DO QUE VOCÊ TEM MEDO?

imagem movimento medo 4

“Medo da crise e do crime,
Como já vimos num filme.
Medo de ti e de mim,
Medo dos tempos.

Medo que seja tarde,
Medo que seja cedo,
Medo de me assustar
Se você me apontar o dedo.

Eles têm medo
De que não tenhamos medo”

In: Medo do Medo – de Os Paralamas do Sucesso

 

Há tempos venho tentando escrever sobre um dos fenômenos mais intrigantes que percebo claramente inserido nas relações humanas: a capacidade que algumas pessoas possuem de negar a realidade, por mais que ela se declare e escancare diante delas.

Esta semana, infelizmente, nosso país viveu, mais uma vez, uma tragédia na região de Brumadinho, Minas Gerais, envolvendo um crime ambiental que, aparentemente, já estava anunciado há muito tempo.

Porém, a ganância, a irresponsabilidade, a absoluta ausência de humanidade, bondade, e empatia de alguns seres nada humanos, renderam centenas de mortes, além de devastar milhares de vidas, humanas ou não.

O mais perturbador nisto tudo é prever que, em pouquíssimo tempo, as impressionantes imagens que tanto nos impactam neste momento, serão colocadas dentro de uma caixinha e esquecidas. Literalmente.

Como foram esquecidas as imagens de tragédia similar ocorrida em 2015, na região de Mariana, no mesmo estado; do ‘acidente’ em 1987, com o césio-137 envolvendo um grave episódio de contaminação por radioatividade, em Goiânia; da destruição acelerada e diária da nossa Floresta Amazônica; do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2013, onde morreram 242 pessoas e 680 ficaram feridas; dos deslizamentos de terra ocorridos em janeiro de 2011 no Rio de Janeiro, onde 917 pessoas morreram, 345 desapareceram e 35.000 ficaram desalojadas, perdendo tudo o que tinham; da destruição de cidades históricas do estado de São Paulo, dentre elas Cunha e São Luiz do Paraitinga, durante as chuvas de janeiro de 2010, onde pessoas perderam suas vidas e centenas perderam suas casas, memórias e entes queridos.

Isto pra citar alguns poucos exemplo, pinçados da minha memória, e sem qualquer critério mais ‘científico’, devo esclarecer.

Mas, ainda que os demais exemplos sejam incontáveis e desconcertantes, o que gostaria de registrar é meu total assombro diante da forma como estas experiências dantescas são abstraídas enquanto outras se aproximam, como que se fossem propositalmente aceleradas a fim de não nos dar tempo para pensar, digerir e compreender a dimensão ou o significado do que se passa naquele momento.

Uma amiga ontem comentou que se sentia presa dentro de um pesadelo horrível, com acontecimentos se atropelando em um ritmo tão avassalador que não sentia a menor condição de enxergar, de fato, o que está acontecendo em volta.

Por isto, às vezes, parece melhor sentar e não fazer nada. Outras vezes, desejamos nos acomodarmos bem longe da fonte da angústia e olhar para o lado oposto.

Mas, por vezes, também podemos entender que é melhor arriscar – ainda que se acabe ferida(o) – em nome de salvaguardar preciosas vidas e certezas obtidas.

No entanto, como simpáticos avestruzes, a maioria das criaturas prefere afundar a cabeça na terra enquanto reza, desesperadamente, para que aquilo passe logo a fim ser rapidamente esquecido.

Você não faz ideia de quantas vítimas de estupros passam a vida negando e tentando ‘explicá-los’ para si até que tenham esclarecimento e coragem suficientes para denunciar seus algozes.

Os psicopatas vivem disto. Da certeza de que a dor que provocam é tamanha que suas presas levarão muito tempo para reunirem disposição para confrontá-los. E muitas jamais o farão. Infelizmente.

