MÃE E FILHA (DEPOIMENTO)

 

Imagem Movimento Mãe e Filha 6

“Essa menina, essa mulher, essa senhora,
Em que esbarro toda hora
No espelho casual…
É feita de sombra e tanta luz,
De tanta lama e tanta cruz,
Que acha tudo natural.”

In: Essa Mulher – de Elis Regina

 

Depoimento de uma filha cuja mãe, por anos, foi sua maior antagonista e rival.

Minha mãe se tornou uma adolescente junto comigo. E isto, com certeza, não podia mesmo ser considerado normal dentro de uma relação familiar – seja lá o que normalidade signifique.

Hoje, honestamente, acredito que os modelos que nos vemos obrigados a seguir são, acima de tudo,  farsas que repercutimos no decorrer da vidas em nome de parecermos normais e comportadinhos. E para que os outros nos deixem em paz.

E foi desta forma que deixamos de ser os exemplares cidadãos que, até então, parecíamos ser.

Confesso que foi muito importante ter tido a chance de me relacionar com uma mulher tão diferente e singular. Quase uma diva. Mas essa também se configurou como uma marca quase indelével, uma espécie de máscara que encobria uma disputa muda que também me envolvia, além de alcançar, principalmente, minha irmã mais velha.

Éramos duas filhas com três anos de diferença.

Íamos juntas aos lugares muito badalados que minha mãe adorava frequentar. Por vezes, e perdi a conta de quantas, não era possível distinguir quem era a mãe no meio daquelas três mulheres.

Nossos namorados ficavam fascinados por ela. E isto tão era flagrante quanto o jeito sedutor com que ela os olhava. Não tínhamos dúvidas do quanto isso a deleitava. Era seu jeito meio extravagante de tentar recuperar um período de vida que acreditava nunca ter aproveitado, trabalhando como costureira para ajudar sua pobre e debilitada mãe. E, assim, ela virou mais uma filha de um pai que tanto nos amava.

Um dia, porém, a irmã que disputava mais claramente tal espaço com ela morreu.

E foi desta maneira inesperada e dolorosa que minha mãe finalmente conectou-se com a própria melancolia, que considero um estágio mais ‘patológico’ do que a depressão.

Nas fotos registradas nas colunas sociais, todos enxergavam apenas sua magnífica exuberância. Mas em seus olhos, no fundo, eu podia antever uma névoa branca, dissipada nas alegrias exageradas, na intensidade exacerbada com a qual vivia cada momento. No fundo, desde cedo, fora uma criatura profundamente triste. Mas o fino e bem costurado tecido da aparência deu conta de esconder isto.

A morte de minha irmã possibilitou, então, que essa dor, feito um lamento calado, finalmente tentasse se revelar – e de uma maneira desesperadamente disfarçada – no mesmo dia em que ela foi enterrada, quando, numa tentativa insana de encobrir a dor pungente e dilacerante, convocou toda a família para jantar num restaurante renomado.

Depois disso, surpreendentemente, minha mãe ficou mais sensível ao papel materno. Ela parecia estar melhorando, aproximando-se mais de mim e dos outros. 

Entretanto, não houve tempo suficiente para esta retomada. O caminho foi brutalmente interrompido quando, pouco tempo depois, meu pai também faleceu.

Nem é preciso adivinhar que a partir de então ela degringolou. Feito uma bússola desgovernada, perdeu o norte. O baque foi muito maior do que quando perdera minha irmã. Afinal, meu pai sempre fora o único chão necessário para que ela pudesse continuar caminhando. Uma base vital, onde tudo podia ser projetado.

Minha mãe, que não conseguiu ser filha, não soube ser mãe. E quando imaginou que podia seguir ainda como filha, amparada pelos braços de meu pai, a vida lhe rendeu mais este golpe.

Depois da morte dele, ela simplesmente desandou. Fez uma porção de besteiras envolvendo atitudes tolas e infantis, perdeu muitas coisas enquanto explicava que só entendera o valor de meu pai depois da sua partida.

