A ÍNDIA TAMBÉM SOMOS NÓS

 

Imagem Movimento Índia Mulher

“Passante quase enamorado,
já divinamente afeito
a amar sem ter medo de ser amado,
porque o tempo é traiçoeiro
e tudo lhe é tirado
repentinamente do leito,
malgrado seu querer, malgrado…
Passa?”

In: Lei do Passante – de Cecília Meireles

 

 

Foi com profundo pesar e sincero desalento que li, nesta semana, na sessão Sociedade da revista Marie Claire, o depoimento de uma jornalista brasileira sobre o que resolveu chamar de sua ‘saga’ pessoal para vivenciar a maternidade.

Lembrando que saga é a palavra usada para designar uma lenda ou aventura relacionada a personagens famosos de uma determinada cultura, evidentemente estranhei o fato de a história versar única e exclusivamente sobre as vicissitudes experimentadas na busca de realizar sua intenção de ser mãe, jamais alcançada pelas vias naturais.

A despeito de todas as infrutíferas tentativas de engravidar e dos sete anos de esforços, a parte mais chocante do relato começa exatamente no momento em que ela encontra uma saída para sua dificuldade do outro lado do mundo, num canto do continente asiático.

Ela e o marido, também jornalista, decidem pagar por uma barriga de aluguel na Índia, país tragicamente mergulhado na mais brutal miséria e destruição.

E, no decorrer do texto, não hesita em enaltecer a própria decisão propagandeando valores, facilidades e cuidados dos profissionais em relação aos locatários.

Pagou 25 mil dólares pelo procedimento dos quais apenas 8 mil formam destinados à “mãe de aluguel”, uma indiana de 28 anos que já tem um filho de 5 e que não fala uma palavra em português ou inglês.

Não falta, ao registro, uma passagem digna de bon vivant: a locatária recebeu a notícia de que a fertilização dera certo no decorrer de uma viagem internacional com amigos. Foi também avisada de que seria contemplada com duas crianças. Comemorou com champanhe.

Oito meses depois, dirigiu-se à Índia para acompanhar os últimos dias da gestação e descobriu que as filhas já haviam prematuramente nascido. Descreveu certa ‘irritação’ com o fato.

Alguma informação sobre o estado de saúde física ou mental da jovem contratada? Sobre sua situação familiar? Social? Nada. Sobre ela, apenas uma cínica constatação: “Fez o procedimento pelo dinheiro, e eu a contratei pela barriga. E tudo bem. Ela estava grata por ter sido ‘escolhida’ por nós – há várias mulheres que querem ser barrigas de aluguel, mas nem todas são eleitas.

Outra pérola vem na explicação do motivo que a fez decidir pelo leite materno:

Ela mandava o leite que ordenhava para as meninas. A opção ao leite materno era uma lata importada com pó desidratado, comprada na farmácia. Não podia descartar o que chegava fresco, pelo menos não naqueles primeiros dias, com todo aquele sol da Índia.”

E, candidamente, conclui:

“Não tenho nenhum tipo de problema com o fato de elas não terem nascido de dentro de mim. Me sinto 100% mãe, nem lembro mais que não foram geradas na minha barriga!”

Interessante constatar que o texto é arrematado com uma reveladora foto onde o casal de jornalistas brasileiros (de São Paulo), o jovem casal indiano e seu filho aparecem próximos a uma piscina. Cada mulher segura um bebê. Os locatários estão sorridentes. A “mãe de aluguel” de olhos baixos, seu marido e filho, visivelmente constrangidos, não sorriem.

No entanto, caminhando no sentido oposto e, logo, mais sensível do que o apontado pelos jornalistas-alugadores de barriga, alguns dados podem nos trazer pistas para entender melhor esta situação. E a principal delas é uma constatação: este país, que tantas e incríveis contribuições civilizatórias transmitiu ao ocidente, continua sendo objeto de cobiça e interesses desumanos.

O fato de quase um terço da população mais pobre do planeta encontrar-se na Índia certamente mantém absoluta relação com a escolha do casal. Isto porque o comércio de barrigas de aluguel movimenta mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$3,3 bilhões) por ano. Ali, o preço, como constatou a esperta locatária, é “quatro vezes menos do que nos Estados Unidos”.