Assim, a negação pode ser considerada um instinto humano natural a serviço de lidar com o estresse, a dor, as emoções, o medo, a ansiedade e a tristeza. Porém, ainda que seja um instinto humano, nem sempre será desejável que nos deixemos ser comandados por ele. Em algum momento teremos que decidir se esses instintos inatos de sobrevivência realmente nos servem.

A negação, então, é um adversário muito poderoso, infiltrando-se em nossos pensamentos como um radar. No entanto, é da natureza humana lutar contra a negação durante circunstâncias difíceis ou estressantes, ainda que ela seja uma ferramenta que nosso cérebro usa para desviar de verdades inevitáveis ​​- e quase sempre, especialmente em cenários de sobrevivência de vida ou morte, essas verdades chegarão, quer as neguemos ou não.

Às vezes, enfrentar fatos incômodos é profundamente doloroso. Pode ser embaraçoso e é, muitas vezes, um golpe para o ego. No entanto, salvar a aparência nunca deve ser mais importante do que salvar a vida que realmente se deseja.

Se você se perguntasse: como me sentirei se um dia, enquanto durmo, minha casa for invadida por lama altamente contaminada e toda a minha família morrer? Estaria preparada(o) para isto? Teria uma caixa de primeiros socorros para impedir a dor e o desterro que muito provavelmente vivenciaria?

Honestamente, creio que você irá argumentar que isto jamais acontecerá com você. Então, por que cargas d’água precisaria se preocupar com esta improvável possibilidade?

E eu lhe responderei que esse é apenas um exemplo simples de como a negação pode colocar as pessoas em arriscadas sinucas. 

Porque você está negando o fato de que um desastre repentino e inesperado pode atingir sua existência a qualquer momento, sem aviso prévio. Isto acontece com pessoas de todo o mundo o tempo todo. Ninguém está isento. Ou à salvo. O senso comum (e evidência estatística) diz que, de fato, é mais provável do que muitos imaginam. E pode haver uma linha tênue entre negação e preguiça.

Logo, especialmente em um cenário de sobrevivência com risco de vida, você tem que negar a negação. E isto nunca é fácil, bem sei. Mas é absolutamente necessário.

 A causa da nossa negação é tipicamente muito óbvia. Reconhecê-la e suspendê-la antes que seja tarde demais é a parte complicada.

 Agora, você precisa aprender que identificar a negação exige que prestemos muita atenção a nós mesmos. E nós adoramos analisar e criticar os outros enquanto raramente olhamos no espelho. 

A melhor maneira de evitar a negação é confrontar verdades sombrias e estressantes o mais rápido possível. Torne-se responsável de suas próprias decisões – boas ou ruins. Ignorar ou adiar más notícias, só piora as consequências. 

Se você acredita tanto em alguém que muitos dizem não ser confiável; se uma teoria é defendida por você como verídica, mas você percebe falhas e distorções; se algo é perigoso para muitos ainda que poucos afirmem que não oferece ameaça; se você começa a perceber que repete as mesmas coisas já sem nenhuma convicção; se o senso comum não explica as contradições contidas em certas afirmações suas; se as dúvidas provocadas em você lhe trazem medo; se as velhas teorias lhe afasta de pessoas legais – então, está na hora de duvidar de suas alegações e certezas.

Só assim é possível encontrar a saída mais viável.

Pratique isto reconhecendo e confrontando a negação agora, para que ela não pegue você de surpresa quando a sobrevivência estiver em risco.

É importante entender que enquanto muitas pessoas se recusarem a aceitar ou acreditar em dados reais, informações comprovadas, mesmo que seja concedendo uma pequena dúvida, simplesmente porque isso interfere em convicções que nem sempre são suas, estaremos todos em sérios apuros.

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Um pensamento sobre “DO QUE VOCÊ TEM MEDO?

  1. Atualmente temos várias situações que nos causam, não digo medo, mas uma preocupação enorme. O que estaria acontecendo em nosso país? Realmente, é muito desgastante, conviver com tudo isso!!

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