SEGREDOS QUE PODEM NOS DESTRUIR (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Sombras 1

 

“A lembrança do silêncio
Daquelas tardes, daquelas tardes.
Da vergonha do espelho,
Naquelas marcas, naquelas marcas.

E eu que tinha apenas 17 anos,
Baixava a minha cabeça pra tudo.
Era assim que as coisas aconteciam.
Era assim que eu via tudo acontecer.”

In: Camila, Camila – de Nenhum de Nós

 

“Minha vida teria sido diferente se eu não tivesse procurado o confessionário naquele dia. Eu tinha 14 anos e era caloura na escola católica. Fui me confessar. Ajoelhei-me e contei àquele padre uma coisa que estava me fazendo sentir muito culpada. Eu fora abusada por um tio quando tinha cinco anos de idade. Ele era pedófilo e abusava sexualmente de mim. O abuso havia parado, mas eu continuava me sentindo responsável por ele. E eu sempre vou me lembrar o que o padre, naquela altura, me disse: ‘Posso olhar você? Qual é o seu nome?’ E eu pensei: ‘Deus! Isto deve ser tão horrível que ele teve de olhar para mim e saber meu nome!

No final da confissão, ele disse: ‘Eu não sei se Deus poderá perdoar isto. Eu terei de rezar mais e depois falar com você.’ Saí arrasada daquele lugar imaginando quão suja e pervertida eu era. Algumas semanas depois, este mesmo padre me chamou para ir até a sala dele. Eu o segui e ele voltou a repetir que o que eu contara era mesmo muito ruim e que ia demorar até haver alguma resposta sobre se Deus poderia me perdoar.

Afirmou que se eu me livrasse desses comportamentos tão pecaminosos e tão ruins, isso abriria um espaço dentro de mim para que Deus me preenchesse com o espírito santo e que, só assim, eu seria perdoada.

As coisas que passou a fazer comigo, a partir daquele momento, ele afirmava serem ‘sacramentadas’, assim como seu sêmen seria a ‘eucaristia’ que eu tinha de receber. Fazia em mim o sinal da cruz com o esperma dizendo que aquilo era sagrado. Também falava que era o espírito santo que eu deveria engolir.

Eu era muito ingênua. Era extremamente inocente. E não fazia ideia do quanto isso era abusivo. Eu achava que aquele homem tinha autoridade, fé, e que estava me ajudando a me tornar uma boa pessoa.

Ele ficava me falando que as coisas que haviam ocorrido na minha infância não haviam sido feitas contra mim, já que eu as tinha provocado.

Depois de umas duas ‘sessões’ com este padre, ele introduziu na sala outro ‘sacerdote’, seu superior, de quem passei a ter muito medo, um verdadeiro horror. Este, desde o começo, me chamava de vadia, rezando em latim sobre mim enquanto ambos me forçavam a fazer coisas com eles. Por vezes, um rezava sobre mim enquanto o outro falava, ‘tome o espírito santo através do pênis dele’.

Desta forma, eu ficava tão encurralada quanto intimidada por aqueles dois homens de porte grande, que eu achava serem poderosos porque representavam Deus.

Na minha cabeça infantil havia o terror de estar naquela sala e, ao mesmo tempo, uma estranha percepção, cultivada por estes dois monstros, de que eu precisava estar ali para me transformar em um ser humano melhor.

Às vezes ele declarava sentir muita raiva de mim porque não me via melhorar. Posso me lembrar, nitidamente, de uma vez em que ele gritava isso enquanto me estuprava e fazia minha cabeça bater na parede, me machucando ainda mais.

Ele parecia muito nervoso com alguma coisa que descontava em mim. Eu não entendia o que poderia fazer porque sempre que aquilo terminava eu pensava: ‘Acho que desta vez Deus me perdoou’ e que eu nunca mais teria de voltar àquele inferno.

