E VOCÊ, JÁ RECLAMOU (MUITO) HOJE?

 Imagem Movimento Transformação

“Você não é o primeiro
Que hoje vem pra me falar
Que anda procurando jeito,
Um jeito de desabafar.

As mesmas palavras,
O mesmo problema,
A mesma dor em todo lugar,
Que tem isso e tem aquilo,
Eu não ando mais tranquilo
Só de ouvir reclamação.”

In: Reclamação – de Paulinho da Viola

 

Tendo sido abduzida para alguns desses grupos de WhatsApp onde você nunca entende porque entrou e não faz a menor ideia de como vai sair e acompanhando poucos – já que da maioria fui discretamente me livrando, como quem deixa o lenço seguir uma oportuna lufada de vento e avisa vou ali buscar e volto já – há algumas semanas procurei prestar uma atenção, digamos assim, mais ‘profissional’ em relação as manifestações ali registradas.

Como, até então, costumava ler apenas a última das dezenas de mensagens que se acumulavam no decorrer das horas distante do celular, passei a ler tudo. E perdi muito tempo com isso, confesso.

Porém, descobri que o exercício mais praticado nesses meios é o mesmo que podemos observar nos restantes: reclamar das pessoas e das coisas em si.

Objeções, recriminações, insatisfações: algumas pessoas são constantemente persuadidas a parecerem vítimas de uma injustiça intergaláctica. Outras, de fato, o são.

Dentro de um condomínio, por exemplo, reclama-se de tudo: desde o vizinho que parou o carro enviesado, ainda que dentro de sua própria vaga, até a mulher que entrou no elevador com um perfume ‘persistente’, passando pelo outro que fumou seu cigarrinho na piscina – lugar aberto e, portanto, permitido.

E não adianta ponderar. As pessoas criam discussão, brigam, se irritam e, assim, passam seus dias.   

Você já parou para pensar na razão pela qual algumas pessoas reclamam tanto e o tempo todo?

Percebeu que perto delas todos os pequenos aborrecimentos da vida cotidiana se transformam em pretextos para reclamar? E que isto, com o tempo, vira uma verdadeira chateação para os demais?

Na maioria das vezes, pessoas que se queixam muito já experimentaram injustiças reais e sofrem com o medo de serem novamente vítimas destas. Algumas também podem ter sofrido por conta de vergonha, humilhação, rejeição e abandono. 

Elas podem ser francamente irritantes até para os seus entes queridos. Sua tendência para ver tudo pior do que já é, parece demonstrar um pessimismo obstinado e uma constante necessidade de atenção que pode ser bem difícil de gerenciar.  

Portanto, muitas vezes, as queixas reiteradas encobrem problemas muito maiores. Ao invés de falar de uma preocupação muito mais pessoal e íntima, essas pessoas protestarão contra o trânsito, o café que está muito quente, o garçom que pareceu disperso, o namorado que não retribuiu o carinho, a amiga que não respondeu a mensagem, etc. Ou do carro do estacionado daquele vizinho.

O fato é que a queixa precisa ser exteriorizada e encorajar sua expressão não é apenas saudável para o equilíbrio psíquico daquele que a sente, mas também para o dos grupos com os quais convive.

Quanto mais deixamos uma pessoa expressar seus sentimentos, menos ela precisará reproduzir sua angústia repetidamente. 

A primeira coisa que podemos fazer com alguém que só se lamenta das coisas é dedicar tempo para ouvi-lo, tentando entender o que está errado. Muitas vezes, quando o lamento é verdadeiramente ouvido e considerado, isto pode ser suficiente. 

Sim, porque estamos numa sociedade à beira de uma implosão. As injustiças são cada vez mais óbvias. Os privilégios concedidos a alguns e os abusos cometidos contra muitos são enormes. Essa rigidez na sociedade provoca em muitas pessoas uma sensação de injustiça permanente, uma necessidade de queixa e uma busca intensa por justiça. 

Do ponto de vista psíquico, certas criaturas são de fato mais vulneráveis ​​pelo que vivenciam ou percebem do mundo que as rodeia. 

Outras permanecem lutando para se distinguir entre ser vítima de injustiça real e ter a impressão de ser.

Portanto, é fato que algumas pessoas se sentem mais perseguidas do que outras. E podem ser que sejam mesmo, afinal.

No entanto, em alguns casos, pode ser necessário dizer ao interlocutor: ‘Olha, faço o que posso, e não consigo fazer mais. Eu posso me esforçar em lhe ouvir, mas cabe a você encontrar soluções para esses problemas’

O limite vai mostrar que não se pode despejar todo e qualquer descontentamento na cabeça dos outros. Este tipo de enfoque é importante e, muitas vezes, dá frutos, pois ajuda a pessoa a focar nas suas capacidades internas.

Mas, por outro lado, é também muito importante entender que se a dor não se manifestar suficientemente, a gangrena acontece dentro da gente.

Porque, de alguma forma, todos nós somos reclamões.

Sobretudo quando os eventos em nossas vidas são difíceis de serem superados e nos fazem sentir dor. 

Quando é pontual, a queixa é positiva porque propõe um olhar para sua solução.

Mas há pessoas que culpam seu destino de forma repetitiva e cansativa. São os que precisam muito ouvir que reconhecemos seu sofrimento e seu desgosto. Outras demonstram uma espécie de complacência que se caracteriza pela falta de esforço, uma forma de preguiça, cujo sentido é deixar a situação se cristalizar para que possa seguir se lamuriando. Finalmente, uma minoria que não vive sem padecimentos porque é através deles que consegue atrair a atenção de que tanto necessita.

Em suma, permanecer conscientemente em estado de indignação permanente, como numa teatralização, é uma maneira de dominar a situação e as pessoas nela envolvidas.

Concretamente, o queixoso poderia tentar substituir suas lamúrias por uma conversa franca sobre como estava se sentindo no exato momento em que a contrariedade o atingiu externamente. Olhando para dentro de si, no lugar de buscar sentir pena por si mesmo. 

Por exemplo, em vez de dizer: ‘É sempre comigo que esta máquina trava’, tentar entender que o dispositivo simplesmente engoliu seu cartão porque se encontrava danificado. Você pode ficar furioso por não ter meios de fazer seus pagamentos. Mas assumir este sentimento evita a amalgamação da autopiedade. 

Um exercício desafiador e muito produtivo é o de prometer a si mesmo(a) uma pausa nesta espécie de compulsão. Pare de incomodar, se opondo, resmungando, blasfemando, pelos próximos 21 dias.

Comece hoje. Agora.

Não reclame de absolutamente nada. Nem do trabalho, nem do(a) parceiro(a), nem dos filhos, da internet, do vizinho, dos amigos. De nada.

Começou a ruminar algo desagradável, pense na palavra DELETE.

Nesse momento o pensamento será deletado. Ainda que ele teime em reascender seu fogo corrosivo, mesmo que ele se disfarce de outra sensação, ainda assim, repetindo o mantra DELETE ele, novamente, vai desaparecer.

Daqui a uma semana, faça uma lista de coisas diferentes que conseguiu pensar e produzir, do quão melhor se sentiu, mais leve, mais feliz. Repita esta lista até o final da terceira semana.

Você vai compreender o que estava envenenando sua existência. E seu desafio, bem sucedido, mudará muitos aspectos da sua vida. 

E é ela que conta, viu?

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