Os críticos destas “fábricas de bebês” explicam que a pobreza é o fator que mais influencia a decisão dessas mulheres. Há um estado de necessidade absoluta para a maioria das mulheres (e homens) na Índia. Todos necessitam de comida, abrigo, roupas, escolas, além de todo o tipo de assistência médica.

E isto tudo sem contar as graves denúncias acerca de estupros, agressões e toda sorte de crimes brutais dos quais as indianas diuturnamente são vítimas.

Não obstante a mão de obra ali ser muito barata ela também é muito produtiva e inteligente, com alto grau de cultura – assim como na China, que sempre resistiu ao avanço do colonialismo inglês desde o início. Coisa que a Índia não conseguiu.

E a Índia não foi sempre como é hoje. Era uma sociedade desenvolvida, criativa e seu povo vivia de sua própria produção. O sucesso de seu modo de vida pode ser aferido pelo seu intenso crescimento populacional: depois da China, é o país mais populoso do mundo.

É uma civilização com aproximadamente 5.300 anos. Já seu colonizador e atual dominador, o império britânico, tem apenas 400 anos de existência.

A catástrofe que levou o país do budismo e da condição de civilização florescente, sem escalas, para o abismo de miséria e fome dos dias de hoje, começou em 1858 quando em suas terras aportou a “mui amiga” Companhia Inglesa das Índias Orientais, nome fantasia que o império britânico utilizou para disfarçar a sua natureza de lobo em pele de cordeiro. Por ser militarmente frágil, o velho sábio sucumbiu à força do jovem e ardiloso inglês.

O sistema hierárquico de autogestão por castas, que constituía a coluna vertebral da soberania nacional hindu, cedeu lugar à administração inglesa na figura do “bwana” vice rei, o governador colonial que vinha de Londres para reinar em nome de sua majestade.

Apesar de tudo, foi e continua sendo um país extremamente rico do ponto de vista cultural.

Segundo o estudioso e matemático Luciano Lima, é inegável que a Índia, junto com China, a Mesopotâmia e o Egito, constitui a mais vigorosa fonte da humanidade. O modo de produção destes países era baseado na produção de comunidade, ou seja, a partir da cultura por ela criada. É, também, praticamente o berço da matemática – título indevidamente atribuído à Grécia que, na verdade, ligava a Ásia à Europa e, desta forma, levava o conhecimento asiático para a Europa transformando-o, em pouco tempo, em propriedade privada.

E, por conta disto, foi que se estruturou a ideia do conhecimento enquanto base do poder.

Ainda hoje na Índia, a matemática permanece como a base da comunidade. Os maiores pensadores matemáticos foram e ainda são os indianos. Não é à toa que é entre eles que são recrutados os melhores quadros para as mais famosas universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Há casos de adolescentes e jovens indianos analfabetos que são levados para Harvard, Cambridge, Oxford, porque possuem um pensamento lógico-matemático altamente desenvolvido. Na Índia a matemática é muito mais uma prática mental que escrita. Conversam e interagem pensando de maneira “matemática”. 

Foi a civilização indiana que criou os fundamentos da matemática moderna como o sistema numérico atual, o cálculo algorítmico, a trigonometria, etc.

Isto desvenda porque todos os meses milhares de indianos deixam suas tribos do Himalaia e vilas de pescadores costeiros para buscar, nas cidades maiores, trabalho outsourcing (terceirização de processos) que inclui atendimento ao cliente, vendas e qualquer outra coisa que as corporações estrangeiras necessitem. Em outras palavras, o país tornou-se, também, a nação do telemarketing.

Por conta da sua enorme capacidade intelectiva, aprendem idiomas rapidamente e com o sotaque desejado. Para tanto, são proibidos de falar o idioma hindi nos locais de trabalho e obrigados a adquirir nomes e atitudes ocidentais.

Ganham cerca de 20.000 rúpias por mês, US$ 2 por hora ou US$ 5.000 por ano. Isto se durarem muito tempo no emprego, o que não acontece com a maioria.

Em um país onde a renda per capita anual é de cerca de US$ 900, este salário se qualifica como de classe média.

Logo, torna-se fácil entender porque US$8 mil para alugar uma parte do próprio corpo por 9 meses seja algo tão vital e concebível para essas pessoas.

Difícil é entender como um ser humano ocidental aceita e utiliza-se disto sem nenhum tipo de crítica ou compaixão.

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