A ARTE DE SE DEIXAR AJUDAR (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Tranças

“Palavras, palavras, palavras.
Desde quando sorrir é ser feliz?

Cantar nunca foi só de alegria,
Com tempo ruim
Todo mundo também dá bom dia!”

In: Palavras – de Gonzaguinha

 

 

 

“Você já notou que quando está perto de alguém que está chateado, você sente a mesma chateação também? Ou que quando alguém está com raiva, você começa a tremer enquanto tenta controlar a própria irritação? 

Um dos problemas deste tipo de sensibilidade revelou, em mim, uma capacidade de estar bem consciente dos sentimentos das outras pessoas e de responder a essas sensações com empatia e compaixão. Mas também passou a ser um desafio terrível e penoso, quando não só percebia os afetos dos outros, mas os assumia como meus.

No meu caso, pra piorar, eu dominava a arte de cuidar de mim mesma desde os 13 anos de idade, quando perdi minha mãe. Foi quando meu pai e irmão me transformaram na ‘gata borralheira’ da família e passei a ser a ‘mãe’ deles, cuidando de todos os problemas do ‘lar’.

Logo, aos 18 anos tinha meu próprio carro cujo pneu eu conseguia trocar sozinha, sabia cozinhar, mantinha um equilibro impressionante nas minhas finanças e cuidava da casa de maneira primorosa. Eu podia sobreviver no deserto, caminhar por uma trilha inóspita sem perder o rumo ou facilmente encontrar meu caminho através de uma cidade desconhecida.

Eu acreditava tanto que podia dar conta de tudo, que era forte, apaixonada e autossuficiente, que jamais compreendi a razão pela qual me tornava uma criança frágil e chorosa assim que uma pessoa amável e preocupada se aproximava de mim.

Assim, quando me casei com Alexandre, sabia que tipo de homem ele era.

Forte, generoso e muito gentil. Mas também, e de muitas maneiras, meu completo oposto. Hoje tenho certeza de ter acreditado que, em algum momento, eu poderia transformá-lo em uma pessoa mais parecida comigo.

Ele nunca escondeu o que esperava de mim: o mesmo que todos os homens da minha vida até então. Em troca, achou que me ‘oferecendo’ um lar e três filhos homens dos quais também tive que cuidar, eu seria uma mulher realizada e feliz.

Evidentemente não fui. E continuo não sendo.

Havia dias em que eu me sentia bem com tudo. Mesmo assim, não conseguia esconder nem de mim, que passava tempo demais aceitando o fato de que as consultas médicas, as limpezas dos dentes, os pagamentos de contas, o planejamento das refeições e os arranjos com os cuidado das crianças fossem sustentados firmemente pelos meus ombros. 

Era quando pensava: ‘E qual o problema, afinal? Você sempre foi uma ótima organizadora, uma planejadora impecável’. E eu garantia a mim mesma: ‘Você não se sentiria confortável em não estar no controle, de qualquer maneira. Então, apenas relaxe.’

Contudo, havia os dias em que eu, finalmente, concebia estar cansada, muito exausta mesmo. 

E foi num desses dias que concebi, pela primeira, que eu gostaria de ser a pessoa que precisava e deveria ser cuidada.

Afinal, eu sonhava sobre como seria ter meu marido focado em mim. Ficava quase envergonhada em admitir isso porque suspeitava ser a única mulher que se sentia assim.  Sonhava acordada que um dia despertaria com um beijo gentil, com cobertores ao redor dos meus ombros e um sussurro: ‘Hoje você fica na cama. Eu cuido de tudo’.

Fantasiava em viver um dia inteiro tendo alguém que me perguntasse o que eu queria comer ou o que podia fazer para que eu me sentisse mais feliz. Um dia em que alguém pensasse em cada uma de minhas necessidades, à frente de mim, antecipando o que eu quisesse antes mesmo que eu pudesse expressar qualquer anseio.

