O ESTRESSE DE UMA SEPARAÇÃO

Imagem Movimento Coração Partido 3 

“A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa entender que um amor de verdade
É feito canção, qualquer coisa assim,
Que tem seu começo, seu meio e seu fim.

A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa aprender a começar de novo,
É como tocar o mesmo violão
E nele compor uma nova canção.”

In: Começo, Meio e Fim – de Tavito

 

A separação (ou divórcio) é considerada um dos eventos mais estressores que pode acontecer na vida de alguém. Para muitos, trata-se do pior acontecimento que precisaram enfrentar.

Importante ressaltar que a reação ao estresse foi em nós projetada para que fosse acionada em face de um perigo real – como quando estávamos sendo perseguidos por um leopardo na natureza. Esse tipo de evento era de fato intenso (posto que ameaçador), mas de curta duração.

Desta maneira, fomos preparados para o estresse agudo em resposta ao perigo concreto – e não para o estresse crônico que passamos a ter de suportar, por exemplo, em relação aos prazos exigidos no trabalho, diante das cobranças acadêmicas ou da quantidade de dinheiro que nos falta no banco.

Com todas as pressões e preocupações que temos em nossas vidas hoje em dia, viver com o estresse crônico é a norma, nunca a exceção. Agora, adicione o divórcio a essa indigesta mistura.

Dezenas de estudos comprovaram que uma experiência estressante tem o poder de comprometer gravemente nosso sistema imunológico

Na década de 20, os fisiologistas Walter Cannon e Hans Selye iniciaram uma pesquisa que visava estabelecer e analisar as conexões causais entre episódios estressores vividos por uma pessoa e suas doenças físicas e/ou psíquicas. Tais resultados originaram a tabela denominada de “Síndrome Geral de Adaptação” ou “Estresse” – cujo termo foi ‘emprestado’ da engenharia em 1936, onde era usado para determinar o desgaste de materiais submetidos à pressões excessivas.

No final da década de 30, o psiquiatra Adolf Meyer criou uma lista de situações que servia para sintetizar os dados de seus pacientes e que ficou conhecida como o primeiro instrumento para investigar os eventos de vida dos indivíduos.

Esta ideia foi aprofundada pelos especialistas em estresse, os americanos Thomas Holmes e Richard Rahe, na década de 70. Concluíram que os sentimentos produzidos por determinadas alterações vivenciais eram fatores importantes para previsão de futuras doenças. Esta classificação envolveu pesquisas com cerca de 5.000 pessoas na Europa, Estados Unidos, Oceania, América Central e Japão. Os dados foram obtidos através de entrevistas abertas, solicitando que cada participante relatasse, por escrito, um evento marcante que viveu. A ‘tabela da vida’ procurou demonstrar quais eram os acontecimentos na trajetória das pessoas que as afetavam internamente de forma mais grave.

Apesar de criticada por conta da sua flagrante limitação, esta escala ainda é o único estudo ‘científico’ utilizado para fundamentar muitos trabalhos acadêmicos. Portanto, todo o cuidado é pouco. Mesmo assim, confiro-lhe bastante crédito baseada nas minhas experiências clínicas e pessoais.

Segundo esta escala, usada como referência para graduação do estresse produzido por diferentes ‘mudanças de vida’, o evento divórcio/separação ocupa o segundo lugar (73) perdendo apenas para morte do cônjuge (100). Neste índice encontram-se 43 mudanças drásticas, e é atribuído a cada uma um valor quanto à capacidade de provocar estresse – em uma escala de 1 a 100.

O fato é que esbarrei e ainda esbarro com o tema “separação” de diversas formas. No consultório, acompanhando pessoas no enfrentamento desta questão, pessoalmente ou acompanhando amigas e amigos próximos.

Enfim, que atire o primeiro buquê quem não casou com o firme desejo de manter-se naquela união ad infinitum.

Por mais que aprendamos, no decorrer da nossa existência, que muitas coisas podem não durar para sempre, que ninguém é de ninguém, que nascemos sozinhos e é desta forma que partiremos sabe-se lá para onde (ou como), decididamente não somos aparelhados com o “desligadômetro” necessário para sobrevivermos, sem grandes marcas e alguma dor, a este desenlace.

Evidentemente não desejo aqui desconsiderar aqueles casais que mantêm seus matrimônios por muitos e muitos anos, até que a morte – e apenas ela  – os separe. Ainda que me sinta obrigada a confessar minha leve desconfiança de que algumas dessas vivências possam esconder latentes desgostos, frustrações e mágoas, sepultados pelos anos de silêncio e acomodação.

Mas, como este artigo propõe-se a refletir sobre as separações, deixemos de lado, por hora, este outro mistério para nos fixarmos no vasto pântano formado por lamentos, dores e rancores – habitantes indesejáveis do espaço criado, originalmente, para abrigar harmonia, paz e muito afeto.

Ninguém se prepara pra este desfecho. Nem pra nenhum outro.

Desconheço padres, rabinos, monges, pastores, funcionários de cartórios, juízes ou entidades que, durante a cerimônia envolvendo pessoas que se amam, lembrem de mencionar um, aparentemente, mísero detalhe: aquela união poderá um dia findar por uma série de motivos. Pode haver uma reviravolta na ordem dos planetas, uma bomba nuclear ou, simplesmente, o fim daquele romance. Alguns dias depois. Ou meses. Anos. Quem pode prever?

Nenhum desses senhores, do alto de sua sapiência, importa-se de informar que, finalizado aquele idílio amoroso, é preciso lembrar-se da amizade, do respeito, do carinho e da ternura que, naquele momento lá trás, frente a algumas ou muitas testemunhas, os dois prometeram manter – entre afagos, carinhos e beijos.

E está feito o estrago!

Pois, num certo dia, sem que ninguém pareça ter se dado conta, surpreende-se o casal com os conflitos já instalados.

Passado o tempo, resta pouco, quase nem uma réstia, daquela harmonia, da afeição derramada e da felicidade transbordante que iluminava com seus 4000 watts de vapor de sódio toda a escuridão do mundo naquela linda consagração nupcial.

E é necessária muita paciência pra entender o confuso turbilhão que inunda o coração de cada um dos antigos parceiros. É indispensável uma pequena dose, ou melhor, uma dose dupla de compaixão servida com fartas colheradas de gratidão, para lembrar da grandeza daquele sentimento tão farto lá no começo.

É preciso descosturar com cuidado este fino e delicado tecido do amor findo, porque ele pode ficar tão desgastado que não servirá pra cobrir nada mais além do pesar.

E, tentando manter nos olhos o carinho que deve ser convidado pra ocupar o lugar deste que sai – o amor, evitar que tudo desapareça apagando os mais significativos vestígios daquilo que um dia foi bom e até fez bem.

Mas sabemos que nem sempre é possível conservar as lembrança do que se arruinou dentro de uma caixinha que só poderá ser aberta quando for possível conversar – ainda que com o auxílio de algum tipo de mediação.

Mas, se nunca houver condição para tanto, seguir em frente e deixar tudo o que machuca para trás. Delicadamente.

Deste modo, quem sabe, o sofrimento se transforme numa bela obra de arte para a qual, mais tarde, seja possível olhar sem medos e com a convicção de ter feito o – humanamente – possível dentro do que se tinha de melhor para ser. E oferecer.

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