A DEPRESSÃO NOSSA DE CADA DIA

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“Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão.
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção.

E tudo ficou tão claro,
Um intervalo na escuridão.
Uma estrela de brilho raro,
Um disparo para um coração.”

In: Somos Quem Podemos Ser– de Engenheiros do Hawaii

Em 2014 um dos comediantes mais famosos do mundo, Robin Williams, suicidou-se deixando os americanos aturdidos. No mesmo ano, o brasileiro Fausto Fanti, do Grupo Hermes e Renato, morreu sozinho em seu apartamento com um cinto amarrado no pescoço. Jim Carrey, outro conhecido comediante, confessou recentemente lutar contra a depressão desde 2004, enquanto outro talentosíssimo ator brasileiro, Eduardo Sterblitch, também contou que sempre foi depressivo e que já tentou se matar.

Na última semana, não sem provocar grande perplexidade dentre seus inúmeros fãs, o comediante Whindersson Nunes registrou em suas redes sociais a falta de vontade de viver, ao mesmo tempo em que pedia desculpas por sua declaração.

O fato é que precisamos entender que existe uma ferida que dilacera sem fazer estardalhaço, que consome sem deixar marcas aparentes e que, devagar e silenciosamente, pode nos empurrar para o abismo sem que percebamos ter dado um passo sequer na direção do inferno.

Primeiro nosso estojo vai se esvaziando dos matizes coloridos até só restarem o cinza ou o preto. Nosso quarto vai ficando mais escuro e, aos pouquinhos, as janelas vão se fechando. Permitimos que isto aconteça porque não encontramos mais forças para abrir qualquer veneziana.

Ficamos encolhidos no canto mais frio e escuro que conseguimos alcançar com o mísero vigor que nos resta. No começo contamos, apenas, com a débil lanterna que nos auxilia enxergar a única e reduzida direção para onde conseguimos dirigir nosso olhar. Nossos movimentos vão ficando limitados de tal forma que chega o dia em que nem esta pequenina luz nos é dada. E, paralisados, não saímos mais do lugar.

Não enxergamos mais a saída, mesmo que alguns teimem em, de fora, nos apontar. Nosso mundo se torna tão ameaçador que temos a sensação de que é impossível permanecer dentro dele.

E, sem que percebamos, ficamos emocionalmente alijados da nossa própria existência e das pessoas que nos rodeiam, mesmo que estejamos cercados de gente por todos os lados. Porque, ainda assim, permanecemos como ilhas vazias e invioláveis.

E, ao nosso redor, ninguém parece se dar conta disso.

Esta dor que destroça sem sangrar, não se destaca nas radiografias, não é detectada nos exames de sangue e não aparece como evidência científica irrefutável.

E, então, é quase sempre negligenciada pela família, pelos amigos, pelos psicólogos e pelos médicos de maneira geral.

A depressão, enquanto um irrefutável mal-estar da nossa civilização, é bastante democrática e, por isso, não escolhe sexo, idade, religião, nem estado civil.

A atenção que os casos logo acima mencionados despertou, se deu exclusivamente pelo suposto paradoxo representado pelo fato de pessoas tão “divertidas”, e com talento reconhecido pelo público, terem nos surpreendido com tamanho desatino.

Como se esta pretensa “incongruência” fosse alguma novidade em tempos onde parecer vale milhões de vezes mais do que ser e onde todos se sentem compelidos a participar do inexorável e feroz “jogos das aparências” incentivado pelos mundos real e virtual.

Sabemos que a depressão é constantemente confundida, de maneira muito irresponsável, com ‘frescura’, ‘fraqueza de caráter’, ‘insegurança exagerada’, ‘falta do que fazer e pensar’, e por aí continuam os insultos. Mesmo dentro da área psi, quantas vezes não lemos ou ouvimos que basta um bocado de ‘força de vontade’, aliada a algumas doses de chá e conversa fiada, para que aquela triste sensação desapareça por completo?

