O ASSÉDIO QUE NOS OPRIME TODOS OS DIAS

Imagem Movimento Solidão 1

“Mudou…
O impulso aflito de dizer que não,
A lua é nova e a nova informação
Muda meu céu e vai mudar meu chão.
A terra ardeu e o céu desmoronou
E há o que fazer e a flor não me ensinou
E há o que saber e o sonho não mostrou.”

In: Mudou  de Taiguara

 

Uma recente pesquisa produzida pelo site vagas.com registrou uma estarrecedora conclusão: 52% dos quase cinco mil entrevistados afirmaram já terem sofrido algum tipo de assédio moral e/ou sexual dentro do ambiente de trabalho. E a estatística piora. Deste total,  87,5% não denunciaram o fato.

Falar sobre assédio sexual e assédio moral no trabalho é difícil, uma vez que envolve traumas, jogos de poder e medo. Porém, cada vez mais pessoas estão denunciando essas práticas – que correspondem a 43,9% das denúncias dentro das empresas, junto a agressões e outros desvios de comportamento.

As principais denunciantes de casos de assédio sexual são as mulheres: 63,8% dos casos são relatados por funcionárias.

E os exemplos não são nada dignificantes:

Um em cada três bancárias e bancários da Caixa Econômica Federal sofreu algum tipo de doença relacionada ao trabalho nos últimos 12 meses. Doenças psicológicas causadas por estresse representaram 60,5% dos problemas. Dentre estas, 53% precisaram recorrer a algum medicamento e 10,6% relataram depressão. Os remédios mais usados foram os antidepressivos e ansiolíticos (35,3%), anti-inflamatórios (14,3%) e analgésicos (7,6%). 

Segundo uma Comissão dos Empregados da EBC (Empresa Brasil de Comunicação, que é pública), 67,6% dos funcionários afirmaram que sua chefia cria dificuldades de acesso aos instrumentos de trabalho. Os(as) jornalistas foram alvos de perseguições, como transferências de funções e de setores, além de perseguições relacionadas à linha editorial governista ali instalada. Muitos que buscaram produzir conteúdo que apresentasse informações de forma critica foram punidos.

Outra pesquisa denunciou assédio moral contra 66% dos funcionários do Itamaraty.

Toda a sorte de constrangimento, discriminação e humilhação – além de palavras e ações que tem o poder de agredir tanto a honra quanto a dignidade de alguém – estão potencialmente presentes nos locais onde duas ou mais pessoas sejam obrigadas a trabalhar numa forçada convivência diária.

Não restam dúvidas de que estas circunstâncias roubam do trabalhador sua capacidade criativa e produzem sofrimentos e dores brutais.

Júlia teve uma pasta esfregada em seu rosto pela gerente. Carla foi requisitada diversas vezes para comparecer à sala do chefe para que ele declarasse seus ‘afetos’ em relação a ela – a portas fechadas. João Carlos cansou de ouvir que seu diretor iria ‘acabar com sua carreira ali e fora dali’. Milene foi apalpada pelo dono da escola onde dava aulas. Augusto era sempre chamado de incompetente todas as vezes que o chefe precisava justificar os erros que ele próprio cometia. A juíza maluca de um tribunal achou justo atirar um grampeador na cabeça de um escrevente.

Estes são apenas alguns dos milhares de exemplos que denunciam, de maneira clara e irrefutável, situações de violência dentro das relações de trabalho. Por mais que pareçam simples frutos de desvios de conduta ou de comportamentos exagerados, tais exemplos de abuso de poder não são novidades.

Segundo dados bastante atuais, o assédio moral, também chamado de “terror psicológico dentro do ambiente de trabalho”, está entre as três queixas mais frequentemente registradas dentro dos processos julgados por “danos morais” em nosso país.

É correto afirmar que tal prática se institucionalizou como elemento comum no meio profissional e as denúncias têm crescido de maneira assustadora nos últimos tempos. De acordo com os escritórios de advocacia especializados nesta área, os casos quintuplicaram nos últimos dois anos.

Mesmo assim, parece existir uma perigosa e equivocada tendência no sentido de desestimular a formalização da denúncia.

O problema é que a justiça exige provas documentais assim como testemunhais envolvendo colegas que eventualmente concordem em arriscar seus próprios empregos. Tanto uma quanto a outra são condições claramente limitadoras para que a reclamação seja levada adiante.

O assédio moral pode parecer imperceptível ao olhar alheio – mas, de fato, nunca o é.

As pessoas ao redor preferem fingir não perceber a permanente tortura que presenciam para não sofrerem as mesmas perseguições e os inevitáveis problemas de consciência que fatalmente lhe assaltarão quando confrontadas com os fatos.

O assédio funciona exatamente como nos casos de bullying: o(a) chefe começa, sem qualquer explicação plausível, a ignorar, menosprezar e desmoralizar tanto as atitudes quanto as ideias da sua vítima. Estas ações ocorrem, na maior parte dos casos, diante dos colegas não apenas como uma forma de humilhar uma determinada pessoa, mas, acima de tudo, como uma ameaça declarada aos demais: “veja bem o que posso e vou fazer contra você caso venha a me aborrecer de algum jeito”.

