ENTÃO, VAMOS BRIGAR?

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“Brigo eu,
Você briga também,
Por coisas tão banais…
E o amor
Em momentos assim,
Morre um pouquinho mais.
E ao morrer
Então é que se vê,
Que quem morreu
Fui eu e foi você,
Pois sem amor
Estamos sós,
Morremos nós.”

In: Brigas – de Evaldo Gouveia e Jair Amorim

Há muito tempo, num reino distante, um homem e uma mulher viviam uma linda história de amor. Encontravam-se no início, de fato, muito apaixonados. E este estado de puro embevecimento, que já durava alguns meses, impedia que quaisquer contratempos os pudessem alcançar naquele maravilhoso espaço que denominaram como o seu paraíso particular.

Apesar disso, e a despeito do fato de parecer que se davam tão bem, as sogras, os tios, os primos, os irmãos e os atentos vizinhos, apostavam na derrocada daquela relação. Supunham que as incontornáveis diferenças, que percebiam entre eles existir, se tornariam insustentáveis antes de completarem o primeiro aniversário de casamento.

Assim passaram-se os dias e acumularam-se tempos silenciosos demais.

E eles permaneciam ali, supostamente intactos e felizes, ainda que seus memoráveis e calorosos rompantes de amor minguassem a cada dia. Percebiam que não mais abraçavam-se ou beijavam-se com a mesma intensidade e entrega de outrora e, muito menos, a cada pequeno reencontro.

No início, num mínimo descuido, lá estava um fazendo cócegas no outro, brincando de imitar, rindo sem conseguir parar, olhando-se como se ainda não se reconhecessem direito – enquanto persistia o entusiasmo e o prazer. Enquanto sentiam-se felizes e inspirados para tanto.

Quando faltava uma semana para completarem o primeiro ano de união, e depois dos muitos bons momentos que pareciam viver com alegria, lealdade e paixão, João – esse era o nome do homem – chegou em casa mais tarde do que o de costume.

Maria – a mulher – estranhou o fato, mas nada indagou. Serviu o jantar mais lentamente do que o normal e sentou-se na frente do marido sem uma palavra pronunciar.

O homem, aparentando um certo cansaço, concentrou-se na refeição e, repassando mentalmente toda a sua agenda do dia seguinte, nada comentou. A mulher, contrafeita, subiu para o quarto sem arrumar a louça na pia – como apreciava fazer – e, estranhamente, escolheu uma camisola desbotada e rota com a qual deitou-se na cama e dormiu.

Algo ali acabara de se romper. Sem nenhum grito. Sem suspiro algum. Sem ruído.

Deste dia em diante, sem que alguém buscasse entender o motivo, todas as refeições entre eles mergulharam no abismo do silêncio sepulcral e, logo depois, na mais absoluta e indisfarçada apatia.

Maria passou a não se importar mais com os atrasos nem com o constante mal humor de João. Este, por sua vez, também não escondia a falta de vontade de voltar para casa assim como de conversar sobre a vida dos dois. Maria trabalhava como professora e João como corretor.

Nunca mais nada foi igual.

No começo tudo era poesia. Depois veio a agonia.

E ninguém quis tocar na ferida que se abrira. Aqueles meses de silêncio criaram um espaço, antes desconhecido, que cada um tratou de ocupar com o que conseguia captar.

Depois, começaram a brigar todos os dias.

Primeiro de maneira morna, quase sutil. Pequenas provocações acompanhadas de “não foi isso o que eu disse” ou “você entendeu tudo errado” até que todas as manifestações passaram a ser acompanhadas por palavras bruscas e, finalmente, por agressões.

Um foi enxergando no outro o seu avesso e chegou o dia em que contemplaram-se, assustados, como se fosse a primeira vez.

O desassossego causado por aquele inédito olhar se misturou instantaneamente ao caldeirão repleto de bem servidas porções de raivas contidas, rancores ocultos, desconfianças mútuas, humores clandestinos e sentimentos confusos que povoavam seus pensamentos há tempo demais.

Olharam-se como velhos forasteiros advindos de longínquos e inóspitos lugares. De repente, nada mais tinham para oferecer ao outro. Nenhuma tigela de tolerância, nenhuma pequena taça de amizade, nenhuma réstia de um mísero, e agora inexistente, amor.

E, desta forma triste e inesperada, separaram-se sem jamais alcançarem a compreensão do que os teria levado até ali porque, afinal, nunca entenderam que o silêncio instalado entre eles tornou-se pernicioso e brutal.

Porque o casal que não aprende a brigar a boa briga está fadado a repetir as irrelevantes e tolas discussões cotidianas que, muitas vezes, se arrastam por anos a fio sem que produzam nada de bom além de amarguras, rancores e doenças letais.

Brigas repetitivas e vazias costumam serem sustentadas até o momento em que todos desistem de reencontrar o fio da meada que inicialmente os uniu e decidem, tacitamente, aparentar aquilo que não mais sentem.

Outros optam pela separação cabal porque acreditam que não há mais nada que os nutra enquanto casal.

Mas, afinal, pode uma briga de casal se tornar um jeito saudável de transformar (para melhor) uma relação?

Ora, se você deseja realmente ficar com esta pessoa que escolheu (ontem, há seis meses ou há 35 anos atrás), vai precisar remexer num bocado de preconceitos, premissas equivocadas, crenças inúteis, além de se dispor a arriscar uma parcela bem considerável desta aparente segurança que todos adoramos representar.

Então, vamos aceitar que João e Maria separaram-se porque simplesmente não souberam conversar e brigar a boa briga que só quem está disposto a amar de verdade pode enfrentar.

Deixaram de aproveitar a intimidade inicialmente conquistada pelo medo de perder a aventura amorosa inicial, desprovida de conflitos, que desejavam eternizar.

Guimarães Rosa disse que que a felicidade reside justamente nos breves momentos de distração. Portanto, ela não é perene. Vem intercalada de momentos frios e nublados. Mas, também, com alguma paciência e muita perseverança, é possível saborear os tons maravilhosos e vibrantes que a vida pode oferecer.

Se João e Maria tivessem acolhido a vulnerabilidade da existência humana teriam entendido porque é que uma pérola nasce da ‘ferida’ imposta por um grão de areia que invade o interior da ostra: a dor é o único caminho capaz de nos amadurecer de verdade.

E, desta forma, teriam percebido que era preciso ouvir as coisas que não estavam sendo claramente expressadas. Afinal, muitas verdades só conseguem ser ditas nos ‘intervalos’ das palavras ou através da discreta modulação da voz. Ou, ainda, a partir de um simples olhar.

Só mesmo quem presta muita atenção ao que não é formalmente expresso, deixando o coração pressentir o que existe nos vácuos e nos silêncios, é capaz de apreender as verdadeiras emoções.

Basta prestar atenção e querer ver. Além, é claro, de estar bem perto para enxergar.

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