VOCÊ JÁ (SE) ENGANOU HOJE?

Imagem Movimento Político Mentindo

“Estava aqui tentando entender
Por que o ser humano gosta tanto de poder?
Alguns roubam sem pensar e se importar,
Fazendo nosso povo sofrer e agonizar.
A manhã de vocês é burlar e infringir,
Fazendo chorar quem se esforça pra sorrir.”

In: Ladrões – de Marcelo Falcão

 

É bem possível que você tenha se envolvido em um algum tipo de ‘auto enganação’ neste final de semana – e que tenha ficado completamente em paz com isto. 

Vamos dizer que você pegou uma barra de chocolate extra, sabendo muito bem que não lhe faria bem. Mas, afinal, tratava-se de um fim de semana e você só queria relaxar. Certo?

Mas há um outro lado muito mais arriscado deste espectro, que é quando as mentiras que você alimenta se transformam em verdades para outras pessoas, causando-lhes prejuízos e tornando as coisas muito mais complicadas para todo mundo.

Estes tipos de mentiras são, basicamente, classificados de duas formas: ignorância intencional e auto engano. Embora ambos carreguem motivações psicológicas parecidas, a ignorância intencional envolve negligenciar informações importantes sobre como suas ações afetarão os outros. Já o auto engano, como o nome sugere, está associado a uma busca de vantagens psicológicas ou pessoais que a pessoa procura acreditar serem justas.

E é fácil perceber como eles estão muito interligados.

Por outro lado, a escolha deliberada que muitas pessoas fazem de não conhecer a informação verdadeira, não é simplesmente uma ‘anomalia do comportamento humano’. Trata-se de um problema social que precisa ser repensado. 

A psicologia, por exemplo, foi aprimorada através de processos de aquisição de conhecimento e curiosidade humana. O desejo de não desejar conhecer, ao contrário, é ainda muito mal percebido ou estudado.

Mas podemos inferir que o que controla o auto engano e a ignorância intencional é o denominador comum do egoísmo que impulsiona muito do comportamento humano. 

Alguns estudos demonstraram que os líderes políticos que tomam decisões ruins com resultados prejudiciais para o conjunto da população – fingindo-se intencionalmente de ignorantes sobre tais resultados – geralmente são menos punidos do que os ditadores que agem descaradamente. 

Portanto, isto parece dar bastante certo para pessoas sem caráter.

Outros levantamentos identificaram esta espécie de ignorância deliberada como um mecanismo de regulação de emoções e de eventuais arrependimentos, uma maneira de evitar a responsabilidade ao mesmo tempo em que se tem o desempenho impulsionado. Podemos pensar nisso como um analgésico, com a diferença de que, ao invés de engolir uma pílula, você diz a si mesmo(a) que, enfim, todos esperam que você coma a totalidade do chocolate que você sabe que não deve comer.

Resumindo: o auto engano basicamente funciona da mesma forma que o ato intencional de enganar os outros. 

E, a partir daí, a pessoa evita informações críticas a fim de não conhecer toda a verdade. Preconceitos não são muito auto ilusórios, mas o auto engano envolve um viés sobre qual informação você aceita. A auto ilusão pode ter um propósito evolutivo, apesar de aparecer de uma maneira descaradamente deprimente: nós nos enganamos porque, numa sociedade doente como a nossa, todos treinam para serem os melhores mentirosos. 

O auto engano pode ser uma ferramenta importante nessa luta social, permitindo que os enganadores escapem dos esforços de detecção. Em outras palavras, quanto mais nos convencermos de pequenas mentiras, menor a probabilidade de demonstrarmos o nervosismo e as tendências idiossincráticas que denunciam as mentiras, permitindo que nos tornemos poderosos, mesmo que precariamente. 

A ciência também mostra que somos muito bons em mentir para nós mesmos. Em um estudo recente, pesquisadores conduziram uma série de testes em que permitiram que um grupo de indivíduos tivesse melhor desempenho em um teste do que outro grupo, abrindo a este um discreto acesso às respostas antes do início da avaliação. Na segunda fase do estudo, descobriram que o grupo que recebeu a ‘permissão’ para ver as respostas demonstrou se iludir ao pensar que suas pontuações mais altas se deviam a alguma inteligência recém-descoberta. Eles imaginaram, inclusive, que teriam um desempenho similar em testes futuros, mesmo que suas próprias habilidades não tivessem nada a ver com o quão bem eles tivessem ido.

O que quer dizer que, embora as pessoas saibam que irão trapacear, elas não preveem o auto engano e, assim, os fatores que reforçam os benefícios da trapaça reafirmam a fraude, concluíram os pesquisadores.

Além de transgredir sob uma espécie de tapete psicológico, as pessoas podem usar os resultados positivos, frutos destas mentiras e resultantes de um comportamento imoral, para melhorar suas opiniões sobre si mesmos.

Mas e a tecnologia? Vivemos em uma época em que você pode pesquisar um(a) pretendente antes de conhecê-lo(a) pessoalmente e saber se o perfil do Tinder é um conto cuidadosamente elaborado ou factualmente correto. A internet e o acesso que temos de nossos smartphones e laptops, afinal, é um farol de conhecimento. Basta pesquisar. Ocorre que os resultados desta pesquisa também precisam de um tipo de senso crítico que a maioria das pessoas prefere não exercitar.

Então, o auto-engano permite que as pessoas parem de coletar informações quando apreciam os retornos iniciais.

Logo, a tecnologia estimula o hábito da ignorância intencional, porque é tão fácil manipular as crenças selecionando apenas algumas informações prontamente disponíveis. 

Essa decisão de aceitar o que faz alguém feliz e ignorar o resto tem grande chance de ser um dispositivo de gerenciamento de informações, devido ao ataque de informações com as quais lidamos diariamente. 

Um americano médio devora, avidamente, cerca de 34 gigabytes de informação e 100.500 palavras por dia. Em retrospecto, enquanto isso é uma tonelada de informações, ainda é uma quantia minúscula, considerando o quanto nós temos em potencial para captar.

Dependendo da perspectiva, a Internet é um paraíso ou um mundo inferior, onde as pessoas se afogam em quantidades absurdas de informações intratáveis. E fundamentalmente perigosas. Nós podemos nos enganar ou, simplesmente, lidar com o fato de que nunca saberemos realmente tudo. E, ainda assim, tudo ficar bem. Será mesmo?

Portanto, um conselho: duvide do que parecer normal. Não caia na aparente facilidade representada pelo fato de que todos os seus pares ‘pensam’ de maneira igual. Isto não significa pensar necessariamente. Pode apenas demonstrar sua preguiça ou sua limitação. 

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Um pensamento sobre “VOCÊ JÁ (SE) ENGANOU HOJE?

  1. Muitas das vezes, se não a maioria do tempo estamos no automático, simplesmente seguindo o fluxo sem nem ao menos nos questionar “porque”. Acredito que se a gente nã procurar nossa razão de viver o sistema vai lá e da uma pra gente e dai a gente finge que fomos nos que escolhemos.

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