VOCÊ É NARCISISTA?

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“Estou preso em meio a um labirinto cheio de espelhos.
O meu mundo gira em torno das vontades que eu tenho. 
Estou imerso em um sistema que me diz você é livre,
Mas no fundo o desejo pela liberdade não cessou.

Que eu sou escravo do consumo desse amor por mim. 
Eu sou escravo sem saber que sou assim.
Que eu sou escravo do consumo desse amor por mim.
Eu sou escravo sem saber…”

In: Memórias de Um Narciso – de Lorena Chaves

Segundo a mitologia grega, Narciso era um jovem de beleza rara e exuberante. Filho do deus Cephisus e da ninfa Liriope,  despertava toda sorte de inveja e paixões entre ninfas e donzelas. Ainda assim, Narciso preferia viver sozinho porque acreditava não existir alguém que merecesse seu amor.

Um dia, ao inclinar-se para beber água em uma fonte cristalina, Narciso deparou-se com a imagem refletida e enfeitiçou-se com a visão. Encantado, contemplou o lindo rosto que via e apaixonou-se por ele sem perceber que era o seu próprio reflexo.

Por diversas vezes Narciso tentou alcançar aquele sublime espelho colocando inutilmente as mãos dentro d’água . Nenhum abraço era possível. Nenhum verdadeiro contato. Depois de muito tempo, já completamente esgotado, deitou-se e seu corpo, aos poucos, foi desaparecendo em meio à relva. No final, em seu lugar, surgiu uma flor amarela com pétalas brancas que ficou conhecida como Narciso.

Afinal, por que somos compelidos ao narcisismo doentio?

O mundo contemporâneo passa por diversas transformações que nos afetam tanto física quanto psicologicamente. Se há alguns anos precisávamos nos levantar inúmeras vezes do sofá para alcançar o botão da televisão – o que nos obrigava a pensar bem sobre nossas escolhas – hoje basta um suave toque no controle remoto e mais nada. O que deveria nos trazer comodidade e prazer, na verdade, está nos transformando num grupo de seres inertes e sem criatividade, que repete cegamente comportamentos condicionados, dissociados e inúteis – que, na maior parte das vezes, nos afastam do prazer, da reflexão e da capacidade crítica sobre o que nos cerca.

Estamos nos convertendo rapidamente numa sociedade doente, ansiosa, em permanente estado de alerta, descomprometida em relação a uma porção de valores e, acima de tudo, sem ideais.

Ainda assim, e apesar de toda a mera “aparência”, aspiramos uma vida mais produtiva que possa ser experimentada de um jeito leve, autônomo e prazeroso. Uma vida, enfim, farta de sentido.

Para o historiador Watson Christopher Lasch (autor de, entre outros, “A Cultura do Narcisismo“), o conceito psicanalítico de narcisismo pode ser perfeitamente adequado para fornecer um bom diagnóstico dos nossos tempos se considerarmos que neste atual “mundo globalizado” existe uma brutal ausência de projetos comuns – o que aponta para o reforço do investimento no bem-estar individual como única opção real e definitiva.

Segundo Lasch, a sociedade contemporânea criou, desta forma, condições para a ocorrência do narcisismo exacerbado. O narcisista, então, se caracteriza pela desconfiança generalizada, superficialidade emocional, medo de intimidade, hipocondria, falsa auto percepção, horror à velhice e à morte.  É descrente em relação à possibilidade de modificar o futuro, despreza o passado e vive exclusivamente para o aqui e o agora.

Então, toda a dedicação do indivíduo se volta para o presente e, ao mesmo tempo, para SI mesmo – o que revela uma surpreendente perda da noção tanto de continuidade histórica quanto de pertencer a um contingente humano – a ultrapassar os próprios umbigos.

Daí, alcança-se a uma percepção profundamente equivocada: se não existe passado ou presente, o que se fizer agora simplesmente não importa. Faz-se o que bem se entende em nome de qualquer interesse ou programa perverso.