Ou você nunca ouviu alguém ser condenado por fazer uso de alguma medicamento antidepressivo?

Ora, segundo a Organização Mundial de Saúde, até 2020, a depressão será a segunda maior causa de doenças em todo o mundo, com sua consequente perda de qualidade de vida, e depois apenas dos problemas cardiovasculares.

Em um relatório bastante recente, a OMS indicou ainda que a depressão é hoje considerada a principal doença entre os adolescentes – cita acidentes de trânsito, aids e suicídio como as principais causas de morte entre 10 e 19 anos. E isso porque existem muitos adolescentes sem diagnóstico porque ou não pedem ajuda ou porque os pais acham que os sintomas são típicos da idade.

Convenhamos: a maioria absoluta das relações interpessoais dentro da nossa cultura é totalmente nefasta do ponto de vista existencial. Vivemos mergulhados em competições impiedosas e insanas, compelidos a parecer melhores, mais fortes, mais competentes, mais bonitos, mais interessantes, mais plenos que os demais. Quase imortais.

Mas somos mortais, está certo?

No entanto, confesse: você tem certeza de que se enxerga mortal? Mesmo? Ou adia seus mais importantes planos para daqui a alguns anos ou para quando algo melhorar?

Considere: pensar na mortalidade ou, no que parece pior, na inescapável solidão que ela representa (sim, ninguém estará com você ou lhe acompanhará nesta hora, não importando com quantos conviva agora) não dá uma angústia danada?

A finitude deveria ser considerada uma parte da vida. Os orientais nos ensinam com sua tranquilidade em relação ao tema. E esta compreensão serena se revela no respeito que mantêm em relação aos idosos – coisa muito estranha para nossa sociedade consumista que, simplesmente, os “joga fora”. Sumariamente.

Nós, ocidentais, transformamos a morte num tabu que precisa ser banido das conversas e das informações que passamos às nossas crianças. Desta forma, todas as coisas que estejam ligadas ao tema (doenças, hospitais, envelhecimento, asilos, etc.) ficam à margem da nossa sociedade como se não fizessem parte natural da vida.

A morte significa o fim natural de um ciclo que termina como terminam todos os demais. Feito a vida, tendo um início, um meio e um fim.

Toda esta preleção para afirmar que nossa vida é suficientemente antinatural para justificar que usemos métodos antinaturais para tratarmos destes malefícios.

Logo, remédios antidepressivos são fundamentais para grande parte dos casos de depressão. Pois só tratando dela a pessoa vai encontrar condição de elaborar suas questões mais prementes e conversar a respeito das suas angústias. Fora disso, teremos apenas uma perfumaria que não sanará o problema e, sim, o fará tornar-se dolorosamente crônico.

Desta forma, preste atenção aos indícios desta doença que, cada vez mais, atinge um número maior de pessoas: se alguém perto de você falar com insistência acerca da possibilidade de morrer; se não apresentar mais a vitalidade de antes; se estiver, cada vez mais, ausentando-se de seus compromissos sociais; se apresentar um desleixo inexplicável sobre sua própria figura; dormir mal e cuidar menos de sua aparência (alguns deixam de tomar banho, trocar as roupas, arrumar o cabelo); se apresentar uma falta injustificada de vitalidade; se dormir mal, comer mal, tudo junto ou algumas destas coisas separadas, olhe com muito cuidado e carinho.

Esta pessoa que está perto de você, na verdade, já está muito distante de si e da vida. Ajude-a a procurar ajuda. Acompanhe-a e oriente-a.

E se, porventura, cruzar com um profissional que aconselhe práticas paliativas para escapar do mal, escape destas garras, o mais rápido que puder.

E lembre-se sempre: depressão não é um bicho de sete cabeças do qual nunca iremos nos livrar. Mas, quanto mais tempo levarmos para tratá-la, mais dor e menos saídas lograremos alcançar.

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Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

 

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