NEM SEMPRE É SOBRE AMOR

Imagem Movimento Madrasta 2

“Quero colo! Vou fugir de casa…
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo…
Só vou voltar depois das três.

Você culpa seus pais por tudo,
Isso é absurdo…
São crianças como você.
O que você vai ser
Quando você crescer?”

In: Pais e Filhos – de Legião Urbana

 

As pessoas esperam poder sempre confiar nos pais em tudo aquilo que envolva amor e proteção. Infelizmente, nem todas as relações entre pais e filhos são necessariamente saudáveis. E pode ser muito difícil superar relacionamentos abusivos no âmbito familiar. As feridas sofridas na infância podem ser profundas e indeléveis. No entanto, com determinação, serenidade e autoconhecimento, você pode deixar a dor do seu passado para trás e avançar na direção de uma vida livre de traumas.

Por outro lado, jamais perca de vista que seus pais podem não estar dispostos a admitir o comportamento abusivo. Eles pode nem sequer enxergá-lo ou percebê-lo desta forma.

Logo, entenda que você não pode mudar nada sobre eles. Você pode curar apenas a si mesmo(a).

Para ilustrar a sutil instalação de uma relação assim, conto, a seguir, uma história verdadeira que me foi autorizada reproduzir. 

Luana aprendeu, desde muito cedo, a admirar a brilhante carreira da mãe, reconhecida nacionalmente como uma grande e talentosa atriz. Ainda jovem ela – junto dos irmãos mais novos – frequentava as coxias dos teatros divertindo-se entre cenários, figurinos, luzes e espelhos, correndo entre camarins muitas vezes apertados e com cheiro dos cigarros mal apagados que queimavam até o filtro.

Perdeu a conta das ocasiões em que vestiu as roupas dos personagens, cujos atores passavam o texto, imaginando-se ora donzela, ora madrasta, fada e vilã, misturadas no caldo da sua imaginação infantil que rolava livre por cima dos palcos emprestados.

Por isso ninguém se surpreendeu quando, na escola, passou a fazer parte do grupo de teatro amador ou quando, na universidade, montou seu teatro de repertório que buscava resgatar algumas obras consideradas malditas e que estavam a um passo do esquecimento público.

O antagonismo com sua mãe nascera já na adolescência, justamente quando participou da sua primeira peça teatral, numa companhia amadora, e ela simplesmente negou-se a comparecer à estreia alegando não desejar ver a filha passar por tamanho ‘vexame’.

O mesmo ocorreu com todas as demais manifestações artísticas de Luana: sua mãe negando-se a acompanhá-la ou apoiá-la, de uma forma ou de outra.

E, então, aos quinze anos de idade, dentre brigas, confusões e muito choro, ela resolveu sair de casa para morar com um grupo de amigos do grupo teatral.

Sua mãe, mesmo à distância, nunca aceitou sua opção pela arte amadora e alternativa e exigia-lhe, entre críticas sumárias, cursos de artes cênicas, de dicção e impostação de voz, interpretação e expressão corporal, ainda que não cogitasse pagar nenhum deles e também não oferecesse qualquer tipo de auxílio, fosse ele financeiro ou profissional.

Muito pelo contrário, aliás. Sempre que podia, declarava – em meio às entrevistas que dava – ser esta filha uma pessoa muito ”problemática”, que não aceitava sua ajuda e que não ouvia nenhum dos seus conselhos.

Muito possivelmente por antever a possibilidade de a filha fazer muito sucesso – uma vez que era o que todos previam ao vê-la, já na infância, fazer pequenas pontas em peças e novelas nas quais a mãe atuava – ela, talvez inconscientemente, tudo fizesse para que a jovem desistisse da carreira livrando-se, deste modo, das comparações que inevitavelmente ocorreriam, o que, segundo seu obcecado egocentrismo, seria difícil suportar.

Portanto, não obstante todos em sua volta serem unânimes em atestar seu talento e sua desenvoltura, Luana jamais conseguiu acreditar em suas aptidões porque, desde muito cedo, enxergava a si própria através dos olhos da mãe que era alguém que não a olhava amorosamente.

