NÃO DESVIE O OLHAR

Imagem Movimento Abuso 4

“Eu não vou fazer nada de errado, eu te juro.
Vem aqui, vamos nos conhecer.
Vem aqui, fica aqui do meu lado, no escuro.
Eu prometo cuidar de você.”

In: Pedofilia – de Titãs

 

Jennifer Fox é uma jornalista que, aos 13 anos, foi abusada pelo seu instrutor de equitação, 30 anos mais velho. No entanto, só depois de completar 40 anos de idade foi que conseguiu relembrar os fatos que, de alguma forma, sua memória ocultou sem que ela se desse conta.

A investigação acerca de suas lembranças começou quando sua mãe encontrou uma história que ela havia escrito no ensino médio – uma aparente ficção envolvendo seu relacionamento com o treinador.

Ali, horrorizada, a mãe reconheceu a inequívoca história de um abuso.

No começo, Jennifer não aceitou esta hipótese. Mas passado o impacto inicial, começou a revisitar sua própria biografia até que todo o trauma viesse à tona. Foi quando entendeu que havia algo de sombrio nas lembranças que pareciam pertencer à história de outra pessoa. Mas esta pessoa era ela.

Ela havia sido abusada! E durante muito tempo.

Provavelmente o caráter devastador da experiência lhe tenha obrigado a, inconscientemente, esconder sua verdadeira natureza.

A palavra “vítima” nunca havia lhe passado pela cabeça. Em vez disso, ela havia se convencido de que havia ocorrido uma conexão especial com aquele homem e não um martírio.

A partir de então, compreendeu porque as tragédias de outras mulheres soavam de maneira tão desconfortável quando comparadas àquilo que ela escondia dentro de si como seu ‘jovem romance’.

Foi como se uma luz entrasse em uma parte da sala que ela mantivera escondida numa espécie de penumbra protetora.

Neste momento ela percebeu que as pessoas precisariam estar prontas para ver a verdade sobre o quanto isso é perverso. Que elas não poderiam mais desviar o olhar. Que tinham obrigação de saber deste horror em toda sua dimensão, para realmente entendê-lo e interrompê-lo.

Justamente porque esses homens não carregam a aparência dos monstros que são. Na verdade, até parecem pessoas comuns.

O monstruoso abusador de Jennifer tinha um olhar bondoso e um sorriso afável – tudo, é claro, bem armado dentro de um bem simulado jogo de aparências.

E é por isto que uma família e uma comunidade perdem as pistas dos seus predadores. Justamente porque eles se parecem com pessoas ‘normais’.

Ainda que estejam entre os treinadores de jovens atletas, padres, pastores, líderes religiosos e comunitários, professores, ‘educadores’, vizinhos, parentes próximos. Aliás, próximos demais.

Isto porque, aos 13 anos, o que existe é uma enorme ansiedade de viver, e o adolescente se vê como sendo muito mais capaz e maduro do que realmente é. E o fato de haver algum tipo de dor aparece, para a vítima, como parte da admissão à idade adulta. Seu rito de passagem necessário. Penoso, mas inescapável.

E é exatamente neste ‘fosso’ que o predador se projeta. Ele finge acreditar na maturidade da sua presa e olha para ela de igual para igual. Sem ser.

Este tipo de adulto procura a amizade com uma criança fazendo com que ela se sinta especial, se sinta amada. Quando estas linhas se cruzam com a sexualidade, fica bastante difícil para a criança saber o que está acontecendo. E entender isto na idade adulta é terrível. Extremamente doloroso.

Desta forma, Jennifer escreveu um roteiro que se transformou num filme chamado The Tale (O Conto), exibido pela HBO ainda neste mês https://br.hbomax.tv/movie/TTL713315/O-Conto.

O Conto se propõe a investigar onde o cérebro camufla as memórias infelizes a fim de se proteger da inevitável dor. A narrativa parece entrar em uma sala escura, segurando uma tocha, enquanto busca dar sentido às formas ainda nebulosas que saltam das recordações.

Isto aconteceu e permanece acontecendo com milhões de crianças como a jovem Jennifer, que passam décadas esquivando-se da verdade simplesmente por acreditarem não terem condições de sobreviver a ela.

Mas a boa notícia é que todas as vítimas podem encarar seu passado. O sofrimento é algo que se pode superar, muitas vezes, sem medo.

Importante lembrar que estressores múltiplos dentro do contexto familiar e comunitário da criança, além de atitudes sociais e culturais que envergonham e culpam as vítimas, servem para criar um ambiente no qual a divulgação dos abusos é propositalmente dificultada. 

Outro equívoco é imaginar que revelar o tormento é naturalmente parte do interesse das vítimas. Pesquisas com sobreviventes adultos descobriram que muitos vivenciaram, na infância, apenas a culpa – o que também pode continuar apesar da revelação.

Reações negativas diante das revelações de abuso sexual aumentam significativamente o risco de doença mental e angústia na vítima.

Contar a alguém sobre seu suplício é a melhor forma de se curar deste impacto sofrido e contra o qual você realmente nada pôde fazer. Quebrar o silêncio pode ajudá-la(o) a entender como sua vida foi impactada e influenciada pelo abuso deixando-a(o) livre para aprender um novo caminho a seguir, sem a desumana carga de culpa, vergonha e dor.

Denunciar é fundamental pois pode impedir que uma criança tenha problemas de saúde mental imediatamente ou na vida adulta. Pessoas que sofreram abuso sexual quando crianças correm maior risco de exagerar no uso de substâncias e de sofrerem com problemas alimentares, comportamentais e sexuais. Também estarão mais propensas voltarem a ser abusadas ​​sexualmente quando adultas.

Talvez você tenha uma história parecida. Agora é a hora de contar. Não tenha medo. Estamos aqui para lhe escutar.

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Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “NÃO DESVIE O OLHAR

  1. Impressionante, como a sociedade esta infestada destes predadores inescrupulosos. Temos que estar sempre alertas!! Excelente texto!!!

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