BASTA DE VIOLÊNCIA!

Imagem Movimento Abuso 3

“A mulher de dentro de cada um não quer mais silêncio.
A mulher de dentro de mim cansou de pretexto.
A mulher de dentro de casa fugiu do seu texto.

A mulher de dentro de cada um não quer mais incesto.
A mulher de dentro de mim já cansou desse tempo.
A mulher de dentro da jaula prendeu seu carrasco.”

In: Dentro de Cada Um – de Elza Soares

 

 

Por incrível que pareça, ainda existem pessoas (homens, na esmagadora maioria) que têm coragem para pregar abertamente que mulheres, vítimas de violência sexual, são responsáveis pelas atrocidades e covardias que sofrem. 

A gente chama estes tipos de “seres humanos”?

Alguns delegados encarregados pela condução dos primeiros depoimentos se permitem o cinismo (ou seria perversidade?) suficiente para perguntar às vítimas se elas costumavam participar de ‘sexo grupal’ ou coisas parecidas. 

O que este tipo de ‘abordagem’ releva é um doentio ambiente em que o estupro é prevalente e no qual a violência sexual contra a mulher é normalizada tanto na mídia quanto na cultura popular. 

Trata-se de um comportamento perpetuado através do uso da linguagem misógina, da objetificação do corpo das mulheres e do glamour da violência sexual, criando assim uma sociedade que desconsidera os direitos e a segurança das mulheres.

Esta ‘concepção’ do papel da mulher na sociedade afeta todas as mulheres. O estupro de uma mulher representa a degradação, o terror e a destruição dos direitos de TODAS as mulheres. A maioria delas acaba limitando seu comportamento por causa da existência de estupro. A maioria das mulheres e meninas vive com medo de estupro. Homens, em geral, não. É assim que o estupro funciona como um meio poderoso pelo qual toda a população feminina é mantida em posição subordinada a toda a população masculina, embora muitos homens não estuprem e muitas mulheres nunca sejam vítimas de estupro. Este ciclo de medo é o legado da Cultura do Estupro.

A história a seguir é verdadeira e me foi autorizada contar.

Ana Luíza foi estuprada aos 18 anos de idade. No estacionamento de sua faculdade, no exato momento em que colocava a chave para abrir a porta, dois homens a agarraram e a arrastaram para uma mata próxima onde, com uma arma na cabeça, foi violentada de todas as formas. Da mesma maneira como tantas outras, ela entrou em seu carro e, apavorada, voltou para casa em silêncio, passou a noite embaixo do chuveiro vomitando e chorando enquanto sua família dormia nos quartos ao lado.

Só não conseguiu esconder o fato – como havia resolvido – porque a mãe percebeu, logo cedo, suas escoriações e seu choro descontrolado. Imediatamente juntou a família e foram até a primeira delegacia encontrada. Isso ocorreu há mais de 20 anos. Precisou suportar os olhares desconfiados de policiais e delegados e passou pelo exame de corpo de delito vexatório enquanto seu noivo era avisado. Todos os que lhe atenderam eram homens.

Por ter se somado a outros casos, no mesmo local registrado, os criminosos, três semanas depois, foram capturados. Haviam feito mais de 20 vítimas em poucos meses apesar de só existirem cinco boletins de ocorrência.

A vida de Ana Luíza, no entanto, jamais foi a mesma. Deixou a faculdade por absoluta ausência de coragem para enfrentar o mesmo local por mais três anos, seu noivo terminou o noivado alegando falta de amor, muito embora ela tenha entendido que, de alguma forma, ele sempre a culparia por estar naquele lugar e, ainda, por trajar um vestido no dia. Entendera também que ele nunca mais a olharia da mesma forma, como se ela tivesse sido maculada por vontade própria e, para Ana, aquele olhar que ele passara a lhe dirigir seria, para sempre, uma faca apontada para o seu coração permanentemente partido.

Talvez por conta disto, ela e a família combinaram esconder de todos os demais familiares e amigos a trágica ocorrência. Como se ela pudesse ser responsabilizada por algo, passaram a viver como se “aquilo” jamais houvesse ocorrido.

