TODOS PRECISAMOS DE AJUDA (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Cais

“Cada um, cada qual,
Resgatar o júbilo.
Resistir, ser plural,
Repartir o acúmulo.

Convergir no olhar
Nosso brio e fúria.
Conceber, conservar,
Aguerrida entrega.”

In: Da Entrega – O Teatro Mágico

 

 

“Há alguns meses, e pela primeira vez na minha vida, me permiti pedir ajuda. Eu não queria. Eu não acreditava sequer que podia.

Como todo bom introvertido, sempre que eu me sentia por baixo, as chances de pedir auxílio desapareciam e, então, eu passava a ajudar todos que encontrava pela frente.

Hoje sei que esta era a minha forma desesperada de esconder minha angústia e de pedir atenção a fim de conseguir um pouco do amor que eu tanto necessitava. Era como seu eu gritasse: Olha para mim! Sou eu quem precisa de ajuda!

Filho do meio entre dois irmãos, desde cedo idealizei que cabia a mim o ingrato papel de mediador. Minha irmã mais velha era a aventureira que viajava pelo mundo e pouco se importava com a gente. Meu irmão mais novo se metia em todas as confusões possíveis e só nos trazia preocupações. Não cuidava nem de si, imagina dos meus pais que, depois de um tempo, resolveram se divorciar

Restava eu. E não tive nenhuma outra escolha. Ou melhor: me convenci de que não havia outra saída para mim.

Passei a acreditar que não possuía o menor direito de sobrecarregar ninguém, fosse da minha família ou dentre meus amigos.

Demorei muito pra descobrir que se alguém tivesse realmente me olhado de verdade, eu poderia ter confiado o suficiente para me deixar ser socorrido. E me livrar da enorme solidão na qual me meti.

Mas, no lugar disto, segui acreditando que ninguém se importava. E que eu, para sempre, estaria por minha conta e risco.

Todas as vezes em que pensava em buscar algum tipo de apoio, uma voz dentro da minha cabeça repetia que eu estava sendo egoísta e que ninguém ajudaria uma pessoa tão ‘egocêntrica’ assim. A voz me convenceu que jamais seria compreendido e que, caso insistisse, eu seria julgado duramente, ridicularizado e rejeitado. 

Ela me advertia, sobretudo, de que eu testemunharia meu pior temor: o silêncio da indiferença. Aquela mesma indiferença que eu desesperadamente tentava evitar que sentissem perto de mim.

Me convenci de que eu não era digno. Que era um farsa. Que eu não contava. 

Eu simplesmente não era ninguém.

Essa voz nunca parou de falar. Nunca vacilou na sua condenação. Por muito tempo lutei com o medo, além da vergonha, de me sentir fraco e derrotado.

Foi sempre muito difícil me observar objetivamente. Tornei-me um enigma do qual nem sequer sabia onde procurar a resposta. 

Todos nós edificamos nossas personalidades através das muitas mentiras que vamos reproduzindo vida afora. Algumas inventadas e repetidas pelos nossos pais. Outras, ensinadas pela nossa cultura. Algumas são deliberadas, outras são apenas o fio das realidades que tecemos a nossa volta.

Se você ouve uma vez que é capaz de dar conta de tudo, que não existe pessoa tão forte quanto você, você passa a ter medo de ouvir tal ‘profecia’ novamente. 

Evidentemente porque existe um grande tom de rejeição nessas palavras. Ora, se você teme que seus problemas e preocupações sejam menosprezados, ficará mais relutante em confessá-los e fará tudo para escondê-los.

Também tinha pavor do julgamento alheio, especialmente quando necessitava de ajuda com algo que me fazia sentir envergonhado ou culpado. Se carecia de dinheiro emprestado, jamais o pedia. Se precisasse que alguém fosse até uma farmácia me comprar um remédio, permanecia doente.

Quem quer se sentir como se estivesse sobrecarregando alguém? Eu não tolerava a ideia de levar uma carga imerecida para a vida de outra pessoa. Muitos introvertidos e pessoas altamente sensíveis têm dificuldades imensas em ser o centro de alguma atenção. Nem que esta seja ínfima.

E a realidade é que eu já vivia duras experiências de dependência de outras pessoas em relação a mim e talvez esta seja a explicação para a minha dificuldade de me socorrer nos outros – mesmo quando isto parecia inevitável.

Eu não suportava pensar em ser como os dependentes de mim. Os folgados. Os acomodados. Os sem noção que me sobrecarregavam sem nenhum pudor.

Afinal, eu era o filho que dera “certo”. O que nunca teve problemas na escola. O que nem sequer experimentara drogas. O que namorava meninas legais. O que encontrara um ótimo emprego – o oposto dos meus irmãos que viviam desempregados.

Eu dizia para mim mesmo que possuía mais facilidade em comparação aos outros e você não faz ideia de como foi fácil convencer-me de que meus problemas eram irrisórios e que eu só precisava me superar para lidar com eles. 