Do mesmo modo como fazia todos os dias com todos os membros da minha família, sem que ninguém demonstrasse perceber. Sem que ninguém prestasse atenção em mim.

E, cada dia mais, me pegava perguntando: quem era aquele homem com quem compartilhava minha vida? Um homem que enxerga através de mim, se esquecendo de quem eu realmente era, além de não perceber que eu podia se melhor que aquilo e que queria muito mais do que o que eu tinha?

A verdade inegável é que há algo de muito errado com a maneira que eu vejo a possibilidade de ser cuidada.

Talvez eu tenha sempre associado qualquer tipo de cuidado a uma espécie de estigma. Cuidadores, para mim, administram a saúde e a segurança de crianças, idosos e adultos mentalmente, ou fisicamente, incapacitados. 

Logicamente, isso significa que, se eu necessitar da ajuda de outra pessoa, algo de muito errado estará ocorrendo comigo. 

O que ainda falta nesta minha ‘crença’ é entender que precisar e permitir são duas coisas muito diferentes. 

É assim que ainda vivo. E não sei o que fazer.”

COMENTÁRIO:

Ninguém pode ajudá-lo(a) se você não demonstrar que tem uma dificuldade. 

Basta comunicarmos para que os outros possam corresponder. Parece fácil, certo? 

Mas apenas parece.

Lembre-se que, na maior parte do tempo, quando nos perguntam como estamos, dizemos, sem pensar: ‘Tudo ótimo! E você?’

Ora. Ninguém vai notar que você está realmente vivendo um aperto se você não expressar isto claramente. Com todas as letras. Caso contrário, ninguém poderá lhe oferecer ajuda.

Temos que nos comunicar para que os outros tenham a oportunidade de nos ajudar. Isso pressupõe que deixemos os outros se aproximarem de nós. E esta parece ser a real questão, na maioria dos casos.

Portanto, peça e aceite ajuda porque, quando você não a pede, você não oferece aos outros a oportunidade de retribuir da melhor maneira que puder. A não ser que seu medo seja justamente este. Já pensou nesta possibilidade?

Como bem descreveu nossa leitora acima,  muitos acham quase impossível pedir qualquer coisa sem sentir que está ocupando espaço, tempo ou recursos que não lhe competem.  Ou seja, sentindo que não tem direito de receber algo.

Nada vem do nada e quem quer apoio, tem que se abrir primeiro a fim de permiti-lo. 

Se algum amigo, parente conhecido, vizinho, ou seja lá quem for, possuir condições para suportar o ‘fardo’ de ouvir nossas preocupações a fim de estar perto da gente, ele pode e deve decidir, por si mesmo, sobre sua capacidade para tanto.

Não cabe a você protegê-lo de você. Parece loucura, não? Mas é assim mesmo que muitos se comportam. Defendendo os outros de si.

No máximo, pergunte-se: Por que estou tentando decidir pelos outros? Por que acredito que os sobrecarrego com o meu desconforto? Será que quero mesmo estar perto dos meus amigos só quando eles precisam de mim? Por outro lado, eu não desejaria apenas que eles se comunicassem comigo e me dessem a oportunidade de auxiliá-los?

Mesmo que chegue num ponto em que, precisando de ajuda, alguns deles desapareçam, como num passe de mágica (aliás, já vi MUITO disto acontecendo por aqui e acolá), este ainda será, sem dúvida alguma, um momento muito importante. Você poderá, por fim, mudar muitas coisas na sua vida a partir de então. Vai descobrir que precisa dizer adeus a muita gente. E diga logo, sem medos.

Importante também lembrar que somente confiando em nós mesmos é que encontramos condições de pedir e encontrar consolo e cuidado.

Agora, pense um pouquinho. Você faz a mesma coisa? Você também tende a querer fazer tudo sozinho(a) porque não quer ser um fardo para ninguém?

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4 pensamentos sobre “A ARTE DE SE DEIXAR AJUDAR (DEPOIMENTO)

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