PESSOAS PERVERSAS PODEM PARECER NORMAIS

Imagem Movimento Metamorfose

“Desconfiai do mais trivial, na aparência singela.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.”

In: Nada é Impossível de Mudar – de Bertold Brecht

 

A Johnson & Johnson esteve ciente, durante décadas, de que seu talco para bebê continha amianto (substância altamente cancerígena). Por causa deste contato, centenas de milhares de pessoas tiveram variados tipos de câncer. Centenas de milhares morreram. Os executivos da companhia, gerentes de minas, cientistas, médicos e advogados estavam a par disto durante todo o tempo.

Que tipo de gente faz coisas assim? Como essas pessoas conseguem dormir em paz e continuar vivendo suas vidas sem a menor sombra de culpa?

Calcule o número de coisas que você usa, come, veste, pinga, toma, respira, dentre outros, que lhe fazem mal, que lhe envenenam aos poucos, sem que ninguém denuncie isto por décadas? Quantas pessoas ganham quanto dinheiro para esconder que ajudam a matar milhões de outros seres?

Ainda que você pense que este dantesco e recente exemplo nada tenha a ver com o que virá a seguir, lembre-se de que tudo faz parte da mesma coisa.

Tudo se resume a ambições cegas e perversas, ao anseio de ser mais ‘especial’ que os demais, mais ‘importante’, mais ‘poderoso’, mais intimidador, mais rico, explorador e, finalmente, mais pérfido e, consequentemente, miserável.

Vivemos hoje, em nosso país, um verdadeiro pesadelo com direito a versões multifacetadas, que apenas confirmam que os psicopatas estão, há muito tempo, comandando coisas das quais jamais poderiam sequer terem se aproximado.

Nos últimos dias, mais de 400 mulheres acusaram um famoso ‘curandeiro’ brasileiro, conhecido como ‘João de Deus’, de abuso sexual, em um caso que está se tornando a maior denúncia coletiva deste tipo de crime – um grave episódio que lembra o do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado a 278 anos de prisão por 52 estupros e quatro tentativas de abuso contra outras 39 mulheres.

E, para completar, o futuro Ministério de Mulheres, Família e Direitos Humanos também pode representar um inacreditável retrocesso para os direitos e liberdades das mulheres, com a nomeação de Damares Alves. A pastora evangélica declarou em 2016 o seguinte: “É hora de a igreja ocupar a nação, mostrar o que ela representa. É hora de a igreja governar”.

Damares Alves é ferozmente contra o aborto e os movimentos feministas. Defende, sobretudo, a aprovação do Estatuto do Nascituro, um projeto absolutamente insano, que prevê direitos ao embrião acima dos direitos da mulher e cria incentivos com o objetivo de proibir abortos inclusive nos casos em que hoje são autorizados – como o estupro.  Além disso, propõe tornar crime a venda e/ou a utilização da pílula do dia seguinte.

Fala-se, inclusive, numa ‘bolsa-estupro’. Existe coisa mais bizarra e desumana?

Então vou propor um exercício.

Pense que, em poucos minutos, uma mulher será atacada por um homem, há poucos metros de sua casa. Depois de saciado, o criminoso irá largá-la desacordada no chão de uma viela onde só será encontrada por vizinhos horas mais tarde.

A moça voltará a si, depois de algum tempo, mas sua vida nunca mais voltará aos eixos. Conviverá, por dias, com a terrível possibilidade de haver engravidado. Desenvolverá uma série de fobias sociais e não conseguirá manter-se nem no emprego nem na casa onde mora. Se afastará dos amigos. Sentirá vergonha, ainda que não exista nenhum motivo para tal sentimento.

Viverá de favor na casa de algum parente próximo e pensará em se matar muitas vezes dali em diante. Não contará com ajuda de mais ninguém além da mãe, esta, também, bastante traumatizada.

