O MAL É O NOSSO CONSTANTE E INCÔMODO VIZINHO

 

Imagem Movimento Bomba Atômica.gif

 

“Quem canta fala consigo,
Quem faz o amor nunca quer ferir,
Quem não fere vive tranqüilo
Vê muita gente sorrir.

Sorriso bom, só de dentro,
Ninguém é bom sendo o que não é.
Eu, pra ser feliz com mentira,
Melhor que eu chore com fé.”

In: Piano e Viola – de Taiguara

 

 

Uma mulher é assassinada pelo ex-companheiro que não aceitava a separação. Um bebê indígena morre com um tiro na cabeça por causa do ódio disseminado pelos invasores de terras indígenas. Família de policiais é dizimada numa única noite. Policiais e juízes honestos são exterminados. Moradores de favelas desaparecem nas mãos da polícia que deveria promover a “pacificação”. Adolescente mata colega por ciúmes do namorado. Homem que denunciava extratores ilegais é abatido em emboscada. Mulher mata mãe de um recém-nascido para sequestrá-lo. Gays são supliciados em plena Avenida Paulista. Crianças são vítimas de abusos a partir do primeiro mês de vida. Mulheres são perseguidas, violentadas e mortas.

Mata-se da mesma forma com que se exterminam baratas.

E seguimos assistindo, entre perplexos e horrorizados, uma violência imensa e crescente contra inocentes e vulneráveis seres humanos.

A filósofa Hannah Arendt nos alertou para o fato de que por trás de todo o mal existem pessoas banais escondidas em seus gabinetes. Frisou que o mal carrega em si o potencial de se espalhar como um fungo e que isso só acontece por causa da incapacidade das pessoas pensarem sobre o que está ocorrendo de fato. Sobre o que elas e seus pares estão fazendo de verdade. E sobre as consequências de seus atos.

Propôs, enfim, que deixássemos de enxergar banalidade em qualquer forma de mal concebendo, enfim, a espantosa pluralidade da condição humana. Que prestássemos muita atenção na perigosa banalização do mal, uma vez que o que assistimos hoje é a institucionalização do mal distribuído entre os poderes constituídos e mergulhado em um sistema político que promove a violência e a coerção – que são aceitas como “parte integrante”  do processo civilizatório monopolizado pelo Estado que, em nome de salvaguardar-se, o institucionaliza e o burocratiza.

É cada vez mais evidente que a ‘autoridade’  desempenha papel fundamental na normalização de atos que comumente consideraríamos maus e moralmente repreensíveis.

As pessoas parecem adotar diferentes códigos morais dependendo do grupo com o qual estejam se identificando.

Por exemplo: aqueles que se envolvem em corrupção corporativa muitas vezes se tornam gradualmente adaptados ao ‘código moral’ da organização, mesmo que mantenham seu próprio código moral fora dali. Como se isto fosse natural.

Essa é a razão, segundo Arendt, de que a batalha contra o mal deve ser travada nos recessos da moralidade e do pensamento do indivíduo, o que, por definição, teria a tarefa de questionar e desafiar constantemente as tais ‘ordens consensuais’.

A degradação humana, filtrada por oportunistas critérios de classe – que tantas vezes apontam para a responsabilidade da miséria e do crime ‘que descem a favela’, fechando os olhos para os motivos que fizeram a miséria e a favela existirem – é ainda revertida como sucesso de público para o espetáculo humano que, à moda de uma tragédia grega, é mostrado pelos canais de TV ao vivo e em cores, alcançando uma plateia anestesiada e incapaz de juntar causas com consequências.

Ou você nunca se viu compelido a torcer pelo mocinho enquanto assiste aos Datenas da vida?

E por que ficamos tão reduzidos em nossa capacidade crítica frente a claros e flagrantes exemplos de violência e injustiça?

Sabemos que o aparelho psíquico não tem condições de elaborar a visão de um episódio violento sem ser atingido de maneira brutal na sua essência. Logo, numa ação de autodefesa, nosso psiquismo passa a observar a cena como se esta fizesse parte de uma novela, como se não fosse real. E toda a reflexão crítica daquele ato em si fica comprometida ou nem sequer é realizada.

Em outras palavras: cada vez que uma cena de violência é exaustivamente apresentada na televisão, por exemplo, nosso psiquismo a captura com o mesmo impacto. Todas as vezes – e como se fosse a primeira vez. Isso traz repercussões psíquicas. Podemos nos tornar fóbicos, neuróticos, delirantes ou, simplesmente, alienados.

Entendeu agora a função dos mencionados Datenas?

Nesta medida é possível sentir-nos bons e justos diante de um mundo mesquinho e cruel, como se não fizéssemos parte deste universo. Há uma certa descarga emocional quando experimentamos esta (aparentemente) confortável e distante visão do ‘mal alheio’. Porém, é justamente ela que nos faz permanecer imobilizados. Temos, daí, a impressão de que tudo ‘aquilo’, que obviamente é errado e insano, pertence ao outro; e tal consciência parece suficiente para nos fazer adquirir algum mérito moral.

Não nos envolvendo com o mal, tornamos-nos parte dele no que ele traz de mais nefasto: o silêncio.

E, então, matar torna-se banal.

O pai que mata a filha. O vizinho que mata o síndico. A mãe que mata o marido. O policial que mata o suspeito. O filho que mata a avó. O gerente que mata o supervisor. O assaltante que mata a vítima. O patrão que mata a empregada.

O suspeito chega na delegacia e é torturado para falar o que desejam que conte. Ele não fala e morre sob tortura. Se você não fizer o que se exige alguém pode lhe matar. Sua vida não tem quase nenhum valor. Se você for pobre este valor torna-se exponencialmente menor.

E, deste jeito, a vida perdeu grande parte do seu significado único e sagrado. O culto ao medo, associado à veneração do mal, transformou esta magnífica e preciosa experiência em algo cada vez mais descartável.

Por isso, é urgente que, neste processo de naturalização da sociedade e de artificialização da natureza, a coletividade reencontre o criativo olhar para si e para o mundo, de uma maneira dinâmica e dialética. Propondo-se a dissolver tanto mal e tornar a violência um dos atos finais do intolerável clima de cumplicidade que impera nesta sociedade selvagem e indiferente.

Que os bons parem de fazer o cômodo silêncio perante o barulho dos maus!

Ou continuaremos morrendo feito cavalos sacrificados.

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Um pensamento sobre “ O MAL É O NOSSO CONSTANTE E INCÔMODO VIZINHO

  1. com as lágrimas do tempo
    e a cal do meu dia
    eu fiz o cimento
    da minha poesia
    e na perspectiva
    da vida futura ergui em carne viva
    sua arquitetura
    não sei bem se é casa
    se é torre ou se é templo
    (um templo sem Deus)
    mas é grande e clara
    pertence a seu tempo
    -entrai, irmão meus!

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