CORAGEM PARA MUDAR. VOCÊ TEM?

Imagem Movimento Cubos

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos,
Ainda somos os mesmos
E vivemos….
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais.”

In: Como Nossos Pais – de Belchior

 

Em algum momento da sua vida você acreditou que pareceu ter nascido para ser ‘vítima’ de certas pessoas? Que não importa o que faça você continua trombando com os mesmos tipos pela frente? Que só pode ser ‘carma’, falta de sorte’ ou algum tipo de ‘encosto’?

Sou mesmo um (a) azarado(a)! “Quando penso que não, lá estou eu namorando uma pessoa que só me faz mal!

E quando você pensa que está se apaixonando por alguém diferente que, lá adiante, se revela ser igual a todas as pessoas que já passaram por sua vida, como se sente? Que é vítima de algum tipo de azar recorrente ou que precisa encontrar outra explicação para o motivo desse padrão se repetir em sua vida?

Acontece que a maioria das pessoas reiteram os mesmos relacionamentos insatisfatórios porque, não importa quão infelizes possam parecer, eles são aquilo que foram condicionados a aceitar.

Afinal, nossas habilidades interpessoais foram desenvolvidas no ambiente psicológico em que crescemos.

O fato é que na infância nos acostumamos à maneira pela qual fomos tratados em nossas famílias. Mesmo que nossos pais tenham sido amorosos, os momentos sutis ou acidentais em que somos criticados, menosprezados ou abandonados, nos afetavam causando profundas marcas em nossa psique – o que, dependendo de como estas experiências são elaboradas, podem nos deixar sentimentos desfavoráveis ​​em relação a nós mesmos.

Então, por que será que alguns relacionamentos amorosos repetem exatamente modelos absolutamente lesivos que vamos observando no decorrer da nossa infância, adolescência, até alcançar a vida adulta?

A proposta de refletir sobre este tema nasceu justamente desta constatação alcançada depois de muitos anos de clínica em psicologia.

No ambiente terapêutico, a vida conjugal, assim como as desordens familiares envolvendo pais e irmãos, adquire uma importante posição dentro dos conflitos que nos acompanharão pela vida afora.

E do que se nutre esta tendência? Por que nos transformamos em repetições enfadonhas de enredos que comprovadamente não deram certo – no sentido de nos fazer mais felizes? Por que, mesmo assim, teimamos em reprisar experiências fadadas ao insucesso, muitas vezes mantendo relações por toda a vida em nome de demonstrar aos outros que soubemos corrigir os erros observados para fazer “dar certo”?

Talvez, uma pista possa ser antevista naquilo que Freud definiu como uma espécie de processo de escolha do par ideal. Fundamentado na sua vivência do ‘complexo de Édipo’, o homem tenderia a buscar parceiras que fossem desejadas por outros homens reconhecendo, assim, o mesmo sentimento que experimentou quando precisou dividir sua mãe com seu pai. Desta forma, o menino estaria identificando-se de maneira totalmente inconsciente com sua figura paterna. No caso da mulher, o mesmo ocorreria com ela buscando homens que possuíssem características muito semelhantes às do pai refletidas em seus pretendidos.

Isto produziria certa zona de conforto onde tudo seria, de certa forma, imitado sem que houvesse nenhuma necessidade de revisão ou de criação de novos modelos

É nestas relações primárias que construímos as bases do nosso modo de ser e da nossa maneira de ver o outro e o mundo. Nossa afetividade é produzida a partir das nossas experiências mais primitivas. Acreditar que nossos pais ou cuidadores sejam nossas referências mais seguras é um sentimento construtivo, inicialmente. Posteriormente, é preciso que estas relações ofereçam uma atmosfera de liberdade que propicie uma espécie de revisão crítica que, sem dúvida, auxiliará o indivíduo no sentido de criar autonomia de pensamento, propiciando o desejável e saudável desligamento do núcleo familiar em prol da criação de um verdadeiro espaço para ser. Único e exclusivamente seu.

