CHEGADAS E PARTIDAS

Imagem Movimento Luzes Girando 2

“Mande notícias do mundo de lá,
Diz quem fica.
Me dê um abraço venha me apertar,
Tô chegando.

A hora do encontro
É também, despedida.
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar.”

In: Encontros e Despedidas – de Milton Nascimento

 

Assistindo a alguns dos programas capitaneados por uma conhecida jornalista carioca, e cujo nome é o mesmo que batiza este post, percebi o quanto um tipo atroz de sofrimento humano pode ser escancarado diante da gente sem que consigamos nos dar conta do seu significado.

Os episódios costumam apresentar histórias bastante tristes que vão desde o jovem casal que, junto com o filho, parte para o Canadá em busca de alguma perspectiva de emprego, enquanto todos os que ficam no saguão choram muito, passando pelo engenheiro agrônomo que precisa ir para Angola a fim de ajudar a sustentar a família que permanece no Brasil.

Ou, ainda, o mergulhador que trabalha três meses na África contra os 28 dias que permanece de ‘férias’ em São Paulo e que só suporta tamanho suplício por causa do salário tão necessário. Assim como o casal de sírios que aqui reside há dois anos e que aguarda os pais que o vêm visitar. Deixaram tudo lá. Moram aqui sozinhos. E, ainda, a mulher cujo marido trabalha no Japão há 10 anos porque por aqui ficou quatro anos sem conseguir emprego. A filha de 21 anos tem depressão profunda e, para não perdê-la para o suicídio, ele resolveu voltar.

Os filhos geralmente são os que mais sofrem com estas separações. E a citada série vive de mostrar isto sem propor qualquer tipo de reflexão crítica.

Como em relação à mulher que mora na Turquia por ter se casado com um turco – que, posteriormente, precisou trabalhar no Canadá – e cujas duas filhas, de 7 e 11 anos, padecem com toda sorte de humilhação por conta de serem cristãs numa sociedade de maioria muçulmana.

Todas as histórias parecem nos falar da profunda solidão cultural que se traduz na mais absoluta sensação de isolamento.

Naturalmente, a solidão não é um problema para todos aqueles que escolheram morar em outro país. Mas ela atinge milhões de pessoas que estão em exílio forçado dentro de sociedades que não são nada benevolentes com elas.

A desterro dos expatriados é muito particular. Porque, obviamente, estes se encontram perdidos em um novo oceano cultural, fascinante, mas profundamente desestabilizador. Sentem-se perdidos de si mesmos e de suas raízes, percebendo que os limites de sua identidade são mais porosos do que pensavam.

Quem sou eu, então, se eu também posso ser aquele outro que eu não sabia? 

Tomados pela corrida cotidiana para adaptarem-se, experimentarem o que lhes é estranho e sobreviverem à intensidade desta dura experiência, esquecem-se de todas as pequenas dificuldades que conseguem superar cotidianamente. Como as pequenas coisas que lhes causaram fortes emoções e com as quais não tiveram tempo de lidar. Desta forma, vivem para sentirem-se derrotados.

Solidão cultural significa entender que a ‘anomalia’ ali é aquela representada pelo ‘forasteiro’ e por sua maneira de fazer as coisas, ou seja, tudo o que era culturalmente confortável para ele, já não é eficaz em seu novo ambiente. Não há descanso possível. Nenhuma pausa na adaptação cultural, exceto para aqueles que têm uma comunidade ao seu redor (chave preciosa para uma imigração bem-sucedida) com a qual se pode recarregar as energias vitais a fim de se sentir totalmente integrado, ao menos, por algumas horas do dia.

O imigrante vivencia um estar sozinho mais dolorosamente intenso do que em todas as situações que poderiam envolver este estar fora de casa. E seria mais fácil se este planeta fosse habitado apenas por seres humanos – e sem os desumanizados. O fato de não poder explicar isso para aqueles que o cercam reforça muito essa reclusão.

Afinal, todos nos tornamos diferentes em ambos os lados. Não há refúgio possível. Estamos nus neste imenso e implacável mundo.

