 anos de idade.

É, de fato, uma estatística impressionante esta que aponta os muito jovens (começando aos 5 anos de idade) dentre os potenciais suicidas em nosso país. Não é raro que muitas pessoas deprimidas – e não tratadas – estejam entre as vítimas desta epidemia, além de também estarem propensas a se utilizarem do álcool e das drogas a fim de atenuarem a angústia que sentem.

De qualquer maneira é muito importante observar que o suicida pode emitir sinais do seu sofrimento, por vezes, durante muito tempo.

Alguns aparentam uma irritabilidade aparentemente incompreensível, acompanhada de um profundo estado de tristeza e, também, de sentimentos de medo e de culpa.

Outros, de repente, começam a se despedir dos amigos e familiares, colocam suas coisas em ordem, parecendo terem alcançado uma súbita melhora no seu estado depressivo.

No entanto, trata-se de uma “falsa calmaria” que pode estar a um passo do desfecho fatídico.

Os sintomas que podem servir de alerta para o fato de que um indivíduo está pensando em suicídio coincidem frequentemente com os da depressão. 

Eles geralmente variam, mas é importante ressaltar que os indivíduos depressivos são perfeitamente tratáveis – desde que diagnosticados.

Normalmente, a tomada de decisão se dá de maneira gradual e, portanto, pode passar despercebida. Mesmo a própria pessoa pode assumir que está apenas passando por uma “transição normal da vida”, onde os relacionamentos e as experiências não são tão interessantes ou emocionantes como uma vez foram.

Isso nunca é verdade.

Como já registrado, a depressão e os pensamentos suicidas podem ser provocados por uma variedade de causas, incluindo retrocessos ou decepções na vida, perdas diversas, divórcio ou rupturas de vínculos amorosos, estresse emocional, perdas financeiras, doenças médicas, histórico familiar ou genético, desemprego, traumas, pessimismo, baixa autoestima, condições físicas ou mentais, etc.

Qualquer uma dessas causas ou uma combinação de várias delas pode contribuir para a depressão, porque trazem desespero e desalento quando não compartilhadas. Pode ser a ‘gota d’água’.

Depressão ou pensamentos de suicídio podem afetar qualquer um. A notícia encorajadora é que a depressão é totalmente controlável e os pensamentos de suicídio podem ser transformados em pensamentos de esperança. 

Para descobrir o diagnóstico e opções de tratamento em potencial, é preciso conversar com amigos, familiares e profissionais da área psi.

É preciso entender – e acreditar – que existem ajuda disponível. Muitas pessoas que vivem com depressão ou pensamentos de suicídio acreditam que estarão “presas” dentro deste círculo para sempre. Isto não é verdadeiro. Todas as situações e circunstâncias podem ser transformadas. Tudo pode melhorar. 

Mas o primeiro e mais importante passo sempre será decidir buscar tratamento e apoio e isto fará toda a diferença.

E quais são os sinais de alerta?

Tentar ajudar alguém, neste sentido, depende da nossa capacidade de reconhecer as pessoas que estão em perigo. Existem algumas chaves que podem ser percebidas por todos que se interessem por aquele ser humano em sofrimento. Algumas delas:

1 – Ideação (pensamentos suicidas) – fala muito no tema e procura informações/notícias a respeito;

2 – Abuso de substâncias – começa a beber demais, fumar demais e usar drogas em abundância;

3 – Sensação de inutilidade – comenta que não serve para nada, que nada do que faz é bom e em nada se sai bem;

4 – Ansiedade constante – apresenta medos difusos e frequentes;

5 – Sentimento de falta de perspectivas – perde o interesse em atividades que anteriormente apreciava; não tem mais vontade de começar ou de recomeçar coisas;

6 – Sensação de desesperança e de desamparo – ainda que existam pessoas dispostas a fornecer apoio, não percebe qualquer sinal de empatia; seu mundo encontra-se sombrio e ameaçador;

7 – Falta de espaço para o consolo – quando não percebe sequer suas necessidades emocionais; não permite mais a aproximação das pessoas que antes lhe eram caras;

8 – Raiva – diante do seu isolamento passa a enxergar o mundo como algo assustador e as pessoas como ameaças potenciais; transforma-se numa pessoa muito agitada propensa a atos/respostas agressivos ou violentos;

9 – Imprudência em diversos aspectos da vida – dirige perigosamente; adota hábitos sexuais promíscuos; deixa de medicar-se; alimenta-se mal; abandona o autocuidado e negligencia suas necessidades básicas;

10 – Mudanças dramáticas de humor – a pessoa antes satisfeita e tranquila transforma-se em alguém predominantemente impaciente e impulsivo.

11 – Mudanças pessoais bruscas – perde ou ganha peso rápido demais; sente-se cansado a maior parte do tempo; muda drasticamente hábitos alimentares e de sono;

Existem, ainda, outros comportamentos a serem percebidos e que podem sugerir que alguém está em risco de suicídio que incluem algumas expressões verbais diretas e indiretas como: “Eu não quero mais viver“, “Não há mais nada para fazer“, “As pessoas ficarão melhor sem mim“, etc.

No entanto, esta realidade continua a ser largamente ignorada.

Para os amigos e famílias resta o sentimento de perda que é agravado pela sensação de que algo poderia ter sido feito: “como não fomos capazes de detectar que isso iria acontecer?

Culpa e tristeza ficam misturados à desolação que, em geral, é vivida em silêncio numa martírio onde sobram perguntas e faltam respostas. São as outras vítimas. E sobreviventes também precisam de ajuda para avançar. 

Sempre importante lembrar que o CVV – Centro de Valorização da Vida – oferece importantíssimo apoio emocional na prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat, nas 24 horas de todos os dias da semana. Para tanto, ligue 188 ou acesse https://www.cvv.org.br/

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