A MORTE QUE ALIMENTA A RODA VIVA

Imagem Movimento Mar Revolto 2

 

“Eta mundo que a nada se destina,
Se maior se faz, mais se arruína,
Se mais quer servir, mais nos domina,
Se mais vidas dá, são mais os danos,
Se mais deuses há, mais são profanos,
Estes pobres de nós seres humanos.”

In: Evangelho – de Paulo César Pinheiro

 

 

Ou: como a vida de um tripulante dentro de um cruzeiro marítimo pode ser simplesmente melancólica além de perigosa e insuportavelmente solitária.

Ontem, dia 9 de setembro, a Rede Record apresentou uma reportagem denunciando as condições desumanas a que são submetidos tripulantes dos luxuosos navios de cruzeiro quando, inclusive, são mantidos em verdadeiros cativeiros que incluem cabines inabitáveis, banheiros imundos, falta de higiene, assédio e abuso moral, sexual, etc. e etc.

Uma jovem brasileira foi assassinada pelo namorado, Bruno Bicalho, também ‘embarcado’, em um navio da MSC em janeiro de 2010. Antes disto, ela ainda tentou pedir socorro aos seus superiores implorando pela troca de cabine, além de denunciá-lo como traficante de drogas dentro da própria embarcação. O programa revelou que seus ‘clientes’ eram funcionários de patentes acima da sua. O criminoso foi liberado e hoje, já condenado, encontra-se foragido.

Outra história deu conta de mais uma brasileira, Laís Santiago, de origem humilde, que também foi contratada por uma empresa italiana de cruzeiros. Pouco tempo depois ela decidiu voltar para o Brasil. Dias antes disto se concretizar, em 1 de junho de 2012, no entanto, a garota ‘caiu’ do parapeito do navio. E a empresa Costa Mágica nada mais divulgou acerca do caso alegando tratar-se de um ‘simples’ suicídio. Todas as possíveis provas foram destruídas antes de serem entregues, como seu celular (sem chip) e seu computador (inutilizado).

A paulistana Simone Scheuer Sousa, contratada como faxineira do MSC Música, também desapareceu durante a viagem do navio no dia 19 de junho de 2017.

O santista Cícero de Andrade, que trabalhava como bartender na empresa Pullmantur, desapareceu numa viagem pelo litoral italiano em 29 de junho de 2018.

Segundo o programa, intitulado Crimes em Alto Mar, navios de cruzeiros tornaram-se uma vergonhosa espécie de ‘Pátria Itinerante’ onde impera a lei do mais forte. E os covardes costumam se comportar como ‘fortes’.

Uma viagem a bordo custa muito caro. E uma série de coisas acontece longe de todo este enganoso ‘glamour’ sustentado e regado pelo sofrimento alheio. A maioria destes ‘serviçais’ trabalha em condições análogas ao trabalho escravo. Lembre-se disto quando embarcar neste tipo de ‘luxo’.

Isto posto, vou contar uma história que me envolveu há bem pouco tempo. E para começar a falar sobre uma notícia que só me alcançou porque tive a oportunidade de conhecer seu protagonista – uma vez que não houve uma linha sequer (até onde pude saber) publicada no Brasil sobre esta tragédia ocorrida há poucos anos, mais precisamente no dia 1º de julho de 2015 – vou deixar aqui registrada uma sugestão:

Preste sempre muita atenção naqueles que estão ao seu lado. Em tempos de absoluto desinteresse e negligência em relação aos que não consideramos da “nossa turma”, um pequeno gesto de cuidado ou delicadeza pode fazer uma imensa e imprescindível diferença.

Pegue bem forte na mão de quem cambaleia porque esta pessoa pode estar ali apenas por acreditar que você pode socorrê-la. Não vire as costas para a dor de outrem apenas por não lhe pertencer. Esta mesma dor pode, em algum momento, configurar-se na sua vida de maneira surpreendente e cabal. E você pode não vai saber enfrentá-la.

E é por isso todos precisamos de vínculos verdadeiros e profundos a fim de desalinhavar estes fios com os quais temos costurado nossas atuais relações, tão débeis e quebradiços.

Muitos estudos comprovam que contatos exagerados com a solidão e o abandono são capazes de estimular estados depressivos colossais e, algumas vezes, irreversíveis. Isto quando não estivermos falando de crimes cometidos contra pessoas em ambientes tão inóspitos e degradantes quanto negligenciados.

Todo este preâmbulo para que eu lamente, mais uma vez,  a morte de um jovem brasileiro que, aos 27 anos, aparentemente atirou-se do navio em que trabalhava na costa americana próxima ao Alasca.

Conhecemos Jonas Fellipe em um cruzeiro no início de 2014. Era o sujeito mais alegre e divertido dentre os tripulantes de um navio americano. Pessoalmente, estranhava muito sua atividade multitarefas. Era o animador dos bailinhos a noite e, logo pela manhã, era possível encontrá-lo animando brincadeiras na piscina. Também o encontrávamos nos shows noturnos onde se apresentava cantando ou dançando entre outros artistas. Noutros dias, ainda, animava bingos e karaokês.

Foi possível observar esta multiplicação de atividades entre outros funcionários também. Muitos deles encontrei servindo elegantes jantares noturnos para, no dia seguinte, reencontrá-los servindo almoços ou nos balcões de lanches.

Como são oriundos de inúmeras nacionalidades, observei que alguns tinham muita dificuldade para comunicar-se em inglês ou qualquer outra língua que não fossem as deles. Mesmo assim, soube que eram obrigados a aprender a língua-mãe sob pena de perderem o emprego.

Tanto os vínculos afetivos quanto os contatos amistosos eram praticamente abandonados em nome de uma jornada extenuante a que se submetiam sob o desejo de acumularem o suficiente para ajudar a família que, em terra, invariavelmente passava necessidades.

Estes jovens são submetidos a toda sorte de trabalhos com agendas extensivas e desumanamente intensas que não podem ser divulgadas ou denunciadas.

Soube que inúmeros, no entanto, acabavam gastando muito dinheiro não só na utilização da internet, que deles também é cobrada (a preços bastante ‘salgados’), como também no consumo de bebidas e comidas nos desembarques (também muito caras). Fora a excessiva carga horária de trabalho (algumas alcançando 16 horas), soube também da frequente existência de assédio moral praticado pelos ‘superiores’.

Todo este caldo acobertado pelo apelo mentiroso de que o trabalhador teria “comida e moradia de graça além da possibilidade de conhecer – ‘de graça’ – diversos países”.

Jonas sucumbiu à esta poderosa força que o tornou, por muitos anos, um eterno e triste estrangeiro, ainda que distribuísse fartos sorrisos e alegres risadas (que foram os temas mais frequentes na sua timeline pos-mortem).

Reencontrei-o, surpreendentemente, em Kotor, Montenegro, meses antes da sua morte, passeando sozinho pelas vielas da cidade amuralhada. Sentou-se conosco num restaurante e pareceu-me um pouco triste. 

Foi quando, novamente, entendi que por traz dos sorrisos exagerados, com assustadora frequência, escondem-se muitas lágrimas. Prestemos mais atenção nisso.

Como ele próprio registrou em seu último post em vida:

“Acorda cedo, coloca o uniforme, sorri.
Corre de um lado pro outro troca de uniforme, sorri.
Hora do break, come um lanche, fuma um cigarro, sorri.
A noite chega, coloca o terno, sobe no palco, sorri.
O jeito mais fácil de ser feliz é não ter tempo pra ser triste.”

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