A MORTE QUE A VIDA PRECISA PREPARAR

Imagem Movimento Aves Voando

“O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo,
A vida é o fio do tempo,
A morte é o fim do novelo.

O olhar que assusta
Anda morto,
O olhar que avisa
Anda aceso.”

In: Desenredo – de Dori Caymmi

DEDICADO À ANDRÉA FRANÇA, NOSSA INCRÍVEL E QUERIDA GUERREIRA

Correu mundo a recente notícia sobre o cientista, botânico e ecologista australiano, de 104 anos de idade, David Goodall, que precisou viajar até a Suíça, onde as leis permitiram que ele terminasse com sua vida legalmente –  e ainda que não fosse portador de qualquer doença terminal.

Sua justificativa foi a de que sua vivência deixara de ser agradável ‘cinco ou dez anos atrás’ quando a qualidade dela se deteriorou demais, fazendo com que a atual condição não lhe permitisse sentimentos de felicidade. Além disso, afirmou que sua única grande tristeza residia no fato de não poder deliberar acerca disto em seu próprio país, mesmo que envolvendo seu sincero desejo de optar pelo ‘suicídio assistido’.

E foi o que ele fez.

Em suas últimas horas, Goodall desfrutou de seu jantar favorito: peixe com batatas fritas e cheesecake. E em seus minutos finais, escutou a Nona Sinfonia de Beethoven, mais conhecida por seu último movimento, Ode à Alegria, tendo falecido logo após o término desta peça musical.

Os membros da família estiveram com ele até o fim e, para cessar sua existência, Goodall precisou girar uma roda que permitiu que uma infusão letal fluísse em sua corrente sanguínea através de uma cânula presa ao seu braço. Isto depois de responder perguntas que confirmavam que ele sabia quem era, onde estava e o que estava prestes a fazer, às quais respondeu com grande clareza.

Na verdade, suas últimas palavras foram: ‘Isso está demorando muito tempo!

Morte Assistida, onde os pacientes tomam a decisão e a ação final para abreviar suas vidas, é legal apenas no Canadá, Holanda, Luxemburgo, Suíça e partes dos EUA.

Na outra ponta da questão encontram-se os indivíduos que, apesar de todo o suplício e todas as indicações e anseios, não conseguem sequer morrer tendo garantida sua integridade física ou moral.

Não existe, no Brasil, qualquer tipo de estudo que revele o número de pessoas que passam seus últimos dias e horas de vida sofrendo e se angustiando por não receberem os cuidados de que precisam, além de serem obrigadas a enfrentar profissionais despreparados que não sabem como tratá-las e que não têm ideia de como se comunicarem com elas ou com seus amigos e parentes.

Como defensora do desenvolvimento urgente de práticas relacionadas aos tão necessários cuidados paliativos diante da morte, passei a acompanhar casos de pessoas com doenças terminais nos últimos anos.

Desta forma, observei experiências acerca do tema que, nos últimos dias, infelizmente, tenho também vivenciado de maneira mais próxima e pessoal, no acompanhamento de uma jovem e muito querida amiga.

Às vezes parece que apenas uma pequena sombra daquele ser permanece ali presente. Outras vezes, sinto tão claramente a expressão de sua personalidade que me parece que algo muito substancial continua persistindo em sobreviver.

Uma senhora que estava morrendo me disse, num instante de consciência: “Dois terços de mim já estão lá: minha alma e meu espírito. Só meu corpo ainda está aqui.” Ela faleceu no dia seguinte.

Percebo medo de se falar na morte por todos os lados. E muito sofrimento diante deste silêncio.

A ideia de saber que a pessoa logo, logo não estará mais viva e ao nosso lado é, sem dúvida, muito opressiva. Podemos, sim, descrever tais períodos como de profunda tristeza. Mas esses últimos instantes são sempre sublimes, grandes e comoventes.

Devido à sua intensidade, eles são apenas comparáveis ​​a um nascimento. É um presente poder estar lá. Acompanhar um ser nesta passagem – por mais difícil que possa parecer.

Pude claramente constatar que no mesmo minuto da morte ocorre uma mudança instantânea na aparência daquele semblante. É como se de repente, tudo ficasse mais tranquilo e em paz. Existe, definitivamente, uma expressão de relaxamento que não está ligada simplesmente ao fato dos músculos estarem relaxados, nem nada disso. É uma transformação que vai além da aparência física e que parece alcançar um sentido mais amplo, eu diria. Como se fosse a mais pura e vital energia ali se despedindo.

