QUANTAS MULHERES SERÃO ASSASSINADAS HOJE?

“Presenciei tudo isso dentro da minha família.
Mulher com olho roxo, espancada todo dia.
Eu tinha uns cinco anos, mas já entendia
Que mulher apanha se não fizer comida.
Mulher oprimida, sem voz, obediente.
Quando eu crescer, eu vou ser diferente.”

  In: 100% Feminista – de Mc Carol e Karol Conka

                    

Imagino que estivesse deitada, já entregue ao sono e ao cansaço. Olhos fechados e corpo relaxado. Aquela tola discussão (mais uma) podia ser deixada para depois. A festa fora animada, a filha mais velha dormia logo ali, no quarto ao lado, e nada poderia ser resolvido naquela altura da madrugada.

Sentiu uma leve pressão sobre o corpo. O marido acabara de colocar sobre ela um travesseiro macio. Talvez fosse uma forma de protegê-la, quem sabe? Um estampido seco ecoou por dentro de sua cabeça. Mais outro e outros se sucederam. Foram sete tiros. A luz apagou-se e, num instante, a vida desenrolou-se em ritmo alucinante diante dos olhos cuja vida, em poucos segundos, se esvairia para sempre.

Suas belas meninas, seu lindo garotinho… três tesouros pelos quais tanto ainda estaria disposta a suportar… sua família, seus irmãos, seus pais, seus amigos…. uma vida inteira passando feito um rolo desgovernado sobre o qual perdera todo o controle.

Não. Não desejava ir embora. Não queria partir. Tinha tantos sonhos, tantos projetos. Acompanhar o crescimento dos filhos tão amados, estudar, viajar, cuidar dos pais, ver os netos nascerem, amar e ser amada como sempre sonhara… sentir a vida, enfim, cumprir seu ritual sagrado.

Ser feliz parecia tão simples.

Mas Simone Maldonado não pode seguir. Teve sua trajetória brutalmente interrompida naquela madrugada, justamente pelo companheiro em quem confiava e ao lado do qual se deitara pela última vez.

Seu frio assassino, residente numa cidade do interior de São Paulo, passou inacreditáveis 16 anos seguindo sua vida em paz. Casou-se novamente, manteve seu consultório médico e, aparentemente, foi muito pouco ‘incomodado’ pelo crime que cometeu.

O assassino Luiz Henrique Semeghini foi preso apenas em 2016, depois da demorada condenação de 12 anos que recebeu pelo crime hediondo.

No Brasil, segundo uma recente pesquisa, ocorrem, em média, 5.572 mortes de mulheres a cada ano, 464 a cada mês, 15,3 a cada dia ou uma morte a cada hora e meia. As mortes de mulheres, decorrentes do fato de serem mulheres, são denominados feminicídios ou femicídios. Estes crimes são geralmente executados por homens – parceiros ou ex-parceiros – e são resultados dos abusos crescentes cometidos dentro do próprio lar e que, por isso, ‘ninguém vê’.

Mas estes números podem ser muito maiores, pois uma outra pesquisa aponta que mais de 70% dos episódios de violência contra a mulher sequer chegam a ser denunciados.

Estas situações de perigo que, via de regra, as mulheres subestimam e não percebem na sua real dimensão (“afinal”, acreditam elas, “que homem seria capaz de matar a mãe dos seus filhos? ”) transformam o domicílio familiar no local onde ocorre a maior parte dos casos.

O que nos leva à uma suposição: dado que vivia com um inimigo desta ordem, é bastante provável que Simone, assim como grande parte das mulheres, escondesse de todas as pessoas, e até dos próprios filhos, as ‘pequenas’ e cotidianas brutalidades que sofria dentro de casa.

Para a mulher, de maneira geral, persiste ainda a ideia romântica de que aquele homem com o qual se casou, e para quem devotou todo o amor que podia, zelará por sua segurança e integridades física e pessoal – independente de quaisquer conflitos. Por isto, muitas vezes, mentem para esconder as marcas das agressões. Sentem vergonha por não serem capazes de, com seu amor, controlar a fúria assassinada do marido no qual tanto acreditou.