Este padre metia muito medo nas pessoas da escola e ninguém queria precisar ir até a sala dele. Só hoje entendo o motivo de ver todas aquelas garotas entrando e saindo do gabinete daquele desgraçado.

Quantas e quantos ele estuprou, destruindo inocências, vidas e histórias?

Naquele lugar, naquela cômodo nojento, tudo acontecia. Não só comigo, mas com inúmeras outras meninas, como ficou comprovado muitos anos depois. De conversas inapropriadas aos estupros. Fazendo ‘exames pélvicos’ nas garotas, que ele chamava de ‘teste para gravidez’. Logo, se envolvia no tratamento ginecológico delas, muitas vezes, com a conivência dos pais, que de nada desconfiavam.

Trazia outros homens para estuprar as meninas diante dele e com seu incentivo. Policiais, outros membros do clero, empresários, políticos e todos os que faziam parte desta rede criminosa que perdurou por muitos anos.

Ele nunca me deu um guardanapo, ele nunca me estendeu um lenço. Ele nunca me permitiu sequer usar o banheiro de sua sala. Apenas me mandava arrumar as roupas e voltar para a sala de aula.

Daí eu ouvia a porta batendo atrás de mim e me esquecia de tudo o que havia acontecido comigo. Muitas vezes eu ficava andando pelo corredor sem saber para que classe eu devia me dirigir, até alguém me acudir e me ajudar a encontrar o lugar.

Com outras garotas, soube que as sessões dele – que supostamente deveriam ser para orientação porque ele era o ‘conselheiro’ da escola – começavam com perguntas pessoais que eram sobre coisas que ninguém queria falar. Depois de forçar ‘confissões’, ele bradava: ‘Você vai ter de ser punida por isto porque é um pecado!’

Então, ser chamada à sua sala era traumático para todas nós. Algumas choravam para não ir. Mas as professoras, algumas freiras, nos orientavam a atender o chamado.

Como ele também era capelão de delegacias e amigo íntimo de vários policiais, fui violentada no sofá da sua sala por um policial com a farda completa.

Houve coisas que relatei dos abusos que meu parente praticava comigo que aquele padre descaradamente reproduziu. Este tio me levava para o fundo do bar que frequentava e ficava na porta do banheiro vigiando enquanto outros homens abusavam de mim. O padre passou a fazer o mesmo, ficando na porta da sua sala e observando enquanto eu era violentada por outros homens de todas as formas. Era como se ele tivesse virado meu ‘protetor’ na minha cabeça infantil e desesperada.

Ele chegou a me mostrar uma arma dizendo que se meu pai soubesse das sacanagens que eu fazia ali ele iria me matar. Reiterava que a vadia era eu.

Todas as meninas abusadas tinham problemas de relacionamento em casa. Mas, convenhamos, quem não os tinha ou tem?

Os abusos que sofri duraram todo o meu período na escola. Até que um dia contei para uma freira mais nova na qual muito confiava e que, logo depois, insinuou que iria denunciá-lo.

Essa freira foi assassinada poucos dias após este episódio.

E foi este mesmo padre que me levou de carro para ver o corpo da freira jogado num barranco, com o rosto coberto de larvas, me ameaçando: ‘Viu o que acontece quando se fala coisas ruins das pessoas?’

Estava tão absolutamente nas mãos daquele miserável, que o abuso se tornou pior do que nunca.

Aprendi que há uma coisa que você faz para sobreviver sem enlouquecer por completo. Você simplesmente não lida com o problema que lhe atravessa. Você passa a não pensar nele, não olhar para ele, não fazer nada exceto reprimir essa memória colocando-a dentro de uma caixa. Você se desassocia, separando-se daquilo que é tão insuportável. A culpa, o medo, tudo para de machucar.

Eu arranquei uma parte minha e ela ficou naquela escola assim que saí de lá. Fui embora sem olhar para trás.

E isto tudo voltou para mim só vinte e sete anos depois!