E, então, Ana desenvolveu comportamentos compatíveis com a síndrome de pânico, experimentou episódios de bulimia que a levou a anorexia nervosa e, cinco anos depois, foi diagnosticada com câncer do colo de útero que a levou a posteriormente retirar o órgão.

Chegou à terapia pelas mãos do atual namorado, estudante de psicologia, porque este homem a olhou de verdade. E não a abandonou porque entendia que a tragédia por ela vivida precisava ser olhada de frente, sem medos e isenta de culpas ou responsabilidades.

Hoje Ana Luíza participa de um coletivo feminino centrado exatamente nas questões que se referem à violência de gênero. Fala abertamente da selvageria que viveu e identifica, sem temores, os culpados com clareza e coragem.

A cada ONZE SEGUNDOS uma mulher sofre algum tipo de violência neste país.

E estes são dados oficiais. Não consideram os casos em que as vítimas morrem ou, se sobrevivem, não contam o crime para ninguém – ou porque conhecem seu agressor (parentes, amigos e conhecidos) ou porque são seus parceiros (permanentes ou eventuais) ou, ainda, porque temem pela própria vida e pela de seus familiares. Consta que apenas 35% dos casos reais são reportados como crimes.

Muitas mulheres escondem seu martírio, principalmente, porque tem consciência de que sua acusação poderá redundar em mais violência contra si, fora os julgamentos e comentários maldosos que se tornarão seu segundo suplício.

Ademais, carregarão a amarga sensação de que poderiam ter evitado a agressão se: tivessem mantido distância; vestissem-se de outra forma; falassem outras coisas; comportassem-se de outra maneira; percebessem o perigo eminente; etc; etc.

Só para lembrar: a ONU ‘alerta’ que UMA EM CADA CINCO MULHERES se tornará vítima de estupro ou de tentativa de estupro durante a vida.

Pois bem. Vale, então, anotar em letras garrafais o que vou registrar:

Nada ou ninguém será capaz de impedir um criminoso de praticar qualquer barbaridade que já tenha premeditado se a sociedade fornecer espaço para tanto. A única coisa capaz de coibir este tipo de ação será a consciência coletiva (alcançando todos os gêneros) de que a cultura do estupro existe – de fato – sem que, muitas vezes, as pessoas sequer se deem conta de que a praticam a todo momento. Seja condenando a vítima, seja se alienando da experiência como se fosse algo totalmente ‘fora de si’. Conceber tal selvageria como algo ‘fora da normalidade’ é negar a responsabilidade social que nos cabe ao carregarmos esta violência potencial dentro de nossas próprias e cotidianas vivências.

Por detrás de quem ataca a mulher martirizada – duvidando de sua versão, colocando sob suspeita seus hábitos e suas condutas ou, ainda, defendendo o violador – encontra-se um estuprador em potencial.

Pois muitas mulheres que ouvi, ainda que anos depois de sofrerem tais violências, permanecem enfrentando a síndrome conhecida como estresse pós-traumático. Várias necessitam serem acompanhadas a todos os lugares, inclusive banheiros, e não conseguem trabalhar e nem sair de casa sozinhas. Preocupam-se de maneira neurotizada com as roupas que usam questionando-se sempre se não estão passando uma impressão errada.

Também relatam que, quando decidem denunciar, durante os depoimentos e/ou julgamentos, sentem-se julgadas por questões do tipo: Por que estava naquele lugar? Por que não fugiu de lá? Que roupas usava? Sentia atração pelo(s) acusado(s)? Costumava praticar sexo violento ou grupal?

Mesmo as evidências apresentadas por DNA, reconhecidas como prova fulminante, parecem indiferentes tanto para o estuprador quanto para os detratores das vítimas uma vez que estes seguem, muitas vezes, desqualificando-as e humilhando-as.

Falta ainda muito para que a sociedade brasileira trate de maneira correta as mulheres que são vítimas destas monstruosidades. Todos os dias. Muitas vezes. Não existem mais desculpas para que estes crimes continuem acontecendo de forma impune na enorme maioria dos casos.

E repita, sem pestanejar:

Basta de violência contra mulheres neste país!

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

 

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