VOCÊ IRÁ ENVELHECER COM DIGNIDADE?

Imagem Movimento Casal Idoso 1

“O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades,
Sem dívida, sem saldo,
Sem rival
Ou amizade…
Nada.
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar.”

In: O Velho – de Chico Buarque

 

 

Localizada no norte da Europa, a Dinamarca já foi considerada a detentora do mais alto nível de “igualdade” do mundo e, também, o país com menor índice de “desigualdade social”. Desta forma, também, foi eleita, por diversos anos, o lugar mais feliz do mundo, com base em seu princípio de saúde, bem-estar, assistência social e educação universal.

Mas a verdade é que pouca gente do restante do mundo procura se deslocar para algum país nórdico por razões óbvias: o clima é terrível, os impostos são os mais altos do planeta, o custo de vida é igualmente absurdo, as línguas são impenetráveis e os hábitos são muito diferentes. E esses países deixam muito claro que preferem que os estrangeiros fiquem bem longe deles.

Além de tudo, são sociedades muito ‘quadradas’, conformistas e pressionadas, o que redunda num modo de vida extremamente individualista e frio. Em suma, um povo gélido e formal que bebe demais, usa drogas e toma muito antidepressivo.

E, mesmo diante da pretensa “prosperidade”, o ator e escritor dinamarquês Knud Romer foi obrigado a desistir de cuidar do pai por absoluta falta de condições. Entre triste, humilhado e revoltado, documentou o ostracismo do genitor abandonado em uma casa de repouso e explicou que fez o desabafo porque tem absoluta consciência do fato de que todos envelhecerão um dia e que, por isso, é urgente nos preocuparmos com o tema imediatamente.

Numa entrevista corajosa e verdadeira, ele denunciou o grande desejo do capitalismo: que todos se esqueçam dos seus laços emocionais, de seus sentimentos e vínculos fraternos com a história de suas próprias vidas e com as vidas dos que lhes são próximos para, assim, melhor produzir para o sistema – onde a eficiência desmedida caminha de forma absolutamente contrária às necessidades de uma sociedade humanizada.

E, então, declarou:

“Um quarto dos idosos tomam remédio antidepressivo devido à solidão. O idoso sabe que, mais dia menos dia, será isolado à margem da sociedade, preso numa gaiolinha de hamster de 20 metros quadrados, fedendo à urina, comendo legumes insossos, numa solidão total. As famílias não tem condições de cuidar dos seus velhos. Um quinto dos idosos ficam dementes e é praticamente impossível cuidar dos próprios pais quando ficam muito velhos e dementes. Eu não tinha o espaço, nem os recursos necessários. Quis comprar um apartamento no térreo, mas não tinha dinheiro suficiente. Não tive condições de contratar uma enfermeira. Depois de pagar impostos por 60 anos, meu pai teve que viver assim, com uma infecção na bexiga não tratada. Aí ele escorregou na própria urina e quebrou o fêmur.

O dia de maior vergonha para mim foi quando tive que desistir de cuidar do meu pai da forma como ele cuidou de mim a vida toda. Apesar de nossa sociedade moderna ser uma das mais ricas do mundo, nós simplesmente colocamos nossos velhos numa placa de gelo e os empurramos mar adentro. Na realidade, no “estado de bem-estar social” a gente se livra dos idosos. Ficamos livres da obrigação de cuidar deles.

Enquanto isso, frequentamos restaurantes franceses, passeamos de carro 4X4, gozamos de uma enorme liberdade de auto-realização. Nossa realização profissional fica em primeiro lugar. Aqueles que não interessam ao mercado de trabalho, que não se enquadram no modelo de consumo, que não cumprem metas racionais, são institucionalizados.

Os retardados, os deficientes, os idosos e até mesmo os bebês! Os bebês também só fazem atrapalhar. Precisamos ter as mãos livres. Por isso colocamos os bebês em instituições aos 12 meses de idade.

Ninguém faz isso porque quer. É como arrancar o próprio coração. É a mesma coisa quando se entrega o pai a um asilo e se desiste de cuidar dele. É como arrancar o coração do corpo. Assim, não pode haver união da família.

