CÂNCER E DEPRESSÃO

Imagem Movimento Transformação

 

“Onde hoje é tarja preta
Lia-se frase otimista
E nela se acreditava
Do cético ao humanista.
A ela todos se davam,
Amor de primeira vista.
Onde ontem era frase
Hoje é uma tarja na vista.”

In: Tarja Cravada – de Sérgio Ricardo

 

 

 

Antes de qualquer coisa, é muito importante lembrar que, há muito tempo, a detecção de câncer NÃO É uma sentença de morte.

Primeiro,é preciso aceitar este diagnóstico como parte da história física e emocional da pessoa acometida. Depois, entender que a doença tornou-se um componente dela. Uma parte do todo.

E preste muita atenção: uma parte não é o todo!

É um dado que devemos acolher serenamente até que estejamos preparados para fazer a pergunta crucial:

Para que veio? Qual o sentido em minha vida neste momento?

 Nesta fase, no entanto, tanto os pacientes quanto os familiares  passam a se sentir incapazes de enfrentar a realidade. Um dele me contou certa vez:

A realidade da morte não é a sua negação. Enquanto você negá-la veementemente você não vai conseguir sentir o conforto que é compartilhar os medos e as ansiedades. Você sente falta da experiência do bem-estar que surge quando recebe os cuidados daqueles que você ama. Muitas vezes me pegava perguntando: ‘Por que eu?’ Perguntava isto todas as vezes que sentia raiva. As vezes sentia horror do médico, dos meus familiares, dos meus amigos, de todos e de cada um, sem qualquer motivo. Agora sei que esta era uma reação normal. E perfeitamente humana. Mas até alcançar este entendimento, passei muito tempo me martirizando pela culpa que sentia. Quando fui capaz de reconhecer e compreender a minha raiva, pude me despedir dela. Compreender as razões da minha irritação me ajudou a falar sobre os meus sentimentos com minha família e amigos.”

Então você começa a perceber que não existe uma resposta para a pergunta: ‘Por que eu?’ se você substitui-la por: ‘E por que não eu?’

Muitos estudos vêm demonstrando que fatores psicológicos podem afetar o sistema imunológico ainda que isto nem sempre signifique que os mesmos fatores possam levar à cura das doenças.

Uma das questões recorrentes acerca da depressão é se devemos ou não considerá-la um fator de risco para o câncer.

No geral, as pessoas depressivas não produzem mais cânceres que as demais. Da mesma forma, o papel de eventos estressantes, como a morte de um filho, uma separação conjugal, a perda do emprego, etc.

Alguns pacientes experimentam a doença como uma injustiça. Ou tendem a superestimar o lugar das vicissitudes da vida ou do seu sofrimento psicológico na gênese dela. Outros apenas se resignam com o resultado e desistem de lutar.

Embora a depressão não seja necessariamente um fator de risco para o desenvolvimento de câncer, este postulado precisa ser qualificado pois sabemos que o depressivo crônico que sente uma tristeza recorrente, uma perda de interesse ou de capacidade de sentir prazer, uma fatigabilidade anormal, durante vários anos, está duas vezes mais propenso a ter câncer do que a pessoa não depressiva ou cuja depressão é apenas transitória.

Outro fator de vulnerabilidade conhecido são as drogas – todas elas, incluindo cigarros e bebidas. Parece bastante razoável afirmar que a depressão num fumante agrava significativamente o risco dele desenvolver câncer, uma vez que a ela reforça o poder carcinogênico das substâncias tóxicas contidas no cigarro ou promove a inalação de concentrações mais altas desses mesmos produtos.

Quanto ao prognóstico, os trabalhos científicos são concordantes: estar deprimido prediz uma evolução menos favorável.

Evidentemente, a depressão não se traduz em mais uma fraqueza de caráter, e precisa ser entendida como um modo particular de reação diante de uma situação de vida muito estressante. Tal sofrimento deve ser bem identificado e os pacientes encorajados a queixarem-se abertamente, sem medo de serem mal julgados.

Banalizar a depressão sob o pretexto de que parece ‘normal’ estar deprimido sofrendo com o câncer, seria um duplo erro, principalmente porque existem meios para aliviar esse mal-estar já que uma depressão detectada a tempo, e tratada corretamente, tem bastante chance de pesar favoravelmente no prognóstico do câncer.