Daí até vivenciar uma sequência de fracassos foi apenas um minúsculo passo.

Formava grupos inicialmente muito promissores e originais na mesma medida em que nenhum jamais conseguia lograr êxito. Perseguia, feito uma barata tonta, uma glória da qual não se julgava merecedora e, sem perceber, boicotava todas as chances de vitória.

Residia ali, por detrás daquela fachada de autossuficiência, uma menina carente de afeto e de cuidados, que sobrevivera aos trancos e barrancos e apesar dos descuidos da mãe que sempre a abandonara em nome de trabalhar para poder sustentar a ela e aos irmãos.

Uma mãe que não sabia ser mãe, mas que nunca conseguira reconhecer tal fato, teimando em ser o que não podia e em transparecer o que não sentia.

Penso que este seja o ponto primordial quando falamos de mães exercendo uma maternidade para a qual, francamente, nunca estiveram preparadas.

Como tão honestamente confessou a cantora Alanis Morissette, logo depois de ter seu filho, causando furor e uma cínica e insensível reação: “Continuo perplexa com o quão pouco eu estava preparada para o que viria. Como de costume, achava que ia aprender na ocasião pós-parto. Assim, todos os filmes que assisti focaram na direção da experiência do parto em si, e apenas me preparei para ter um ser humano saindo do meu corpo”, disse concluindo que levou muito tempo para pedir ajuda, justamente para evitar os julgamentos que fatalmente viriam.

Certamente é por isto que a depressão pós-parto continua sendo subdiagnosticada e permanece como a inimiga silenciosa que alcança, cada vez mais, e de maneira inexorável, as mães em todas as idades.

A cantora Alanis pode cuidar de sua depressão contando com o apoio de seu parceiro e de uma rede de profissionais da área da saúde que teve condições de manter ao seu lado.

A mãe de Luana, naquela época, certamente não podia contar com muita gente além dos amigos e da própria mãe que, finalmente, foi quem acabou criando seus filhos.

A falta de percepção ou de coragem para buscar os cuidados dos quais tanto necessitava, com certeza fez com que a grande e vaidosa atriz subestimasse os sintomas depressivos e atravessasse toda a doença mascarando-a como a interpretar um mero personagem.

O resultado disto foi que a filha mais parecida com ela tornou-se sua maior opositora e os conflitos entre ambas chegaram a ganhar manchetes de revistas de fofocas e a preencher as lacunas de programas da televisão.

Em uma de suas derradeiras entrevistas a mãe, ao explicar porque a filha mais velha não morava com ela e sequer a visitava há quase vinte anos, declarou que a mesma sempre fora ingrata e que muito provavelmente, por conta de um suposto uso de drogas, estaria mentalmente incapacitada.

E foi diante de tamanha dor que, depois de muito exercício de autoconhecimento, Luana conseguiu realizar claramente dentro de si que a mãe não lhe sonegava amor ou atenção por egoísmo, mas simplesmente porque não possuía tais sentimentos para doar.

À mãe a vida não facilitara criar essas capacidades dentro de si. Mesmo que desejasse, mesmo que lutasse para tanto, não poderia oferecer o que não possuía. Afinal, ninguém pode dar o que não tem assim como ninguém ensina o que não sabe.

Quando Luana finalmente compreendeu esta sua condição, não só a perdoou como também soube se perdoar – ainda que atualmente prefira manter-se afastada, cuidando de sua própria sanidade.

No fim das contas, somos o que somos e o que conseguimos ser com todos os nossos limites humanos. E se aceitarmos este princípio tão simples viveremos com menos dor e muito mais amor que é, no fundo, o que de melhor podemos almejar. Para nós mesmos e para todos os que passam por nossas vidas.

Enfim, nem todas as relações parentais são baseadas no amor porque podem ser, muitas vezes, sustentadas pela dor.

Escreva para: psicologaheloisalima@gmail.com 

E acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

 

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s