A família era para ter velhos, jovens, bebês, todos reunidos à mesa. Devíamos uns cuidar dos outros. Mas ficamos totalmente dispersos. Isso, para que aqueles que tem condições possam trabalhar, sem parar. A eficiência em primeiro lugar.

Os asilos geralmente ficam perto dos hospitais. Assim, os velhos podem ver o seu futuro pela janela. Já que o caminho é esse mesmo, é mais rápido assim. Pelo mesmo custo, poderia se colocar os asilos ao lado das creches. Assim, os idosos participariam da vida da comunidade. Fariam parte da coletividade. Seriam uma parte natural do nosso dia-a-dia. Melhor que exilá-los à margem da sociedade, sem referência ou participação.

Meu pai foi internado num hospital de primeiro mundo, onde faltava funcionário, a capacidade estava esgotada, nada funcionava. Não tinha nenhuma condição de levar meu pai a um hospital particular já que o governo fica com 60% dos meu salário. Confiava nos médicos e no que eles estavam fazendo.

A confiança é o cimento que dá a liga da sociedade. Por exemplo, ninguém embarca em um avião se não confia no piloto, se desconfia que ele pode estar bêbado, ou ser incompetente. O funcionamento da sociedade depende inteiramente da confiança. Mas eu perdi a confiança.

Naquele dia nada funcionava. Os médicos mal sabiam de que lado estava a fratura a ser operada. Pareciam estar adivinhando: será o esquerdo? O direito? O que importa? Sabiam que ele ia acabar morrendo de um coágulo mesmo. Acontece muito quando os idosos são operados.  Peguei no braço para sentir o pulso. Meu pai estava morto.

Meu pai foi um homem corretíssimo, o cidadão mais honrado e decente que conheci na vida. Qual foi sua recompensa? Três meses num asilo, ensopado na própria urina, mais dois dias num hospital.

O enterro não tem mais ritual. O coveiro chega, bota o caixão no chão, joga terra por cima, e fim de conversa. Tchau. Tudo sem sentimento de “pertença” ou união familiar, sem ritual, sem sentido, sem seriedade, sem solenidade.

A transitoriedade da vida, a doença, a velhice, que são elementos inalienáveis da existência, são excluídas, suprimidas, negadas. Não queremos lidar com elas.  Parece que toda a consideração humana, toda moral, desapareceu.

Precisamos iniciar um diálogo sobre que tipo de sociedade queremos, como queremos viver a nossa vida. A existência não pode ser moldada por imposições econômicas. Nem tudo se enquadra numa lógica consumista, nem tudo é padronizável. Querem eliminar tudo o que não for eficiente. Às vezes a caminhada é a parte mais importante. Às vezes, aquilo que dá trabalho é o certo. Às vezes, aquilo que não compensa é o certo. Em primeiro lugar, precisamos recuperar a união da família. Não podemos deixar-nos dominar pela cultura de trabalho. Não podemos deixar o mundo de trabalho ditar a organização da sociedade e da vida. Devemos nos guiar pela moral, pela consideração e pelos valores humanos.

Se quisermos a companhia dos nossos bebês e dos nossos idosos, se quisermos uma família normal e uma vida decente, uns cuidando dos outros, a sociedade terá que ser reorganizada de acordo.”

Se em um país de ‘primeiro mundo’ já é tão ruim, imagine para nós, pobres mortais??

A reforma da previdência que se anuncia em nosso país, certamente nos tornará mais miseráveis e desesperançados. 

Desta forma, vale a pena pensarmos (para agirmos) seriamente sobre esta nossa inescapável condição humana, não acha?

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3 pensamentos sobre “VOCÊ IRÁ ENVELHECER COM DIGNIDADE?

  1. E olha que tem especialistas explicando os altos índices de depressão/suicídio dos países nórdicos com o curto fotoperíodo (tempo de luz solar) no inverno). A Europa é o continente com a população mais envelhecida. Tem um enorme desafio nas mãos e lições profundas a aprender. E nós caminhamos para o mesmo envelhecimento da população. Sem engajamento consciente nos debates envolvendo as decisões políticas de nosso governo, sabe Deus o que nos aguarda na terceira idade.

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