SOBRE NÃO FINGIR FELICIDADE

Imagem Movimento Felicidade Virtual 1

“Tristeza não tem fim,
Felicidade sim.
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar.
Voa tão leve,
Mas tem a vida breve,
Precisa que haja vento sem parar.”

In: A Felicidade – Vinícius e Tom

 

 

 

Alguma vez você já olhou para as fotos do Facebook de seus amigos e achou que suas vidas eram absolutamente perfeitas? Isto sem mencionar o Instagram e todos aqueles registros incríveis de paisagens surreais, de abraços e sorrisos, de almoços em família acompanhados de hashtags entusiasmadas, dando conta de uma vida sem conflitos e simplesmente maravilhosa, cujos filtros são capazes de esconder não só olheiras e celulites, mas, principalmente, dores, angústias e corações partidos?

Você já percebeu o quanto uma triste bebida solitária depois de uma ruptura amorosa pode, com facilidade, se transformar em uma imagem que remete a uma noite incrivelmente alegre? Ou como a notícia da perda do emprego pode ser repercutida como uma nota feliz?

Praticamente um borrado retrato tragicômico das contradições entre a vida real e a virtual.

O virtual está longe de ser um simples jogo. É mesmo muito sério. Porque pode ser uma espécie de simulação capaz de nos dar a ilusão de que podemos reviver uma vida anterior e perdida. Temos a ilusão de que podemos dissolver o espaço e o tempo no virtual para satisfazer nossos desejos.

O dado tão sistematicamente reiterado de que o Facebook pode se tornar muito deprimente, justamente porque as vidas dos outros sempre aparentam ser melhores que as nossas, parece não convencer, de fato, nenhum de nós.

Afinal de contas, depois de tantos anos de redes sociais, já deveríamos ter compreendido que compartilhar sorrisos não nos deixará mais felizes, assim como imagens de beijos e abraços não nos deixarão menos carentes ou confusos – como nos sentimos na maior parte do tempo.

Por conta disto, começo a pensar que no lugar de compartilharmos fotos de ocasiões aparentemente ‘memoráveis’ a gente bem que podia manter aquela imagem – ao menos ocasionalmente – apenas para nós.

Quando observarmos aquela paisagem de tirar o fôlego ao mesmo tempo em que decidimos se preenchemos nossos olhos e nossa mente com aquela sensação deliciosa ou estendemos a mão para o celular a fim de repassarmos para todos, seria importante pensar que esta decisão tem o poder de nos ajudar a dar um passo em direção à autenticidade. 

Talvez só precisemos recuperar a posse de uma felicidade discreta, resguardada e não exibida.

Sabe por quê?

Porque não tenho mais nenhuma dúvida de que a uma das melhores coisas que podemos fazer é entender a felicidade, assim como outras emoções, não como algo que você obtém, mas algo que você habita.

Da mesma forma que acontece quando você está furioso, jogando um sapato na cabeça de alguém, você não está consciente de seu estado de raiva. Não está pensando: “Estou com raiva. O que estou fazendo não é certo.

Não! Porque, de alguma forma, você está ‘fora de si’. 

Você habita e vive a raiva. Você é a raiva. Até que ela se vá.

Assim como um homem confiante não se pergunta se está confiante ou uma mulher segura não se pergunta se está segura. Eles simplesmente estão.

E isto nos ensina que o encontro com a felicidade não é algo em si, mas uma espécie de efeito colateral da reunião de uma série de experiências de vida que estão em curso. E isto nos confunde, especialmente porque a felicidade é vendida de maneira exagerada (e enganosa) como um objetivo em si. 

Use esta roupa e será feliz! Compre este carro e será feliz! Case-se e será feliz!

Mas não nos é dado comprar felicidade e, pensando bem, nem mesmo alcançá-la. E é assim que devíamos olhar para muitos aspectos de nossa vida.

Você já experimentou pensar que felicidade não é o mesmo que prazer?

Acredito que na procura da felicidade, as pessoas esquecem que, no fundo, estão realmente buscando prazer: uma boa amizade, uma comida gostosa, um sexo prazeroso, desfrutar das melhores companhias, assistir bons filmes no cinema ou na TV, ter mais tempo para ficar quieto, poder fazer uma viagem legal, perder 5 quilos, se tornar mais bonito ou popular e assim por diante.

Mas ainda que o prazer pareça ótimo, ele não é, necessariamente, sinônimo de felicidade. 

O prazer pode estar correlacionado com a felicidade, mas não é o responsável por ela.

Pergunte a um alcoólatra se ter prazer com a bebida o fez feliz ou se um obeso mórbido comendo quatro hambúrgueres de uma só vez sentiu a plenitude da felicidade.

O prazer é um deus falso. 

Porque, decididamente, quem concentra suas energias nos prazeres instantâneos e passageiros acaba se tornando mais emocionalmente instável, ansioso e muito menos feliz a longo prazo. Porque o prazer em si, aquele mais fácil e efêmero, representa uma satisfação muito superficial.

Este prazer é de algum modo aquilo que nos distrai; que nos retira superficialmente da dor e do sofrimento. É uma ilusão. É o que nos é vendido como real e que repercutimos como ‘nossa realidade feliz’ que nos embota. E só.

Afinal, embora necessário, o prazer não é suficiente. Por detrás desta alquimia existe algo muito maior na vida que nos é dada viver.

E não estou aqui defendendo que encontrar felicidade nas coisas da vida significa diminuir as expectativas diante dela. Nada disso.

Porque o medo das “expectativas mais baixas” é vítima da mesma mentalidade que acredita que a felicidade é derivada do que temos exclusivamente fora da gente.

Afinal, a máxima alegria não pode residir no fato de ganharmos muitos cifrões por mês porque isto vai significar que, nos outros meses, nos obrigaremos a lutar para aumentar nosso ganho financeiro. Independente do que conseguirmos construir de significativo e verdadeiro.

Portanto, que tal baixar suas expectativas? Alongar seu processo interno e ir mais longe?

Não olhe para aquilo que não construiu ou para o que ainda deseja alcançar.

Sim. Imagine sucessos impossíveis e, a seguir, saboreie o inevitável fracasso. Dialogue com ele. Aprenda com isto.

Deixe que tudo desmorone. Depois, com calma, recolha todas as pedras e refaça sua casa.

Está tudo bem, acredite. E vai dar tudo certo.

Você pode ser infeliz; você pode sofrer. Porque é através destas vivências que você forjará o novo. Dentro e fora de si.

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3 pensamentos sobre “SOBRE NÃO FINGIR FELICIDADE

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