A culpa do ausente.

A grande maioria dos expatriados e viajantes que percorrem longas distâncias acaba por admitir que sente-se culpada por não ter lutado para permanecer onde estava, uma vez que sua família (pais, avós, irmãos, irmãs, além dos amigos próximos), em muitos casos, permaneceu no país de origem. Muitos partem pouco tempo antes de saber que sua família foi dizimada e sua comunidade destruída.

Importante lembrar que em tempos de traumas nacionais, de guerras provocadas pela ganância de poucos, o chamado espírito patriótico e a dor do exílio são brutalmente relembrados.

E é suficiente um evento acontecer no exterior para que a culpa se torne um fardo insuportável. Muitos emigrantes optam por retornar ou fazer uma pausa após a morte de um ente querido, o surgimento de uma doença ou uma separação na família, enquanto estavam longe.

Os “riscos da vida” já são difíceis de serem superados quando se está no local, mas a distância e a impotência que eles sentem provocam traumas, muitas vezes, insuperáveis. E, desta forma, podem transbordar até eclipsar a vida.

Esses retornos definitivos ou temporários, por “motivos familiares” ou não, às vezes tornam-se um verdadeiro alívio, às vezes uma dificuldade adicional para superar quando aqueles ao seu redor se ressentem porque estavam distantes. Estas são situações complexas e difíceis para todos os expatriados, mesmo que tudo esteja bem. Os anos passam e o fato de estar longe inevitavelmente levará à dor e à angústia definitivas. Como me contou um imigrante:

“Somente o amor por minha vida aqui, pelo que vivo aqui, pelo que faço aqui e pelas pessoas que gostam de mim, é que me permitem permanecer em pé.”

A expatriação é um questionamento perpétuo sobre o dever de ficar ou voltar, independente das condições de sobrevivência real. Assim, o imigrante mergulha em sua vida cotidiana onde geralmente não se sente identificado.

Exaustão e medo do fracasso.

O medo do fracasso e o sentimento de vergonha que acompanha um possível retorno prematuro ao país de origem faz com que muitos expatriados acabem se destruindo no exterior. Quando lutam “contra todas as probabilidades”, a pressão é ainda mais forte.

A propaganda desumana que denigre os projetos de migração tende a aumentar os riscos de esgotamento da pessoa no exterior: sem apoio e com a impressão de que se deve “ter sucesso ou morrer”, não importa como se aniquilará para cumprir tal propósito.

Logo, o retorno é visto como uma saída, mas também como um fracasso diante do desafio.

Os mais teimosos e orgulhosos (e, portanto, os mais jovens) às vezes chegam ao fim de si mesmos, colocando em risco a própria vida, para mostrar que sua experiência não é um fracasso. Que eles são autônomos. Que eles podem ter sucesso em outro lugar. Que eles estavam certos.

Há também culturas e profissões que tendem a serem frustradas mais rapidamente do que outras, sem mencionar a energia investida na própria adaptação cultural. A maioria dos países oferece ‘opções de trabalho’ muito duras e ingratas, fora dos padrões de tudo o que o imigrante conhecia.

Todas essas dificuldades constituem a parte maior da experiência no exterior, e da qual ninguém fala antes da partida ou mesmo depois do retorno. Trata-se de uma espécie de segredo cruel que continua sendo acobertado por muitos países.

O retorno é difícil, especialmente porque essas dificuldades não são admitidas nem compreendidas pelo resto da população, e não há espaço para elas serem expressadas.

O sofrimento experimentado e, depois, escondido, pode assombrar os ex-expatriados para sempre, onde quer que estejam.

Temos que acabar, de uma vez por todas, com esta imagem de uma expatriação dourada, perfeita, feliz e suave, pois não combina com a dura realidade.

Importante lembrar que muitas indústrias, empresas, laboratórios e grupos financeiros fortes vêem nos migrantes uma oportunidade fácil e barata para a expansão de seus ‘mercados’. Presas frágeis por causa de todos os motivos acima elencados.

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