SOBRE CRIATURAS INSANAS E SEUS PROJETOS PERVERSOS

Imagem Movimento Mulher Correndo Medo

“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.”

In: Nada é Impossível de Mudar – de Bertold Brecht

No próximo dia 6 de Maio será votada a PEC 29, que pretende criminalizar mulheres de fizerem abortos no caso de estupro, de risco para a vida da gestante e de anencefalia (má formação ou ausência do cérebro do feto). E sempre pode piorar, é claro. 

O Estatuto do Nascituro prevê direitos ao embrião acima dos direitos da mulher e criando incentivos com o objetivo de proibir abortos nos casos em que hoje são autorizados – como o estupro. Assim como tornar crime a venda e/ou a utilização da pílula do dia seguinte.

Sob a batuta de uma estranha e sombria ministra, que afirma ter sido violentada por uma pastor entre os seis e oito anos de idade, qualquer tipo de aborto, sob qualquer circunstância, está prestes a ser proibido! 

Mesmo o da moça que será em poucos segundos estuprada.

A que caminha pela rua escura. Cabeça baixa, olhos vidrados no chão, respiração ofegante que denuncia um pavor que se expande. Aperta o passo ao ouvir outros atrás de si. “Faltam apenas duas quadras”, pensa tentando se acalmar. A noite está fria e, talvez por isso, existam menos pessoas transitando no local. Atravessa a pequena alameda sem olhar para os lados. Medo, muito medo, é o que sente. Seus passos ecoam pelo caminho cada vez mais deserto. O som dos outros passos que pareciam apagados voltam numa intensidade crescente. Seu coração parece querer explodir dentro do peito. Falta apenas uma quadra. Uma quadra para encontrar sua mãe e sua filha. Uma quadra para descansar seu corpo pequeno, fraco e moído de cansaço. Uma quadra para tomar um banho revigorante e para realizar as tarefas que ainda lhe aguardam. Uma quadra. Sente um baque. O que teria caído sobre sua cabeça? Passa a mão pela nuca e sente algo viscoso. Olha para a palma vermelha e grudenta. Um zumbido entra pelos ouvidos invadindo sua mente. Sente-se desfalecer e não vê mais nada.

Esta cena ocorreu há alguns meses na cidade de São Paulo. A mulher, de trinta e quatro anos, foi atacada por um homem às nove horas da noite de uma terça-feira, há poucos metros de sua casa. Depois de saciado, o criminoso largou-a desacordada no chão de uma viela onde só foi encontrada por vizinhos duas horas mais tarde.

A moça voltou a si depois de muito tempo mas sua vida nunca mais voltou aos eixos. Conviveu, por dias, com a terrível possibilidade de haver engravidado. Desenvolveu uma série de fobias sociais e não conseguiu manter-se nem no emprego nem na casa onde morava.

Hoje vive de favor na casa de uma prima e já pensou em se matar algumas vezes. O que a mantêm viva é a filha que precisa ser criada. Não conta com ajuda de mais ninguém além da mãe que encontra-se, também, bastante traumatizada.

Durante muito tempo precisou tomar o coquetel anti HIV oferecido pelo Hospital Pérola Byington. Sentiu náuseas, tonturas e precisou tratar a alergia que teve ao medicamento. Isso sem contar as sequelas que carregará pela vida afora.

Suponhamos que, no lugar desta pobre moça, a pessoa atacada naquela noite tivesse sido você. Ou sua filha, sua irmã, sua mãe. Sua melhor amiga, quem sabe?

Ruim imaginar isso, não é mesmo?

Mas continue tentando.

Um criminoso, ou um grupo deles, resolveu lhe atacar. Você não tinha como prever e, muito menos, evitar esta brutalidade. Desta forma, subjugaram-lhe pelo simples fato de ser mulher. Curraram você ou sua filha, sua mãe, sua melhor amiga…. quem sabe?

Estupraram-lhe de diversas formas. Feriram seu corpo frágil. Rasgaram sua pela delicada. Bateram na sua cabeça. Violaram-lhe por todos os lados. Taparam sua boca com trapos imundos. Depois, obrigaram-lhe a engolir sêmens infectados. Contaminaram você de várias formas. Riram e gozaram no seu rosto cuja expressão era de puro desterro.

E você ou sua filha, sua irmã, sua mãe, tia, vizinha ou amiga, agredida, violada, ultrajada, humilhada  – como se não bastasse tal inferno devastador – vai agora ser obrigada a provar a violência numa delegacia de polícia. E se, horror dos horrores, tiver engravidado?

Sabe o que vai acontecer se o famigerado, ignóbil e desumano Estatuto do Nascituro for aprovado?

Art. 12. É vedado ao Estado ou a particulares causar dano ao nascituro em razão de ato cometido por qualquer de seus genitores. “

Você ou sua filha, sua irmã, sua mãe, tia, vizinha, sobrinha, prima ou sua melhor amiga, quem sabe, serão obrigadas a levar a gravidez até o final, não importando sua vontade. Caso não o faça, poderá ir para a prisão!

Lembrado que, em caso de estupro, entre outros, o aborto hoje é permitido em nosso país. Com este projeto, ele deixa de ser. Em outras palavras: o embrião terá mais direitos do que a mulher violentada – seja ela criança, jovem ou adulta, não importa.

Imagine, portanto, se você for esta mulher. Imagine sua filha, sua mãe, sua irmã, tantas mulheres próximas e queridas, passando pelo horror da violência sexual e sendo obrigadas a manter uma gravidez que vai gerar o resultado desta selvageria.

Agora, vamos mudar de posição.

Você é a criatura que nasceu desta violência. Vai precisar tomar conhecimento da história que lhe precede, é claro. Certamente não conhecerá seu ‘progenitor’. Mesmo que este “estatuto” obrigue o nome do estuprador constar como “pai” na sua certidão de nascimento.

Art. 13. § 1º Identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, será este responsável por pensão alimentícia nos termos da lei.”

Você, então, saberá que foi fruto da violência de um homem contra uma mulher.

Terá consciência de que não houve afeto na sua concepção, na sua gestação e, consequentemente, em todo o restante do seu desenvolvimento.

Você gostaria ser o fruto gerado por esta violência?

Você almejaria de estar no lugar da mulher estuprada?

Você desejaria que uma criança, sua filha, sua irmã, neta ou vizinha, vítima de um pedófilo, fosse obrigada, por força da lei, a suportar uma gestação de alto risco?

Se respondeu não a qualquer uma desta questões, vai permitir que este projeto de lei se configure em uma inconcebível realidade?

Então, diga não a este desumano e cruel projeto!

Porque a próxima vitima poderá ser você ou alguém por quem você tenha um verdadeiro e incontestável afeto.

Art. 14. Esta lei entra em vigor na data da sua publicação.”

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