Logo, a combinação de um transtorno depressivo com uma doença física grave como o câncer, pode tornar a identificação e o necessário tratamento da depressão mais difícil. Seus sintomas podem ser subestimados e atribuídos à doença ‘principal’.

A verdade é que respeitados especialistas concordam que a atitude do paciente pode desempenhar um papel extremamente importante no tratamento do câncer. Logo, uma “postura positiva” pode ser uma ferramenta muito útil na luta contra a doença.

Outro aspecto que precisa se considerado é que uma porcentagem significativa de pacientes ou já estava com depressão ou entrou nela logo depois de constatada a enfermidade.

Ela, desta forma, se transforma em dupla penalização porque produz desânimo, tristeza, cansaço, entre outras emoções. Muitas vezes esses sentimentos são frequentes e normais quando se referem a pessoas que sofrem de câncer.

Mas, lembre-se: é comum achar “normal” uma pessoa doente ficar muito triste. Esta visão dificulta a identificação da gravidade de elementos, tais como percepção de culpa, isolamento, perda de prazer, queda de energia vital, etc. Mas, muitas vezes, esta é a forma de ignorar os sintomas-chave de uma depressão clínica que precisa ser tratada independente das eventuais comorbidades (associação com outras doenças).

O médico ou o terapeuta podem identificar e orientar aqueles que mostrem sinais de abatimento exagerado, prostração, melancolia exacerbada. A importância do tratamento de uma síndrome depressiva é capaz de prevenir que a doença progrida para a depressão crônica ou profunda.

Medicamentos também são essenciais e, para isto, os pacientes devem ser atendidos rapidamente.

Grupos de apoio podem (e muito) ajudar as pessoas nesta difícil jornada. Psicoterapias e aconselhamento psicológico também.

Em muitos casos, como terapeuta, sinto que grande parte dos pacientes demonstra enorme dificuldade de expressar suas angústias e seus medos.

Alguns, de fato, comportam-se como se fossem uma espécie de âncora familiar que não pode ‘falhar’ e, desta forma, nunca aprenderam a se deixar cuidar. Em outras palavras: não sabem que também podem ser cuidados pelos demais.

Desta maneira, cabe a todos aqueles que realmente se importam com estas pessoas perceberem esta falta e cuidar para que sofram menos com ela.

Vários estudos encontraram uma ligação clara entre o humor e a sobrevivência do paciente. A observação de mulheres que tiveram câncer de mama tem mostrado que aquelas que não perderam a esperança e não conceberam tudo com excessiva seriedade tem muito mais chances de sobreviverem bem em relação àquelas que consideraram sua situação desesperadora.

No Brasil, a professora universitária e enfermeira Maria Helena Costa Amorim realizou uma pesquisa para o Instituto Nacional do Câncer que revelou que as mulheres com câncer de mama que enfrentam a doença com mais otimismo e alegria produzem uma substância no sangue que faz aumentar as células que destroem as outras células tumorais.

Tanto o bom humor quanto o sorriso e a risada são importantes formas de se superar a pressão do estresse e das dificuldades cotidianas. Trata-se de uma constatação universal que independe de cultura, idade e gênero.

Procurar uma bibliografia ou uma filmografia alto astral tem sido um dos meus melhores ‘conselhos’. Afastar-se de conflitos, de temas e discussões espinhosas,  assim como procurar não acompanhar debates ou telejornais, outro.

Conviver com crianças e animais. Jogar-se no chão com eles, rir de bobagens sem se preocupar com julgamentos. Contar e ouvir piadas – mesmo as mais sem graça. Baixar aqueles filmes toscos no Youtube, Netflix ou Pop Corn, mas que nos fazem rir até hoje: Deu a Louca no Mundo, Um Convidado Bem Trapalhão, Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!, A Vida de Brian, O Âncora, Harry e Sally – feitos um para o outro, Tootsie, O Feitiço do Tempo, Trocando as Bolas, As Loucuras de Dick e Jane, Hitch: O Conselheiro Amoroso, Eu os Declaro Marido e… Larry, etc.

E levar às últimas consequências aquela máxima que muito nos ensina: rir é o melhor remédio!

Então…. ria!!!!

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