Inicialmente os constrangimentos podem se apresentar disfarçados de “falo isto porque gosto de você”, “é para o seu bem”, “você pode melhorar, tente!”, “eu até aprecio o que faz, mas o diretor vai detestar”, etc, etc.

O assédio pode também começar de maneira velada, mascarado de interesse genuinamente humano. O chefe se aproxima do subalterno e, em nome de auxiliá-lo nas tarefas, vai criando um vínculo que, aos poucos, supera o limite daquilo que deveria ser meramente profissional. Não é a toa que mulheres e homossexuais, nesta ordem, são as presas preferenciais.

O ‘cerco’ também pode se estabelecer logo de cara: o ‘líder’, de imediato, se apresenta como autoridade máxima e sutilmente ‘avisa’ que ali não existe espaço para controvérsias: ele manda e está falado!

Existem ainda situações em que ele apenas ‘sugere’ sua supremacia enumerando experiências muitas vezes inventadas que pretendem, na verdade, salvaguardar sua consciência de inadequação e de falta de condição para manter-se no cargo. A este cenário alia-se o medo de perder a posição dentro da hierarquia que tanto valoriza.

No ambiente de trabalho estas condutas promovem um clima doentio e intimidador, onde a loucura do perseguidor, que quase sempre escapa da compreensão de seus superiores, pode adquirir aspectos ainda mais perversos e perigosos, uma vez que ele (ou ela) vai precisar esconder suas verdadeiras motivações, que vão desde o temor de transparecer sua profunda sensação de incompetência e insegurança até o ciúme e a inveja mortal em relação ao seu ‘objeto de suplício’.

Logo, o assediador moral nada mais é do que o indivíduo profundamente imaturo cuja flácida segurança permeará toda e qualquer situação em que se sinta, de alguma forma, ameaçado.

Atendi, por muitos e muitos anos, dezenas de pessoas que tiveram sua autoestima estilhaçada em milhares de partículas por conta deste tipo infame de relação destrutiva.

Os abusadores são, habitualmente, os que praticam agressões contra aqueles que acreditam não terem poder ou condição de se defender. É o caso, por exemplo, do empregado que necessita desesperadamente do salário para sustentar a família. E subsistência, sabemos, está na base das principais necessidades humanas. Infelizmente o abusador também sabe disso.

Alguns sérios estudiosos afirmam que, com exceção das necessidades de autorrealização, as demais necessidades humanas podem ter sido geneticamente estabelecidas assim como o são os instintos.

Para o filósofo David Wiggins “falar de necessidades não é se referir a um estado mental. Uma necessidade não é algo resultante de uma mera criação intelectual, nem é o produto de uma escolha ou eleição arbitrária. Algo é necessário, seja em termos lógicos, seja em termos físicos, exatamente porque é impossível que venha a ser de outro modo. O verbo “necessitar” não é intencional. Por isso mesmo, necessitar não é o mesmo que querer. Posso querer o que não necessito e posso ter necessidade do que não quero”.

E quando um manipulador (seja ele um sujeito, um grupo ou uma classe) entende isto, sente-se à vontade com a certeza de que seu alvo irá tornar-se facilmente submisso e subserviente, além de controlável e, quando necessário, também descartável.

Usam o que acreditam ser sua força – ou influência – para lesar aqueles que elegem como desafetos. Têm consciência de que não serão censurados por seus atos e divertem-se não apenas dizendo o que pensam, mas insinuando, provocando e emitindo frases depreciativas.

Chega a impressionar o número de pessoas perversas e injustas que são encorajadas a ocupar cargos superiores e mantêm sob suas miras, por vezes, centenas de vítimas aterrorizadas e indefesas.

Tais criaturas sabem quase perfeitamente esconder seus traços psicóticos e sua fraqueza moral desvelada exatamente na absoluta falta de senso ético e de noção de justiça.

Nas relações pessoais quando consideramos, por exemplo, marido e mulher ou pais e filhos, os contatos que visam diminuir e desqualificar o outro são capazes de produzir doenças físicas e mentais. Neste caso, o objetivo não é retirar o parente do convívio familiar, mas enclausura-lo numa submissão patológica e potencialmente lesiva.

Tanto neste cenário quanto naqueles que se referem ao ambiente profissional aumentam significativamente os relatos de casos de surtos, depressão e suicídio – além do crescimento da incidência de doenças letais.

Fica, então, uma sugestão: converse muito com seus colegas de trabalho a respeito do que sentem sobre esse tipo de pressão. Conversar sobre tais sentimentos é o primeiro passo.

Sendo você o involuntário protagonista de um caso de abuso de poder não deixe de registrar tudo o que for possível: filme, grave e fotografe. Recolha todas as provas que conseguir antes de denunciar o abusador. Mas denuncie, de qualquer forma. Até que o respeito se torne uma prática tão imprescindível e comum quanto sobreviver.

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