Fora desta perspectiva, as relações parentais estarão fadadas a criar vínculos de dependência cujo resultado produzirá filhos que passarão a vida tentando reeditar os pais nos mais diversos aspectos, seja na profissão, no modo de se relacionar com a vida e de conceber o mundo, ou seja, repisando dores e amores que só trarão infelicidade e frustração.

Pude acompanhar, por muitos anos, filhas de alcoólatras casando-se com homens incríveis que logo se revelam drogadictos e, desta maneira, reiterando o mesmo comportamento de suas mães. Filhos reproduzindo comportamentos machistas dos pais e casando-se com mulheres submissas iguais as mães. Mulheres que só conseguem se relacionar com homens comprometidos e homens que só se atraem por mulheres possessivas. Mulheres encontrando um dependente em cada esquina e homens procurando parceiras manipuladoras por todos os cantos. Sem saber porque faziam e ainda fazem estas estranhas seleções.

Quando perguntados sobre as semelhanças que percebiam entre suas escolhas e as relações que presenciaram no decorrer da vida, prontamente respondiam não haver a menor correspondência.

Porém, com o passar do tempo e frente a possibilidade de ressignificar suas experiências mais íntimas como, por exemplo, a impotência vivenciada diante do sofrimento da mãe subestimada ou do pai humilhado, essas pessoas inevitavelmente encontraram a confirmação de que muitos dos seus afetos foram simplesmente deslocados para nortear suas atuais inclinações.

Conceberam que o amor vivenciado na vida adulta carregava muitos traços daquilo que se entendiam como a “única relação possível” entre seres humanos. Se nossos protetores são assim, então é assim que devemos nos manter, afinal.

É como se a conexão com o mundo e a preservação da identidade pessoal só fosse possível se suas escolhas confirmassem aquelas feitas por nossos pais.

E isto pressupõe, dentro da corrosiva e enlouquecedora “lógica familiar”, que não olhemos para outras opções e não busquemos diferentes alternativas para ser e sentir.

Enfim, os exemplos destas recorrências eram e continuam sendo numerosos o suficiente para que você agora, neste instante, se pergunte se existem facetas da sua vida pessoal onde pode perceber o reforço do exemplo parental. Já havia pensado nisso?  Se não, que tal pensar agora?

Gosto muito da imagem do cordão umbilical. Nela, é notável a dependência visceral existente entre feto e mãe. Uma sensação de complementariedade e preenchimento que nunca mais experimentaremos na vida.

Ora, esta experiência certamente é tão boa e gratificante que, ao sermos lançados para o mundo exterior, choramos nos debatendo desesperadamente para que nos levem de volta àquele lugar seguro e quentinho onde permanecemos abrigados por meses a fio e de onde jamais desejaríamos sair.

A partir desta inevitável separação, passamos a viver uma vigorosa busca deste vínculo exemplar representado por aquela sensação primitiva e maravilhosa da qual sentimos a ausência abissal.

Correndo em busca do amor idealizado, fatalmente esbarraremos em frustrações inexoráveis que só nos levarão à mais decepções e desencantos.

Percebendo nossa singularidade que, forçosamente, nos constituiu de forma muito diferente daqueles que nos criaram (somos distintos, vivemos em outro mundo e podemos testar caminhos diversos), encontraremos pessoas de verdade e, por isto, humanamente falíveis. Diferentes das nossas fantasias, existe existirão seres reais, com suas qualidades, suas tramas e seus defeitos. Gente como a gente.

E daí, quem sabe, longe da precariedade dos amores que teimamos em repercutir, aproveitaremos relações mais prazerosas, raras, leves e muito mais positivamente prazerosas.

Então, tenha coragem de mudar. Porque a felicidade da vida amorosa, necessariamente, passa por aí.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para: psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “CORAGEM PARA MUDAR. VOCÊ TEM?

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s