Passei a primeira metade da minha vida sendo prático, bondoso, literal e realista. Com tudo sob controle. Pelo menos era assim que eu enxergava. 

Mas vivia com medo, dor e cheio de tristeza. Faminto pelo amor que eu não podia encontrar nem por dentro, muito menos por fora.

Foi quando me descobri com um câncer devastador. Daí, parei e pensei foda-se! enquanto aguardava a inevitável decepção. Eu esperei pelo abandono quando a náusea subiu pela minha garganta ao mesmo tempo em que gritei: Socorro! Estou doente! Tenho medo de morrer! Preciso de ajuda!

Então me vi diante do conflito de escolher entre o que eu acreditava ser e o que eu era de verdade: um ser humano falível como todos os outros.

Minha autoconfiança pela primeira vez desmoronou e, concebendo-me mortal, percebi que a base na qual eu construíra minha vida estava trincada.

Compreendi, finalmente, que apesar da teimosia de acreditar que daria conta de lutar sozinho por tanto tempo, eu não era capaz de enfrentar mais nada solitariamente.  Ninguém jamais deveria sentir-se tão sozinho como eu era. 

Mas a maravilhosa surpresa, a revelação incrível que eu tive, foi ver que, um a um, a família, os amigos e até os estranhos vieram me estender a mão. 

E, nessa ação, eles silenciosamente me disseram: Aqui. Pega. Eu vou ajudar a te levantar.

As pessoas se importaram. Surpreendentemente, pra minha cabeça, elas desejaram me ajudar. Bastou eu pedir.”

COMENTÁRIO:

Muitos de nós acreditamos que a reciprocidade, no lugar de ser uma qualidade, pode ser uma prisão. Carregamos uma espécie de perspectiva de economia enraizada desde a infância. Muita interação humana é baseada no conceito do ‘toma lá, dá cá’, ou seja, você faz isso por mim e eu farei isso por você. Então, quando se trata de pedir ajuda, podemos ter medo do que imaginamos que será esperado de nós em troca, especialmente se estamos num momento em que não nos sentimos aptos a oferecer algo.

Por outro lado, você se sente compelido a devolver o ‘favor’ com um pensamento tolo do tipo: ‘não quero nada de graça’. Mesmo se a outra pessoa não quiser ou esperar nada seu. Isso pode parecer degradante ou paternalista para você, o que o fará se sentir preso a uma ‘dívida’ impagável, sem que isto seja uma realidade.

Ao mesmo tempo, muito reclamam, em terapia, do ‘medo de perder o controle’. Talvez lidar com as coisas de maneira solitária seja um ‘jeito’ de manter o controle. Você pode temer perder este controle se pedir ajuda. Ou você pode temer o potencial desconforto caso alguém o coloque sob seus cuidados, lhe oferecendo soluções e conselhos. Logo você, tão independente? E como você comunica isto ao outro, sem que pareça a rejeição que você tanto teme? Veja que aqui trata-se única e exclusivamente do SEU medo de rejeição sendo projetado no outro

Além disto tudo, persiste em cada ser humano uma triste crença na autossuficiência que, por si só, é quase desumanizadora, além de cruel.

Talvez você tenha sido educado e sutilmente (ou não tão sutilmente) condicionado a acreditar que pedir ajuda é um sinal de fraqueza. Talvez você tenha crescido dando uma exagerada importância ao orgulho e ao fato de ser resiliente, autoconfiante e autônomo.

Talvez você tenha experimentado coisas que sinalizaram que é muito difícil confiar nos outros. Ou você tenha se sentido decepcionado por quem achou que podia ajudá-lo.

Acredito, enfim, que muitos que foram oprimidos pelo potencial de drenagem de energia daqueles que sugam sem limites, passaram a considerar que toda a qualidade de ajuda se insere neste conceito esmagador.

Como começamos a pedir ajuda?

Primeiro, precisamos permitir que as outras pessoas nos ajudem. Independente de qualquer pré-conceito nosso.

Seja direto. Pergunte em termos claros e específicos e peça às pessoas certas. Confie menos nas pessoas óbvias

Se você já ajudou alguém com alguma coisa, sabe do que estou falando. Esta prática gera uma sensação fundamental e saudável para nossa sobrevivência. 

Não pedir ajuda significa negar todos esses benefícios advindos das pessoas que se importam com você e querem ajudá-lo. Por que você seria tão limitado?

Pedir ajuda, obter ajuda, oferecer ajuda e oferecê-la quando necessário, são todas as formas pelas quais nos conectamos e permanecemos conectados uns aos outros enquanto seres humanos. Quer estejamos alcançando uma outra pessoa ou milhares através de algo, essa conexão está lá. É preciosa. E vale muito mais do que qualquer orgulho que tenhamos de não precisar disso.

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