Durante muito tempo tomará o coquetel anti HIV oferecido pelo Hospital Pérola Byington. Sentirá náuseas, tonturas e necessitará tratar as alergias que fatalmente desenvolverá. Isso sem contar as sequelas que carregará pela vida afora.

Esta é uma história verdadeira que ocorreu há poucos dias atrás.

Suponhamos que, no lugar desta pobre moça, a pessoa atacada nesta noite tivesse sido você. Ou sua filha, sua irmã, sua mãe. Sua melhor amiga, quem sabe?

Ruim imaginar isso, não é mesmo? Mas continue tentando.

Um criminoso, ou um grupo deles, resolveu lhe atacar. Você não tinha como prever e, muito menos, evitar esta brutalidade. Desta forma, subjugaram seu corpo pelo simples fato de você ser mulher. Curraram você ou sua filha, sua mãe, sua melhor amiga…. quem sabe?

Estupraram-lhe de diversas formas. Feriram seu corpo frágil. Rasgaram sua pela delicada. Bateram na sua cabeça. Violaram-lhe por todos os lados. Taparam sua boca com trapos imundos. Depois, obrigaram-lhe a engolir sêmens infectados. Contaminaram você de várias formas. Riram e gozaram no seu rosto cuja expressão era de puro desterro.

E você ou sua filha, sua irmã, sua mãe, tia, vizinha ou amiga, agredida, violada, ultrajada, humilhada – como se não bastasse tal inferno devastador – vai agora ser obrigada a provar a violência numa delegacia de polícia. E se, horror dos horrores, tiver engravidado?

Sabe o que vai acontecer se o famigerado, ignóbil e desumano Estatuto do Nascituro for aprovado?

Art. 12. É vedado ao Estado ou a particulares causar dano ao nascituro em razão de ato cometido por qualquer de seus genitores. ”

Você ou sua filha, sua irmã, sua mãe, tia, vizinha, sobrinha, prima ou sua melhor amiga, quem sabe, serão obrigadas a levar a gravidez até o final, não importando sua vontade. Caso não o faça, poderá ir para a prisão!

Lembrado que, em caso de estupro, entre outros, o aborto hoje é permitido em nosso país. Com este projeto, ele deixa de ser. Em outras palavras: o embrião terá mais direitos do que a mulher violentada – seja ela criança, jovem ou adulta, não importa.

Imagine, portanto, se você for esta mulher. Imagine sua filha, sua mãe, sua irmã, tantas mulheres próximas e queridas, passando pelo horror da violência sexual e sendo obrigadas a manter uma gravidez que vai gerar o resultado desta selvageria.

Agora, vamos mudar de posição.

Você é a criatura que nasceu desta violência. Vai precisar tomar conhecimento da história que lhe precede, é claro. Certamente não conhecerá seu ‘progenitor’. Mesmo que este “estatuto” obrigue o nome do estuprador constar como “pai” na sua certidão de nascimento.

Art. 13. § 1º Identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, será este responsável por pensão alimentícia nos termos da lei.”

Você, então, saberá que foi fruto da violência de um homem contra uma mulher.

Terá consciência de que não houve afeto na sua concepção, na sua gestação e, consequentemente, em todo o restante do seu desenvolvimento.

Você gostaria ser o fruto gerado por esta violência?

Você almejaria de estar no lugar da mulher estuprada?

Você desejaria que uma criança, sua filha, sua irmã, neta ou vizinha, vítima de um pedófilo, fosse obrigada, por força da lei, a suportar uma gestação de alto risco?

Se respondeu não a qualquer uma desta questões, vai permitir que este projeto de lei se configure em uma inconcebível realidade?

Então, diga não a gente que defende este cruel e inumano projeto! 

Porque a próxima vitima poderá ser você ou alguém por quem você tenha um verdadeiro e incontestável afeto.

Art. 14. Esta lei entra em vigor na data da sua publicação.”

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.

 

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