UM AMOR PARA RECORDAR

Imagem Movimento Dedo e Borboleta

Drão…
O amor da gente
É como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela noite escura…”

In: Drão – de Gilberto Gil

Era apenas mais um casamento que se consumara.

E foi assim pensando que Sandra esperou estancar a tremenda dor que lhe invadiu a alma assim que começou a separar, dentre as fotos que não estavam organizadas nos raros álbuns, as que desejava manter consigo. Flávio deixara-a totalmente à vontade quanto a isso e assim, aleatoriamente, cumpriu o insólito ritual de rever a história de um casal que acabara de assinar o divórcio.

Já estava a um passo de arrepender-se de tal exercício quando divisou uma porção de fotografias que nunca mais avistara.

Fotos de um ano-novo passado na praia.

Sandra surpreendeu-se ao notar a existência do retrato em meio a tantos outros que, durante muito tempo, acreditara perdido. Logo abaixo deste encontrou outras fotos do acampamento. Recordou, então, de uma época em que viajar para as praias do litoral norte de São Paulo era sinônimo de incríveis proezas e belas aventuras.

Naquele tempo praticamente não existiam campings organizados e toda turma que se prezava tinha um par de barracas, meia dúzia de colchonetes, um fogareiro, uma porção de caixas de isopor e um inesgotável estoque de repelente suficiente para enfrentar os inesquecíveis acampamentos selvagens como, com muito orgulho, denominava-se tal empreitada.

Sandra precisou fixar bem o olhar para distinguir cada membro do alegre grupo que se acotovelava a fim de se encaixar na foto, entrelaçando um casal, naquela altura, recém-casado. Sandra e Flávio. Mil novecentos e setenta e quatro? Ou teria sido setenta e seis? Fechou os olhos e fez as contas. Casaram-se onze meses antes do nascimento de Pedro. Trinta e cinco anos atrás.

Mil novecentos e setenta e cinco, final de janeiro, não havia mais dúvida. Eram nove pessoas exprimidas dentro de duas barracas. Sorriu ao recordar que uma delas, recém adquirida por um dos amigos, possuía até uma área externa para abrigar diversas cadeira de alumínio e custou cerca de oito horas para ser montada, levando todos ao divertido experimento de juntar os incontáveis canos e traves na tentativa de mantê-la erguida tal qual o desenho cheio de setas demonstrava.

Exauridos, já no meio da madrugada, e embalados pelo som do afinado violão de Luiz Carlos, resolveram comemorar aquela espécie de palafita de lona na qual o conjunto, erguido sobre a areia, se transformara, com o mais memorável porre que foi diversas vezes lembrado, entre risos e piadas, durante os anos que se seguiram.

Bem ao lado de Flávio na foto, estava Ricardo. Amigo brilhante e extremamente inteligente, aluno de engenharia química e, acreditando-se com talento para chef, mentor de quase todos os cardápios que, invariavelmente, davam errado. Logo do seu lado, cabelos ruivos e sedosos, sorriso aberto que escancarava dentes perfeitos e enormes, encontrava-se Julita, sua namorada, aluna do instituto de física, dona do mais vasto repertório de piadas de judeus, sendo ela própria uma judia pândega e desbocada. Ao seu lado o músico Luca, como Luiz era chamado, e colado a ele, Maria Eugênia, sua eterna candidata a apaixonada namorada.

Lembrou-se que todos adoravam aborrecê-lo com insinuações que sempre o irritavam, perguntando como não sucumbia às tentações daquela caloura da faculdade de matemática. Eles, de fato, nunca sequer namoraram e soube-se, muito tempo depois, que ele casou-se com uma professora de história quinze anos mais velha. Ao lado de Sandra, a sorridente Solange, estudante de medicina que, anos depois veio a fazer um dos seus partos e, agachado entre todos, Zé Milton e Américo, queridos amigos. Por onde andariam agora?

Zé Milton era o mais velho da turma e, na época, o único já divorciado. Proeminente pesquisador de geologia, amigo dos mais gentis, dono da única barraca fácil de ser armada e do único carro, uma camionete rural capaz de abrigar todos dos apetrechos e onde também era sempre acolhido todo e qualquer caronista atrasado. Américo, por sua vez, dono de uma gráfica e casado com Solange, era o único que não cursava nenhuma faculdade.

Formavam um bando alegre, ruidoso e cativante. Escolhiam praias extraordinárias para desbravar um pedaço do oásis divisado em meio a exuberantes paisagens, inesquecíveis imagens cujas fotografias, que Sandra comovida neste instante revia, tentavam reter em seu momento mais fascinante e encantador.

Voltou a primeira foto e, emocionada, lembrou-se de quando decidiram comemorar aquela passagem de ano na praia e de como escolheram a menos conhecida na época, praia da Baleia, certos de que usufruiriam momentos de absoluta paz e preciosa privacidade. E assim transcorreu o primeiro dia, passado no puro desbravamento do amplo terreno, quando uma linda nascente foi encontrada, próxima ao local escolhido para a montagem das barracas, assim como uma encosta pouco íngreme onde todos os apetrechos de pescaria de Zé Milton poderiam ser aproveitados.

Naquela noite foram dormir mais cedo com a promessa de um dia inesquecível pela frente. De tão cansada que estava, Sandra pensou ser parte de um sonho a impressão de ouvir barulho de motor de  carros durante a madrugada. Acordou com o grito assustado de Solange que havia sido escalada para o café da manhã: “—Gente, acorda rápido! Apareceram duas barracas bem do nosso lado!”.

E foi assim que todos descobriram que uma família, formada por oito pessoas, tivera a mesma genial ideia que acreditavam, até então, inusitada. Um casal com quatro filhos, a sogra e um sobrinho decidiram acampar bem pertinho do grupo ali instalado e a surpresa maior veio no decorrer dos dias seguintes. A comitiva possuía uma barraca que servia como cozinha e que contava com uma espécie de armário de onde saíram taças, talheres, além de uma completa baixela de prata pronta para acomodar uma ceia completa.

Para espanto de todos, a trupe de boquiabertos jovens foi convidada a juntar-se àquela família e, de quebra, acabou utilizando a barraca que servia como banheiro e que, por razões óbvias, mudava de lugar a cada dia que se passava.

E, desta forma, deu-se uma das mais agradáveis e alegres passagens de ano da sua vida.

Sandra não pode deixar de enternecer-se ao recordar da inesperada amizade que uniu aquele grupo aparentemente tão desafinado.

Recordou que a solidariedade naquele tempo lhe era tão familiar quanto amar um amigo, um filho ou um parceiro de trabalho.

Abraçou, então, com carinho cada retrato e decidiu que deixaria exatamente a metade deles para o ex-companheiro de jornada, percebendo que a raiva e os ressentimentos resultantes  das brigas cada vez mais freqüentes nos últimos tempos, davaM lugar a um afeto muito especial por aquele que testemunhara sua trajetória até o presente momento.

A delicada memória de uma vida a dois que completavam deixara, finalmente, um rastro de boas lembranças que naquele mágico instante Sandra resolveu jamais tentar apagar e das quais nunca mais buscaria esquivar-se.

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