A IRRACIONALIDADE DO ÓDIO

Imagem Movimento Ódio 3

“Essa noite uma bomba vai explodir.
Quem é que vai conseguir dormir?
Essa noite, essa noite, muitos tiros!
Quem é que vai ligar pra isso?

Se acontecer comigo ou com você,
Vamos saber nos programas da TV.
Se a culpa é minha ou é sua
Não faz diferença alguma.

A guerra é aqui, a guerra é aqui!

In: A Guerra é Aqui – de Titãs

 

Muitas vezes o ódio é o visitante inesperado que nos surpreende sem aviso prévio ou alarde e, habitando os mais recônditos esconderijos da nossa morada, ao nos darmos conta, já se encontra em nossas sombras instalado.

Irmão gêmeo da inveja (essa muito mais esperta e dissimulada – pois parece que nem chegou quando já está sorrateiramente indo embora, deixando uma porção de estragos como rastros) e primo em primeiro grau do ciúme, o ódio se esconde dentro de aparentes convicções ou crenças cuja correnteza torna-se, com o tempo, um sentimento tão profundo e poderoso que pode induzir seres humanos, aparentemente sãos e equilibrados, a matar, destruir e arruinar suas vidas e a de seus semelhantes. Diz um verso popular:

“Se os olhos veem com amor, o corvo é branco; se veem com ódio, o cisne é negro”. 

As coisas que as pessoas odeiam nos outros são as mesmas coisas que elas temem dentro de si. É uma clara projeção em que o sujeito projeta num grupo ou numa pessoa-alvo, como em uma tela de cinema, tudo aquilo que não deseja dentro de si. É como se gritasse: “ Eu não sou terrível. Você é que é.

Trata-se de uma forma de parecer bom ‘deslocando’ sua maldade para fora a fim de atacá-la.

Desta forma, ódio segue produzindo desavenças, guerras sangrentas, rivalidades insanas, intolerâncias de todos os tipos e modalidades (contra brancos demais, negros de menos, asiáticos, latinos, homo ou pansexuais, aleijados, mendigos, drogados, gordos, magros, ruivos, altos e baixinhos), preconceitos que alcançam credos e religiões, gostos e aptidões. O ódio mata milhões de inocentes e inaugura a irracionalidade enquanto ‘razão’ baseado na seguinte premissa:

Se você não pensa como eu, não faz o que eu espero ou ordeno que faça; se você não finge que não vê o que eu, na verdade, sou e não percebe o lugar que determinei enquanto seu, então você não pode existir. Não tem o direito de ‘ser’.

O ódio cego cria a fúria colérica. E quem paga a conta são os seres humanos que tentam viver em paz sem depender do suor e do trabalho alheios.

A violência, filha deste ódio, é o resultado de mecanismos profundos e, muitas vezes, inconscientes que, ao exacerbarem fantasias projetivas, alcançam manifestações que desrespeitam os direitos fundamentais de cada um dos seres humanos atingidos.

Desta forma, os ‘outros’ deixam de serem indivíduos com direitos e passam a existir como meros objetos à serviço dos desejos dos que se julgam “mais fortes” (seja pelo uso da força física, econômica, política, etc.). O problema é que estes aproveitam-se de determinadas circunstâncias coletivas para demonstrar, de maneira mais descontrolada, a selvageria como forma de externalizar sua própria e inerente destrutividade.

A irracionalidade opera mais ou menos assim: uma instância interna do sujeito recebe, com profunda ansiedade, um sinal de ameaça vindo da sua pulsão suicida internalizada e, para manter-se vivo, projeta este pavor para o ambiente externo.

Ou seja, ao pressentir o perigo de fazer mal a si próprio, ele passa a desejar aniquilar os que estão próximos. E sua escolha recai sobre os que, de alguma forma, lhe parecem ameaçadores.

Os escolhidos podem ser (dentro da maneira peculiar com a qual ‘enxerga’ os demais): o amigo mais interessante, a amiga mais bonita, o parente mais satisfeito com a vida, o colega de trabalho mais competente, etc. E ainda: os grupos sociais dos quais teme um dia fazer parte, os desfavorecidos, os desvalidos, os ‘diferentes’ ou aqueles que tiveram a coragem de assumir as pulsões que ele nega em si – e neste caso encaixam-se perfeitamente os homofóbicos e demais ‘fóbicos sexuais’.

Quer dizer: para desviar-se da possibilidade de autodestruir o que entende ser sua frágil existência, o indivíduo escolhe dizimar o “outro” negando que tal ameaça parta dele mesmo para se convencer que ela se encontra instalada no mundo externo. E, neste perigoso cenário, nascem os falsos heróis, os líderes insanos e maniqueístas que dividem o mundo entre bons e maus e não admitem discórdias em relação ao que pregam ser “a verdade”. Assim também nasce o nazista, o fanático, o mentiroso contumaz, o enganador, o intimidador, o abusador, o pedófilo, o torturador, o maledicente – todos disfarçados de “pessoas do bem” ou “salvadores da pátria”.

E, então, o perverso cria um clima de intimidação onde busca convencer os incautos de boa-fé de que o mundo também os ameaça e que ele possui a “chave da salvação” – que sabe não existir, a não ser em prol de si próprio e das vantagens que pretende tirar desta manipulação. E se o mundo externo lhe responder às agressões sofridas de maneira severa, sentirá reforçada sua fantasia paranoica e estará estabelecida a lei do “olho por olho, dente por dente”. Nesta altura, o que me ocorre é a lembrança de um precioso ditado:

“O ódio é o veneno que você toma aguardando que o outro morra”.

Portanto, não se engane: viver é uma arte. E nunca se esqueça disso. Logo, viva com (muito) mais amor. Ame sem temor. E afaste de si o maldito cálice de fel.

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Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

 

Um pensamento sobre “A IRRACIONALIDADE DO ÓDIO

  1. A palavra “ódio” por si só, soa de uma forma que nos causa medo. Por isso, menos ódio e mais Amor em nossas vidas. Esse é o lema a ser seguido.

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