Casei, tive filhos, formei uma linda família e, um belo dia, encontrei uma pessoa que dizia ter estudado na mesma escola e me perguntou se eu iria a uma reunião de reencontro. Ela parecia muito animada. E eu fiquei muito incomodada sem conseguir entender a razão.

Respondi que não iria e me vi pensando: ‘Porque fiquei tão desconfortável? O que me incomodou tanto naquele convite?’

Foi quando resolvi que necessitava me entregar às orações para acalmar meu coração e entender o que estava acontecendo comigo.

Então, naquela noite, fiquei em silêncio durante horas. E me permiti sentir. E com isto vieram as memórias. E foi como vomitar. Como estar à beira do abismo, um imenso buraco negro, vomitando aquelas lembranças terríveis.

E tudo voltou. E, no fim da avalanche, veio a lembrança de como tudo começou.

Quando fui ao confessionário pela primeira vez em busca de ajuda. Lembrei perfeitamente daquele padre perguntando meu nome e se poderia olhar para o meu rosto. Foi então que me dei conta de que, enquanto ele perguntava detalhes dos abusos sofridos pelo meu tio, ele se masturbava olhando para mim.

Eu parei de ir à igreja e resolvi falar sobre tudo com minha família, meus filhos e meus amigos.

Finalmente eu senti alívio porque descobri que podia lidar com isto. Que eu precisava lidar com os horrores que aquela menina de 14 anos contava para mim.

Ainda que esta garota fosse e continue sendo eu.”

Comentário

Este relato, tão parecido com os que continuamos escutando a todo o momento aqui no Brasil (onde uma estarrecedora porcentagem de abusos sexuais permanece sendo cometida dentro do ambiente escolar), faz parte do depoimento fornecido por Jean Hargadon Wehner, moradora de Baltimore (maior cidade do estado americano de Maryland) que acusou, junto com outras pessoas, o criminoso conhecido como um “respeitável padre”, Joseph Maskell, influente clérigo da arquidiocese local e que nos anos seguintes sumiria do radar, ainda que permanecesse na área, acobertado por seus pares e pulando de paróquia em paróquia enquanto fazia mais vítimas.

Embora Maskell já tenha falecido, ele se manteve na “ativa” por muitos anos e nunca foi processado por nenhum dos seus crimes, apesar de ter sido acusado de cometer inúmeros abusos contra meninos e meninas ao longo dos anos.

A Rede de Sobreviventes dos Abusados ​​por Clérigos (conhecida como SNAP que, fundada em 1989, é um grupo de apoio a sobreviventes de abuso sexual praticado por padres e seus comparsas) relata que os promotores de Baltimore aceitaram averiguar apenas 3 dos 37 padres que foram acusados ​​de abuso sexual desde 1980, de acordo com um artigo do HuffPost.  E destes, só dois foram condenados e uma dessas condenações foi anulada em 2005.

Acusar um padre, pastor ou o que seja, aqui no Brasil ou em qualquer lugar, no final das contas, parece continuar sendo algo difícil de fazer, especialmente quando o sujeito é tão ‘bem relacionado’ como parece ter sido o Monstro Maskell.

O assassinato da freira Catherine Ann Cesnik, que tentou denunciá-lo, continua sem solução.

Você já pensou em quantas pessoas poderemos salvar prestando atenção nos relatos das vítimas? Acreditando nelas? Buscando sinais? Denunciando estes abusadores? Agora? Já?

Pois, como diz hoje Jean, mesmo que ela tenha resolvido gritar ‘Estamos aqui! Tem alguém aí?’ ainda há silêncio. Mas sua luta permanecerá até que uns consigam ouvir os outros e, desta forma, suas vozes consigam chegar até uma fenda. E, antes que se perceba, a pressão dessas vozes passará por ela e terá o poder de fragmentar toda a brutalidade que existe nessas pessoas tão absolutamente desumanizadas. 

A história de Jean está documentada e registrada na série da Netflix The Keepers (Os Guardiões). Imperdível.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para: psicologaheloisalima@gmail.com

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