Até que um dia ela também adoeceu.

Insistiu muito pra morar comigo, mas a verdade é que eu não podia morar com ela. Estava perto de me casar e não era mesmo possível imaginar assumir uma filha como minha mãe prometia ser. Eu era ainda jovem demais.  A partir de então, ela tornou-se uma mulher tão cindida que chegou ao ponto de me chantagear em nome da necessidade de viver comigo.

A duras penas respondi que não.

E, como era muito superficial em relação aos seus próprios sentimentos, ela não conseguiu se conectar afetivamente com mais ninguém. Não era uma figura acolhedora nem na relação familiar e, muito menos, nas relações interpessoais.

Hoje eu sei que afeto é a capacidade que o indivíduo tem para se deixar tocar e saber tocar. Deixar-se afetar pelo outro do mesmo modo que aceita que o outro possa ser afetado por você. Existe dança mais amorosa e perfeita que esta?

Uma dança que minha mãe jamais aprendeu a dançar.

Ter afeto pelo outro não é precisar do outro – e minha mãe precisava muito do meu pai. Ela não prescindia dele. Ele lhe era vital. Portanto, ficar sem meu pai foi como morrer também. Depois precisou de mim. E essa metáfora cruel ficou imprimida num câncer insidioso e devastador que um dia a levou de nós.

Para mim, o câncer tem uma função: ele é o símbolo que indica o que está desconectado na sua vida e para onde você tem de ir. O câncer tem a ver com a dissociação do ser. E minha mãe teve um câncer de pulmão sem nunca sequer ter colocado um cigarro na boca!

Portanto, no meu caso, o fato de ter sobrevivido a tantas perdas parece estar relacionado a uma luta pessoal e silenciosa que travei a favor da resistência. E dizer não aos ‘convites’ para os pactos familiares, pode ter me salvado de tamanho infortúnio ao qual eu parecia designada.

Porém, ter sobrevivido não me livrou do sentimento de culpa que por anos carreguei.

Viver já é tão difícil. Mas sobreviver à tamanha adversidade tornou-se um fardo incompreensível naquela altura de minha jovem e promissora vida. Quando eu resolvi dizer ‘não’ à minha mãe, foi preciso conceber que ali, naquela decisão, existia uma raiva contida, um grito quase que inaudível implorando por ajuda.

E só muito depois pude compreender que era eu quem precisava de socorro. Deste modo, eu definitivamente não podia mais tomar conta de ninguém.

E, como numa espécie de provação, assim que me formei em Publicidade, minha mãe faleceu. Um pouco depois, minha melhor amiga também. E, finalmente, depois de tantos episódios penosos eu me permiti deprimir.

Desci no fundo de um poço escuro e frio que parecia não ter mais fim, e de onde só saí com ajuda de medicamentos.

Algum tempo depois, já mais amadurecida e fortalecida pela dor, retomei meu fio da meada. Entendi que minha irmã mais velha, a que menos se identificava com minha mãe, também passou por muitos conflitos. Cortou muitos vínculos com a referência materna, negando-a quase que integralmente. Não teve tempo de entendê-la ou de enxergá-la como alguém que também havia sido ferida no decorrer da sua difícil trajetória.

Às vezes penso que tenhamos sido vítimas de um ambiente familiar que, preso a um modelo desprovido de sentido, clamava por uma compreensão que nos desse a chance de nos livrarmos daquele padrão tão dolorosamente restritivo.

Lá no começo, eu via a minha família como uma referência a ser seguida, mas, ao mesmo tempo, percebia a possibilidade de que isso pudesse se inverter. Portanto, uma matriz a ser adotada – ou não.

Entender isto foi a minha salvação.

Hoje, depois de três casamentos, sinto-me muito mais livre para determinar minhas escolhas de maneira independente e feliz e para refletir sobre este pedaço da minha história do qual gosto de falar e cujo fio não temo mais perder.”

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2 pensamentos sobre “MÃE E FILHA (DEPOIMENTO)

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