O SUICÍDIO DO MEU MELHOR AMIGO (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Suicídio 1

“Quando não houver saída,
Quando não houver mais solução,
Ainda há de haver saída,
Nenhuma ideia vale uma vida.

Quando não houver esperança,
Quando não restar nem ilusão,
Ainda há de haver esperança,
Em cada um de nós
Algo de uma criança.”

In: Enquanto Houver Sol – de Titãs

 

Eu e Lucas éramos os melhores amigos desde meninos. E, ainda assim, jamais suspeitei que ele estivesse sendo, diariamente, atravessado pela dor da depressão e dos pensamentos suicidas.

Conheci o Lucas quando, aos nove anos, ele e sua família se mudaram para o mesmo prédio em que eu e a minha morávamos.

A primeira vez que o vi foi numa partida de futebol, quando ele entrou para o meu time e deu dois gols contra. Fiquei tão furioso que imediatamente o considerei “o pé esquerdo da turma”.

O fato é que ele manteve esse título por anos, primeiro como um apelido hostil e, depois, como um meio de provocá-lo até rirmos muito daquele episódio inicial.

Desta forma, viramos grandes amigos a partir dos nossos dez anos de idade, quando nossa rivalidade juvenil se transformou numa amizade firme e genuína. 

Crescemos e Lucas foi se transformando num sujeito amigável e sempre bem humorado. Por vezes, ele se mostrava ligeiramente irritadiço com coisas bobas que podiam acontecer cotidianamente com qualquer um. Uma piada fora de hora, ou uma história mal contada, podia tirar seu paciência, ainda que fosse por um pequeno lapso de tempo e até que tudo voltasse ao normal.

Mesmo assim, posso honestamente afirmar que Lucas era o companheiro favorito de todos nós. Quem o conhecia o amava logo de cara. Era uma criatura fácil de se lidar. Ele era legal com todo mundo, solidário, inteligente, descontraído e incrivelmente engraçado. 

E foi por isso que seu suicídio chocou todos nós de maneira visceral. 

Eu estava na aula quando um professor me pediu para ir encontrar alguém no corredor. E lá estava nosso diretor que, colocando o braço nos meus ombros, disse “isso vai ser muito difícil para todos nós“. 

Daí, me levou até uma sala, onde outro amigo já se encontrava chorando histericamente, e, olhando para mim, disse as três palavras que mudariam para sempre a minha vida: ‘Lucas está morto’.

Naquele momento, surgiu na minha cabeça a imagem registrada numa fotografia que minha mãe colocara na estante da sala, junto com as da nossa família, onde eu e Lucas, abraçados, ríamos olhando para câmera. Tínhamos, ali, 14 anos.

Assim, quando ouvi aquela notícia, fui ficando completamente entorpecido. Acabáramos de completar dezessete anos! Dezessete anos de uma vida que apenas começara.

Jovens da nossa idade deveriam estar fazendo planos para encontros com garotas, planejando transformar este mundo maluco, mas nunca, nunca mesmo, contemplando o suicídio tão de perto. 

Aquilo estava errado. Meu querido amigo definitivamente não podia ser um suicida.

Ele era o cara que ficava acordado a noite toda comigo enquanto eu reclamava das coisas mais banais, como ocorrências familiares ou meninas que não me davam a menor bola. A gente brincava e ria de tudo quase todo tempo. Era o cara que corria de bicicleta ao meu lado, descendo as ruas íngremes do nosso bairro. Vivia de forma vibrante e animada. Ele não podia estar deprimido.

Só muitos anos depois foi que entendi que os estigmas ligados à questões de saúde mental traziam em si o poder devastador de se tornarem tão difíceis para as pessoas, que, no lugar de partilhá-los, elas acabavam lutando para escondê-los.

Não tenho qualquer dúvida de que a escolha de fazer medicina e, depois, psiquiatria, tenha tudo a ver com minha necessidade de compreender aquele gesto. Eu precisava entender meu amigo para conseguir seguir adiante. E foi o que fiz.

Comecei constatando que estereótipos negativos, criados para representar os problemas que envolvem a saúde mental, ainda fazem com que aqueles que estão com dificuldades tenham medo de sofrer o isolamento social, caso decidam se manifestar.

