VAMOS FALAR DE AMAR?

Imagem Movimento Coração sendo passados

O medo de amar é o medo de ser
Livre para o que der e vier,
Livre para sempre estar onde o justo estiver.

O medo de amar é o medo de ter
De a todo momento escolher
Com acerto e precisão a melhor direção
.”

In: O Medo de Amar – de Beto Guedes

 

Em tempos de ódios, nada mais indispensável do que falar de amor. Entretanto, todos nós temos uma tendência a crer que o sentimento que se opõe ao amor seja o ódio. Mas esses dois ‘extremos’ nem sequer estão associados entre si, pois o oposto do amor é o medo – emoção capaz de paralisar, como tantas outras.

Um dos sentimentos mais instintivos do ser humano é precisamente este. O medo é uma resposta natural diante do perigo. Sabemos que ele nos ajuda a sobreviver, mas também nos limita e é usado muitas vezes para nos afastar das nossas potencialidades, afetando tanto nosso corpo quanto nossa mente.

Jamais almejamos identificá-lo porque parece ser contra nossa natureza fazê-lo. 

O medo é uma fera complicada que, quase sempre, nosso ego não deseja que reconheçamos. Desta forma, joga uma cortina de fumaça de culpa e de ressentimento para nos impedir de ir mais fundo, por exemplo, numa relação amorosa. 

Em vez de olharmos para nossas mais verdadeiras aspirações, passamos, imediatamente, a culpar os “outros” por todos os nossos problemas, em relação a tudo.

Mas, à medida que adquirimos o hábito de sermos honestos diante daquilo que sentimos e passamos a enxergar o mundo a partir de um lugar mais amoroso, a vida se torna muito mais fácil e feliz. 

Enfim, carregar toda aquela amargura e raiva sempre nos desgasta e esgota, não é mesmo?

Isto porque, muito provavelmente, tenhamos consciência de que vivenciar uma doce e agradável experiência amorosa seja um dos mais básicos e vitais projetos humanos.

Mesmo que muitos passem a vida tentando se enganar acerca desta vigorosa e real necessidade afirmando (tolamente) que viver uma paixão é coisa para os “fracos”, no fundo sabem que é para isso que todos vivemos. E que a urgência de amar e ser amado(a) é a base e o motivo da totalidade das nossas escolhas e atitudes.

Amar é perceber o outro com o olhar do afeto mais puro, mas a condição para expressar este sentimento depende de como cada um experimenta a própria liberdade pessoal.

Amar é permitir que os sentimentos fluam livremente a partir do autêntico desejo em direção ao afeto que se almeja vivenciar. A dificuldade aparece justamente quando passamos a submeter esta possibilidade a toda sorte de manias e neuroses que chamamos de anseios pessoais.

Se condicionarmos o amor às nossas aspirações neuróticas estaremos decretando a sua mais absoluta falência.

O problema é que muitas pessoas passam a vida inteira tentando fazer com que os outros se responsabilizem pela tarefa de satisfazer suas ambições ao mesmo tempo em que, comodamente, se abandonam de maneira irresponsável e, assim, criam um buraco existencial que teimam em esperar que alguém venha preencher.

Por conta disso, quase todos os romance tem sido vivenciados e relatados – nas conversas entre amigos, nos divãs dos psicanalistas, nos roteiros de filmes e novelas – como uma experiência que começa de maneira retumbante para, em pouco tempo, transmutar-se em algo profundamente doloroso – o que é bastante surpreendente. Porque amor deveria ser um exercício gratificante, libertador e de genuíno êxtase. Porém, canso de ouvir manifestações repletas de arrependimentos, rancores e tristezas combinadas com péssimas lembranças do tipo:

‘Aquele desgraçado’; ‘aquela desqualificada’; ‘ele não me ama do mesmo jeito’; ‘ela não cuida de mim’; ‘ele não me admira’; ‘ela não olha para mim’; ‘parece que nem existo’; ‘sinto-me um miserável’; ‘sou explorado’; ‘sou humilhada’; ’faço tudo’; ‘não consigo fazer nada’.

Tantas queixas e lamentos, não é mesmo?

Uma notícia ruim: ninguém, absolutamente ninguém, terá condições de preencher este espaço vazio que você mesmo criou. A notícia boa é que se você assumir suas ações sem medos, assim como suas escolhas e os resultados delas, você viverá de maneira muito mais serena e completa. E, desta forma, se tornará leve e fácil de conviver.

Por outro lado, se as pessoas admitissem que o amor é capaz de acabar, como tudo um dia termina, e se permitissem novas buscas e novos encantamentos, entenderiam que a vida nos oferece possibilidades inesgotáveis de transformações e crescimento.

Para Freud, esta transitoriedade implicaria não na possibilidade da perda, mas, sim, no aumento do valor do objeto em questão (amor, amizade, bagagens pessoais, bens materiais, poder, etc.), pois a limitação da condição de usufruir algo elevaria seu valor.

Assim, Freud conclui que “o valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo”. É plausível dizer que, para Freud, a escassez introduzida pelo tempo cria valor, ou seja, a limitação do tempo concede um valor aos objetos.

Então, bastaria entender que TODOS OS RELACIONAMENTOS dão certo – dentro daquele tempo que devem durar e que, portanto, “dar certo” não é sinônimo de durabilidade mas, com certeza, de qualidade de relação, do quanto ainda somos capazes de olhar fundo nos olhos do ser amado e sentir aquilo que se passa dentro dele sem precisar ouvir nem falar; do quanto bate nosso coração de saudade quando ele fica longe da gente; do quanto é gostoso sentir o aconchego da sua presença pertinho de nós.

Amar, então, pode finalmente converter-se num verbo não apenas transitório e intransitivo, mas também num aprendizado absolutamente poderoso e transformador.

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