O REENCONTRO

Batidas na porta da frente, 
é o tempo. 
Eu bebo um pouquinho pra ter 
argumento.
Mas fico sem jeito, calado,
ele ri,
Ele zomba de quanto eu chorei,
porque sabe passar 
e eu não sei.”

In: Resposta ao Tempo – de Aldir Blanc

Imaginara aquela cena centenas de vezes. 

O inesperado reencontro se daria num charmoso bistrô, próximo à Avenida Paulista, onde também se localizaria seu recém reformado e moderno escritório de arquitetura. A tarde estaria fria e um leve nevoeiro evocaria o cenário quase londrino. Assim, Cristina entraria para abrigar-se da chuva fina que cairia sobre a cidade. Sob sua alinhadíssima capa de chuva Lacoste trajaria um belo vestido Versace, que pareceria costurado sobre seu corpo bem-feito, num caimento incrivelmente ajustado que revelaria a delicadeza de suas curvas perfeitas, recém adquiridas em uma lipoescultura incrementada com injeções de enzimas e sessões regulares de endermologia.

Quem sabe já teria passado pela câmara hiperbárica assim como renovado a aplicação de Botox. Também é possível que tivesse concluído aquela almejada reparação em seu rosto através de um discretíssimo lifting que, àquela  altura, lhe conferiria um ar naturalmente jovial. Evidentemente, já teria lançado mão de absolutamente todos os recursos do arsenal oferecido pela tão desenvolvida indústria estética moderna.

Imaginava sua entrada no local, desenhada pelo andar elegante que revelaria suas pernas bem torneadas, recentemente depiladas com cera de algas marinhas misturada a um mel natural. Estaria movimentando-se com invejável desenvoltura sobre seu novo par de sapatos Pollignanno Al’mare que obviamente combinaria com a charmosa bolsa Louis Vuitton. Seus cabelos estariam bem tratados, exibindo aquele desejado tom castanho claro,  misturado aos reflexos sutilmente alourados que, naquele momento, lhe cairiam sobre a face, cuidadosamente despenteados, desvelando um rosto luminoso e levemente maquiado.

Como complementos indispensáveis estaria usando seu Cartier Tank, um maravilhoso par de brincos da Bulgari em ouro cravejado de brilhantes e uma discreta corrente da Tiffany que se acomodaria sobre seu colo macio e perfumado com a suave fragrância de Dolce & Gabbana.

Estaria assim, bela e absorta em pensamentos longínquos, provavelmente relacionados à mais recente proposta recebida de uma conhecida holding para elaboração de um arrojado projeto arquitetônico e urbanístico a ser desenvolvido numa elegante área da cidade e pelo qual seria muito bem remunerada.

Dessa forma, então, adentrara o bistrô simplesmente para aquecer-se e esboçar seu planejamento. Pediria um chá tailandês e, assim relaxada, se sentaria à mesa do melhor espaço encontrado para admirar a passagem do tempo através dos vitrais da frondosa janela. Obviamente sua presença marcante despertaria a atenção de todos, tanto dos indiferentes garçons como dos transeuntes que arriscariam uma olhadela fresta adentro.

Seus olhos reproduziriam o mais doce olhar, jamais registrado em seu sorriso franco e aberto. Ah… e esse seu sorriso que ele tanto gostava, naquele exato momento, seria capaz de ofuscar a mais contundente tradução da imagem divina. E, numa coincidência magnífica, vendo-o entrar pela porta principal, com tranquilidade, enfrentaria seu ar incrédulo e hipnotizado, olhando diretamente em seus lindos olhos verdes e, com muita segurança, o convidaria para sentar-se em sua mesa onde, com naturalidade, depois de ajudá-lo a recompor-se de tamanha surpresa, contaria sobre seus novos projetos e acerca do quanto sua carreira se definira com tamanho sucesso no decorrer daqueles anos todos que passaram sem se ver.

Nada, absolutamente nada, parecido com aquela figura na qual se reconhecia através do reflexo da vitrine da loja de materiais de construção do shopping onde costumava fazer compras.

Lá estava ela… seria ela de fato?… de calça jeans surrada, camiseta branca… precisava estar tão manchada?… cabelos amontoados no alto de sua cabeça, presos displicentemente por uma indefectível “piranha” prata, já que, com toda aquela correria atrás dos últimos pedidos dos pedreiros que trabalhavam na obra sob sua responsabilidade, transpirava por todos os poros… e o calor que fazia… ah! esse maldito calor… e os cabelos que teimavam em cair bem no meio de seu rosto e que precisavam ser urgentemente lavados e penteados.

Lá estava a real Cristina! De sandálias baixinhas, unhas por fazer, com aqueles seis incômodos quilos a mais que se concentravam em dois pneuzinhos insistentemente à mostra,  porque, afinal, ainda não tivera tempo nem dinheiro para pensar em como operacionalizar os cuidados consigo mesma e as mudanças pretendidas em seu visual.

Parada na frente da vitrine que anunciava a liquidação de alguns metais e equipamentos de cozinha, seus olhos bateram com aquele olhar verde-musgo-inexplicável. Não era possível! Lá estava ele.

Sentiu-se estremecer e tentou disfarçar olhando meio de lado enquanto segurava uma incômoda mecha de cabelo. Ia sorrateiramente saindo quando, atordoada, ouviu:

— Oi, Cris! Que surpresa te encontrar por aqui!

Não podia acreditar que o tão esperado, imaginado e mentalmente ensaiado reencontro com o antigo e inesquecível namorado se daria assim, desta forma, de um jeito tão malfadado!

Sem conseguir imaginar outra saída, resolveu demonstrar sua surpresa, respondendo ao cumprimento completamente desajeitada, deixando cair alguns pacotes que carregava por entre os braços e mãos que se entrelaçaram numa atrapalhada saudação.

E com uma vontade enorme de desaparecer dali mesmo para dentro de uma fenda que imaginou abrir-se no chão, logo abaixo de seus pés inchados, não conseguiu balbuciar nada além da impensada frase “vou bem, obrigada…” enquanto ia distanciando-se e completando com palavras desconexas “desculpe, mas estou com tanta pressa, sabe, os pedreiros, atrasados. Que pena… nos falamos num outro dia… quem sabe? Tudo de bom pra você!”

E, assim, saiu daquela cena como entrara, rápida e desnorteadamente, deixando para trás sua melhor e mais completa história de um inconfesso amor perdido, assim como de um reencontro que, nunca entendeu por que, não conseguiu fazer dar certo.

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