E QUEM VAI SALVAR AS MULHERES?

IMAGEM MOVIMENTO LÁGRIMAS MULHER

“Nós somos todos,
Todos aflitos,
De um lado os doidos,
Do outros malditos.
Com o fim dos tempos no coração.

 E pelos becos, pelas ruas, pelo mundo,
Andamos sós.
Pelas marés,
Pelos sertões,
Pelas cidades povoadas dessa terra
Andamos sós.”

In: Fim dos Tempos – de Paulo César Pinheiro

 

 

Uma mulher é agredida a cada 11 segundos no Brasil. De 2012 até 2018, o número de mulheres assassinadas por mês saltou de 113 para 372. Hoje, a cada dois minutos morre uma mulher vítima de feminicídio.

Importante registrar que em 1980 este intervalo era de seis horas e meia. A escalada da violência contra a mulher foi, de fato, impressionante.

Nos últimos anos, nove entre dez casos envolvendo este tipo de violência mostram evidências de que as queixas registradas são recebidas, pelas autoridades responsáveis, com flagrante má vontade – na maioria dos casos.

Isto redunda num compreensível desânimo das mulheres em apresentar as denúncias. Outro fator preponderante aponta para a ausência de importância dada aos fatos relatados e a culpabilização das vítimas.

Entre os incontáveis exemplos, há o de uma mulher que quis apresentar queixa de violência doméstica e ouviu: “Não foi tão ruim assim; pense em seus filhos”. Ou o de uma jovem que chegou a registrar uma queixa por estupro e o policial disse a ela que não se tratava de estupro porque ela havia convidado o agressor para sua casa. 

Esses comportamentos têm o efeito de desencorajar as vítimas e aumentar o dano do abuso já sofrido. Essas disfunções desencorajam as vítimas de se queixarem e enviam uma mensagem de impunidade aos agressores.

Mulheres vítimas de violência sexual que são atendidas pelo SUS somam, por ano, 147.691 registros — 405 por dia, ou uma a cada quatro minutos! 

E é preciso considerar que apenas 35% dos casos são reportados à alguma autoridade policial. Logo, 65% das mulheres sequer registram um B.O.

Segundo uma recente pesquisa – “Mulheres Brasileiras nos Espaços Públicos e Privados” – realizada pela Fundação Perseu Abramo, seis entre cada dez brasileiros conhecem uma mulher que foi vítima de violência doméstica.

Machismo (46%) e alcoolismo (31%) são apontados como principais fatores que contribuem para este quadro. Uma em cada cinco mulheres declara já ter sofrido violência por parte de algum homem.  O parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais de 80% dos casos reportados; 40% dos crimes acontecem dentro da casa da própria vítima.

Aparentemente, a Lei Maria da Penha, criada em 2006, não contribuiu muito para que as agressões fossem controladas. Ainda não existem mecanismos eficientes e suficientes para fazer respeitar esta lei.

Persiste, sim, uma cultura patriarcal e machista que continua desqualificando e vitimando a mulher – e isso é inegável.

A violência praticada contra a mulher é uma das expressões do descompasso histórico que existe dentro das relações de poder entre homens e mulheres. A realidade é que a violência, bem longe de ser uma luta pela sobrevivência da espécie, é apreendida, disseminada e praticada pela sociedade como uma forma viável de relação humana. Ou seja: a brutalidade masculina contra a mulher ainda é tolerada como  uma prática aceitável.

As raízes são de natureza tanto social quanto cultural e psicológica. Passam pelos decantados estereótipos sexuais, pela socialização equivocada de hábitos rasteiros frente à condição feminina, pelas falhas nas leis e nos sistemas jurídico e penal, pelo desequilíbrio econômico, pela miséria latente que aprofunda a desumanização e, finalmente, pela aceitação de que ‘em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher‘.

O aspecto mais perturbador é o que dá conta da quantidade de mulheres que reproduzem esta auto-desvalorização submetendo-se a situações de humilhação e sofrimento mesmo quando teriam outras alternativas.

Somando-se à esta tendência auto-destrutiva – geralmente aprendida através dos exemplos advindos do comportamento familiar – a potente agressividade do parceiro, o resultado é o impiedoso e insuportável conflito onde, via de regra, a mulher subjugada serve como válvula de escape para as tensões neuróticas ou psicóticas do “parceiro” que para ela transfere todas as suas raivas e desequilíbrios. Muitas vezes, esse também é o exemplo que o homem traz das suas relações parentais, como uma mãe submissa e um pai frio e opressor.

Pais espancadores, severos ou, simplesmente, indiferentes, também produzem filhos com bastante chance de desenvolverem os mesmos comportamentos.

Muitas pessoas, por questões genéticas (uma parte) ou relacionais (a maioria), acabam por embotar o amadurecimento da habilidade afetiva tornando-se, desta forma, indivíduos despreparados para vivenciar relações saudáveis.

Filhos desamparados, vítimas de brutalidades – que tanto podem ser físicas (as mais aparentes) quanto psicológicas (quase invisíveis) – transformam-se em adultos incapazes de formar vínculos verdadeiros. 

O pai que constantemente destrata a mãe diante dos filhos e a mãe que nada faz para livrar-se desta condição estão, no fundo, ensinando os filhos a perpetuarem este destrutivo modelo como o único possível de ser construído.

Uma criança, diante desta situação, poderá desenvolver atitudes neuróticas (todos nós) ou psicóticas (os doentes).

O grande problema é que dentro de uma sociedade combalida, que incentiva relações doentias, as patologias individuais passam quase que desapercebidas, como se fossem condutas normais. E é preciso que aconteçam grandes tragédias para que algumas pessoas se deem conta da dimensão do problema que logo passa para o terreno dos dramas esquecidos ou desconsiderados no lugar de serem compreendidos como a evidente epidemia que representam.

Outro problema é que na esmagadora maioria dos casos, a imagem pública do violador é a de uma pessoa exemplar, simpática, querida por todos, etc, etc.

Isto se amplifica com a cumplicidade do silêncio familiar e pelo jogo de aparências que reflete publicamente aquilo que, geralmente, é o oposto do que acontece na vida privada do agressor.

Enquanto não denunciarmos cotidianamente estas situações – que se dão na esfera pessoal, emocional, física, sexual, econômica e social – elas se perpetuarão nos sombrios calabouços muitas vezes disfarçados em famílias felizes e exemplares.

A mulher ferida, sob o pesado manto da impunidade pela qual somos todos responsáveis, vai continuar sentindo-se desprotegida e isolada. E assim, com medo, permanecerá calada. O homem agressor, diante da cumplicidade social, se sentirá autorizado a repetir e perpetuar suas atrocidades.

E, então, continuaremos a ser esta sociedade injusta e desigual onde filhos e filhas destes violadores repetirão infinitamente os doentios padrões que lhe são ensinados.

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