E não importa muito a idade de quem está morrendo, mas como este alguém caminhou pela vida. Uma adolescente, por exemplo, comunicou à sua mãe, poucos dias antes de morrer, que sempre concebera que sua vida não seria longa. Mas que seria profunda. Exatamente como foi.

Mas há também os jovens de 95 anos que consideram muito difícil abandonar a vida, deixando-se ir. Parecem gritar:  “Por que eu? Por que agora?

Na minha experiência, vi que as pessoas que têm maior dificuldade de aceitar a própria finitude são justamente aquelas que não se realizaram de forma independente do que os demais esperavam. Sempre mantiveram tudo sob controle. Os “benfeitores”, os que cuidam de todos e de tudo e os que nunca deixam nada por fazer, são alguns deles.

São os que brigam (nunca por si mesmos), lutam e se reprimem até o final de seus dias. E, finalmente, isto envolverá brigar contra seu próprio destino. E sua mortalidade.

Desta maneira, compreendi que quem aceita a morte, vive a vida – e o desfecho desta – de maneira muito mais serena.

E ainda que algumas pessoas desejem deliberadamente morrer sozinhas – e isso não é tão raro – para outras permanece a impressão de que aguardam mais tempo do que o ‘necessário’, como se este fosse um último cuidado em relação aos futuros ‘enlutados’. Principalmente se a separação for particularmente difícil. Muitas vezes, se os membros da família disserem: “Você pode ir agora“, a pessoa que está morrendo não precisa se sentir mais tão responsável por sua partida.

Existem pessoas que não temem morrer. Estas são exatamente as que possuem o dom para confortar as que sofrem com tal fato.

Eu, também, procuro não temer a morte. E penso que esta escolha me ajuda a falar sobre ela de uma maneira mais amena. Ainda que sofra. Ainda que machuque ver alguém tão jovem e promissor, como a minha amiga, indo embora.

Hoje posso garantir que as pessoas podem, sim, morrer em paz e com muita dignidade. 

Por outro lado, e muito honestamente, não acho que todos nos encontraremos novamente no céu. Penso que, na morte, a consciência do ego se extingue da mesma forma como não existia antes do nascimento e, assim, fechará o círculo da vida.

Mas sou absolutamente capaz de respeitar e ver sentido nas demais concepções. Entendo que existam muitos fenômenos para os quais jamais encontrei respostas – e, mesmo não as tendo buscado, posso aceitar sinceramente cada uma que se apresente sem qualquer julgamento e com meu coração em paz.

Portanto, quando não há cura para pessoas gravemente doentes e elas têm apenas a possibilidade de uma vida precária e curta, a medicina paliativa deveria estar estruturada para entrar em ação imediatamente, cuidando da sua comodidade, do ouvir e do falar, tão fundamentais quanto a vida que se estingue.

Tal aplicação, com certeza, aliviaria o desconforto e melhoraria a qualidade de vida do paciente durante esta fase, oferecendo uma morte digna. Médicos, psicólogos e voluntários: TODOS deveriam trabalhar juntos na busca deste sentido.

Medicina paliativa é uma disciplina jovem ao redor do mundo. Muitos países começaram a desenvolvê-la de maneira séria e organizada. No Brasil, no entanto, ainda não é reconhecida enquanto especialidade e esta ausência de reconhecimento implica em dificuldades neste tipo de cuidado, assim como na formação de equipes apropriadas.

Saber morrer não é menos essencial do que saber viver. 

Durante seu primeiro contato com o austríaco Max Schur, que logo se tornaria seu médico pessoal, o médico e psicanalista Sigmund Freud lhe falou as seguintes palavras: “Prometa-me uma coisa: que, quando chegar a hora, você não vai me deixar sofrer desnecessariamente“.

Onze anos depois, acometido pelo câncer e sem perspectiva de cura, Freud relembrou este compromisso ao seu médico: “você se lembra da nossa primeira conversa onde me prometeu não desistir quando minha hora chegasse?

Desta forma, Freud deixou a existência inundada de sofrimento e dor, através de sua própria decisão e de olhos abertos, bem antes de ser tomado pelo sentimento de insignificância pessoal quando se tornaria (ou se consideraria) um fardo para sua família ou para a equipe que dele cuidaria.

Importante lembrar que a dignidade não é simplesmente um estado, mas uma relação social que não tolera a menor hesitação entre a autoestima e a confirmação conferida por outros. É o resultado da simetria dentro das relações interpessoais. Não há nada de justo ou humano num estado indigno, especialmente quando se trata de doentes ou moribundos. Há, sobretudo, olhares desumanamente indignados, que julgam e proferem palavras duras de aborrecimento ou indiferença.

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