Atendo, há anos, mulheres casadas com tais predadores. Estes, invariavelmente, apresentam-se como homens carismáticos, inteligentes e divertidos. Para o público, mostram sua faceta mais simpática – o que torna a percepção de sua psicopatia ainda mais difícil.

Algumas só se dão conta de todo o mal quando percebem nos filhos os mesmos comportamentos do pai – e que, por vezes, passam a agir assim contra elas próprias.

Portanto, é certo que a mulher leva muito tempo para perceber que aquelas mal disfarçadas manifestações agressivas, assim como as reações desproporcionais do companheiro, fazem parte de um caminho sem volta.

E quando uma esposa – que acredita estar inserida no que todos esperam ver como casamento ideal – não deseja mostrar suas mazelas, creiam, ninguém vai mesmo conseguir avistar qualquer pista.

Por alguma razão estranhíssima, no entanto, quando estes crimes repulsivos e covardes (uma vez que usam de forças contra as quais a mulher não tem mesmo qualquer defesa) vêm à tona, continuam sendo chamados de “crimes passionais”.

Suspeito que esta denominação esteja a serviço de, descaradamente, manter a impressão de que o motivo que leva um homem a matar uma mulher seja ‘simplesmente’ a paixão -– que, segundo o dicionário Michaelis, significa também: o “movimento impetuoso da alma para o bem ou para o mal”.

Ainda hoje, para que a mulher se submeta à vontade do denominado “pater familias”, deve desprover-se de autonomia e encarnar toda sorte de “virtudes femininas”, tais como: subserviência, obediência cega, silêncio, fidelidade, pureza, humildade e,também, um certo grau de pobreza intelectual – mesmo que seja inteligente e perspicaz.

Preste bastante atenção. Este tipo de sentimento é o alimento ácido da alma pretensiosa, egoísta, egocêntrica e vaidosa. É tudo, menos amor. É o ódio que não tolera defeitos, inseguranças ou negações; é aquele que, mesmos em dar, exige ser exclusivo e único receptador.

A vítima deste tipo de ódio, camuflado de “paixão”, nada mais é do que um mero objeto que o perverso quer possuir mesmo que saiba que fere e faz sangrar, uma vez que escolheu acreditar que protegerá a própria e frágil virilidade negando na companheira a possibilidade de existir de maneira mais íntegra e realizada. Desta forma, cabe-nos, então, perguntar:

A quantas mortes de Simone Maldonado, Mércia Nakashima, Patrícia Longo, Sandra Gomide, Eliane de Grammont, Viviane Castro Miranda, Ângela Diniz, Bárbara Carreiro,Camila Duarte, Cenir de Freitas, Salete Cavalheiro, Luciana Feliciano, Dora Siqueira, Jucimara Martins, Andreia Vasconcelos Moura, Renata Muggiati, Luiza Straub Araújo, Cícera Alves de Sena, Regiane Alves de Almeida, Alzenir de Oliveira Santos, Izabella Cazado, Adriana Pessoa, Amanda Bueno, Maria Islaine de Morais, Hettyany Veras, Juliana Paiva Martins, Solange Campos da Silva, Rosemary Justino, Geni Pereira Soares, Suellen Pereira da Costa, Leda Marta, Vitória Grabielly, Clícia Alcântara, Miriam Roselene Gabe, Mayara de Jesus Silva, Tatiane Spitzner, Stephani Brito, Isadora Viana Costa, Geovanna Crislaine, Renata Solange de Souza, Adriana Matiole e de tantas outras centenas de milhares – quase invisíveis – teremos de assistir até que suas memórias e seus entes queridos consigam seguir em paz?

Quantas mulheres ainda terão de morrer nas mãos de seus algozes para que possamos entender que isto não pode mais continuar acontecendo nas sombras de uma sociedade cega e ainda profundamente machista como a nossa teima em permanecer?

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