Por isto, vemos pessoas que só se importam consigo e com, no máximo, a próxima geração de descendentes consanguíneos. Podemos enxergá-las nos empresários, políticos, governantes e demais “castas” que só se preocupam em garantir o próprio estilo de vida assim como seus (im)próprios privilégios além dos de seus filhos e netos.

Mas, evidentemente, não garantirão NADA para NINGUÉM. Pois o mundo deste jeito desequilibrado só tende caminhar rumo ao total e absoluto desterro.

Em nome de “garantir” alguma saída individual ou um ínfimo sucesso pessoal, o cidadão médio vai assimilando bizarras e rasas concepções de mundo e, desta forma, entorpecendo suas intuições e sabedorias humanas para transformar-se, rapidamente, em mais um tolo narcisista ambulante.

Uma sociedade que incentiva o narcisismo está, na verdade, sumariamente cortando do seu eixo vital a tão necessária relação com as tradições humanas – como se estas fossem um entrave para a “modernidade” exagerada que o alucinado desenvolvimento tecnológico deseja impor.

Desqualifica-se o velho e o passado. Da mesma maneira, o futuro é colocado em suspensão uma vez que não existem boas expectativas para alterações positivas (do ponto de vista da população desesperançada), nem segurança suficiente nas organizações políticas, além do sempre presente medo das violências cotidianas, guerras, atentados, desastres ecológicos ou nucleares.

Vivemos todos como se estivéssemos por um fio. Ou no fio da navalha: entre o seguro e o contingente; o ótimo e o péssimo; o poder e a submissão; o controle exagerado e a indiferença cabal; a força extremada e a vulnerabilidade total.

Por isto, a ideia cada vez mais presente do “cada um por si e danem-se todos”.

As relações pessoais tornam-se instáveis e precárias. E, o que é pior, altamente ameaçadoras. Desconhecemos o significado da confiança e da lealdade, da mesma forma como o da solidariedade, da esperança e do afeto.

Para nos sentirmos parte de um todo, paradoxalmente, abandonamos o simples. E acreditamos na necessidade de estarmos incessantemente conectados ao mundo virtual que se contrapõe, de maneira superlativa, à existência real. Precisamos chamar a atenção de algum jeito – seja pela ausência, seja pelo excesso.

Daí, a crescente demanda por apenas parecer mais feliz e plenamente realizado – mesmo que se esteja longe de sentir-se deste modo.

Afinal, a realidade não admite edição nem fotoshop. Não podemos escolher em que ângulo nosso interlocutor pode nos enxergar. Nem nosso mais belo lado a ser publicamente exposto. Também não podemos melhorar, recortar, sombrear ou clarear nossa imagem na vida concreta. E ela se torna, cada vez mais, uma prova difícil e desanimadora de se experimentar.

Esta vivência produz uma neurose caracterizada por uma carência de perspectivas e de significados. O indivíduo contemporâneo deposita nos meros objetos toda sua significação. E, diante de uma eventual perda deste objeto, ele passa a considerar-se inadequado, inábil, fraco e ignorante. E, na falta de valores como justiça social e continuidade histórica, a ética do “sobreviver, custe o que custar” passa a nortear a cultura narcísica – que nada mais é do que uma resposta emocionalmente desorganizada frente às pressões e angústias do mundo atual cujo modelo, definitivamente, contribui com a sensação de falta de sentido.

E, por isso, o indivíduo tente privar-se da vivência dos medos, das angústias, das perdas e dos lutos. Sentimentos reais. Mas, em contrapartida, enaltecem-se as aparências das coisas, assim como de seu valor comercial, glorifica-se a alienação e a indiferença, tantas vezes amparadas pelo uso excessivo de toda a sorte de drogas lícitas e, principalmente, ilícitas. Quanto mais drogas, mais esvaziamento interior e mais sofrimento posterior.

Não nos esqueçamos, entretanto, que a angústia, o medo e o desespero são sentimentos que nos possibilitam vivenciar a genuína condição humana e que nos impelem na direção da experiência autêntica enquanto seres humanos livres, ímpares e transformadores.

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