As pessoas que acabam por falar sobre sua depressão são frequentemente (muito mal) orientadas a acreditar de que seus sentimentos ou fazem parte de uma ‘fase passageira’ ou podem ser curados com ‘orações’ ou ‘pensamentos positivos’. 

Logo, quando os pensamentos prejudiciais não diminuem, aqueles que estão mental ou emocionalmente perturbados desenvolvem uma atitude reativa, onde passam a acreditar que não adianta ‘tentar’ dividir ou superar a dor – o que muitas vezes os leva aos incontroláveis pensamentos suicidas.

Só para se ter uma ideia, o suicídio tornou-se uma questão totalmente desenfreada nos Estados Unidos. Nos últimos 20 anos, o índice aumentou 33%. Uma fundação americana dedicada à prevenção do suicídio informa que ele é uma das principais causas de morte e que, para cada morte, há pelo menos 25 tentativas.

É a segunda principal causa de morte na faixa etária entre os 10 e 34 anos.

No Brasil, suicídios aumentaram 2,3% em um ano e se contabiliza 1 caso a cada 46 minutos. Uma pesquisa organizada pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) detectou que, entre 2006 e 2015, o suicídio entre adolescentes cresceu em 24%.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos alguém no mundo interrompe a própria vida e o número destes óbitos é significativamente maior que aqueles causados por homicídio: 800 mil por ano, contra 470 mil

Importante dizer que, diferente de algumas representações tipo ‘hollywoodianas’, o suicídio não é algo romântico ou melodramático. A decisão de tirar a própria vida é trágica em si. E perder alguém para o suicídio não é emocionante, é esmagador – o que torna o silêncio acerca dele um esforço tão enorme quanto inútil.

Até Lucas decidir tirar a própria vida, o suicídio aparecia como uma espécie de piada entre nós, como uma resposta risível diante de qualquer inconveniente, junto da expressão “oh, céus, vou me matar!”.

Isto pode parecer inofensivo, mas considere o impacto que esse tipo de declaração pode causar em alguém que pensa nisto de fato. 

A banalização do suicídio impede a conversa sobre sua prevenção e permite que a estigmatização continue.

A verdade sobre saúde mental e suicídio raramente é discutida ou reconhecida de forma realista pela sociedade como um todo. 

Eu lembro da minha frustração quando, 20 anos depois, a famigerada série 13 Reasons Why se tornou popular no Netflix e um grupo de colegas, médicos, resolveu debater ‘alegremente’ sobre o drama e o fato de descobrirem porque a personagem Hannah se matara. Recordo-me de apertar o punho por debaixo da mesa, tão furioso que fiquei com a ausência de reflexão que ainda envolve os problemas relacionados a saúde mental.

Prevenir o suicídio tem a ver com tomar consciência da necessidade de se cuidar da verdadeira saúde mental. Tentar reduzir as taxas de suicídio também significa trabalhar para criar mais acesso aos cuidados para todos os cidadãos. Cuidar da saúde mental afetada é caro e normalmente não envolve práticas acessíveis para a grande maioria. Como sociedade, precisamos enfatizar sua importância e garantir que as pessoas possam acessá-las.

Quando perdi o Lucas, perdi um dos meus melhores amigos de infância. Sua morte, primeiramente, criou um buraco dentro de mim. Depois, aos poucos, me fez consciente de que cada uma das milhares de pessoas que cometeram suicídio precisava ter sido ouvida, acolhida e compreendida.

Por mais que parta meu coração, não podemos rodar o filme da vida para trás a fim de salvar essas vidas. No entanto, ainda existem brasileiros e brasileiras que lutam com a depressão, com problemas de saúde mental e pensamentos suicidas. Falar sobre isto, poder comunicar a dor, pode ajudar a acabar com o tolo e mortal preconceito. Além de salvar vidas.

Aqui no Brasil, o CVV – Centro de Valorização da Vida – oferece apoio emocional na prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone ou e-mail e chat, nas 24 horas de todos os dias. Para tanto, ligue 188 ou acesse https://www.cvv.org.br/

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