MEU MARIDO ABUSADOR (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Flor Chorando

“Que mistério pode haver, na lágrima de uma mulher
Quando abre os seus segredos.
Que momentos de aflição há no tremor da sua mão,
Onde esconde os seus medos.

In: Lágrimas de Uma Mulher – de Guilherme Arantes

 

Nem minha família nem meus melhores amigos sabiam o quanto meu marido me agredia até me encontrarem em um hospital com o rosto totalmente desfigurado e o corpo coberto de hematomas – os recentes e os antigas

Meu ex vivia repetindo que eu era a melhor coisa que havia acontecido na sua vida, que me amava acima de tudo e que possuíamos uma família perfeita – e era isso o que todos enxergavam.

Mas existiam ‘detalhes’ grotescos: ele nunca me deixava completamente sozinha com alguém. Sempre podia aparecer ou telefonar fazendo perguntas embaraçosas que exigiam respostas rápidas. Desta forma, eu não conseguia falar com ninguém. E, como eu sempre fora muito franca e verdadeira, as pessoas que me conheciam acreditavam que eu falaria se algo estivesse errado.

Fomos casados por cerca de nove anos. E ele se mostrou controlador logo que nos conhecemos. Porém, o abuso iniciou assim que meu primeiro filho nasceu e, a partir de então, tudo piorou.

Começou com alguns empurrões e tabefes na minha cabeça, acompanhados de gritos de ‘imprestável’, ‘cretina’ ou ‘idiota’. Em seguida, se a casa ou a comida não estivessem do jeito que ele gostava, recebia puxões de cabelo e tapas pelo corpo. Sem demora vieram os chutes e murros por qualquer motivo banal. Ele sempre procurava me bater em lugares que as roupas pudessem cobrir de modo que ninguém percebesse nada.

Eu não fazia ideia de que tinha a opção de sair daquele inferno. Casei-me aos 20 anos e cheguei em São Paulo cerca de três dias antes do casamento. Logo, não tinha família ou amigos por aqui. 

Passado um tempo, as únicas pessoas que eu tinha autorização para procurar eram as da família dele. Eu não tinha permissão para viajar para minha cidade natal (‘perigoso demais’), voltar a estudar (‘coisa de vagabunda’) ou ter um emprego (‘eu pago as contas’), e o fato dele sustentar a mim e as crianças parecia lhe fornecer autoridade para fazer o que bem entendesse com a gente.

Ele não me permitia sequer ter uma auxiliar doméstica, apesar de ganhar um bom salário. Queria que eu estivesse sempre ocupada com os afazeres da casa e com os filhos, e era isso o que acontecia.

Eu não tinha ideia de que qualquer outra pessoa se importaria comigo e com meu drama. Achava que tinha de ser assim. Se eu soubesse que existia uma alternativa, juro que teria tentado fugir daquilo há muito tempo. Essa foi uma das principais razões pelas quais não tentei deixá-lo. 

Mas um dia, depois de descobrir mais uma traição daquele monstro, pensei que podíamos falar sobre uma possível separação e, ao tocar no assunto, ele me espancou e tentou me matar.

Consegui sobreviver porque, talvez por medo de ser preso, ele me levou ao hospital enquanto berrava, dentro do carro, a história que eu deveria repetir para todos, caso não quisesse ver nossos três filhos mortos.

E foi assim que minha família percebeu que algo estava muito errado. Meus pais telefonaram para o hospital buscando informações e, conversando com uma assistente social, esta lhes descreveu exatamente o estado em que me encontrava.

Eles conseguiram que a assistente viesse falar comigo, mas quando ela tentou o primeiro contato, meu ex permaneceu ao meu lado. Desta forma, fui obrigada a confirmar explosões de panelas de pressão, tombos e tentativas de suicídio. Tudo mentira, claro.

Ele estava lá o tempo todo e só deixava o hospital depois de me sedar – como posteriormente foi descoberto. 

Falava por mim quando alguém me perguntava algo. Ele mentia, dizendo que tinha que estar ali porque eu suplicava sua presença.

Um dia, porém, aquela mesma assistente explicou que só queria falar comigo sobre meus filhos e que, em seguida, também iria conversar com ele. Desta forma, o convenceu a sair do quarto. 

Como ele permanecesse me observando pela janela, ela, ao perceber, se levantou, fechou as persianas e me perguntou se eu precisava de ajuda.

Respondi que, mesmo que eu precisasse, não havia nada que ninguém pudesse fazer. Aos prantos, sussurrei que se meu marido desconfiasse de algo me mataria, e a meus filhos que estavam em casa aos cuidados de uma babá.

Essa mulher disse que conseguiria que a polícia falasse comigo e esclareceu exatamente quais eram os meus direitos.

Usou o telefone e uma policial, em poucos minutos, entrou no quarto enquanto me explicava o que era uma ordem de restrição e como a polícia poderia me ajudar a passar pelos tribunais de família e providenciar que minha mãe cuidasse das crianças enquanto eu permanecesse no hospital. Não acreditei nela. Não sabia que havia um tribunal de família para ajudar pessoas como eu.

Foi quando, então, minha mãe telefonou e disse: “Filha, fica tranquila, já estou com seus filhos em um lugar seguro”. Foi a primeira vez que pensei: “Ah, meu Deus, alguém se importa comigo, as pessoas realmente estão me ajudando.”

Minha mãe pediu que eu contasse tudo e foi o que fiz. Imediatamente aquele homem desprezível foi retirado do hospital e proibido de se aproximar de mim e dos meus filhos.

Decidi que não voltaria para ele jamais. Dei minha declaração à polícia e mandamos uma ordem judicial contra ele que, dois anos depois, foi condenado a seis anos de prisão dos quais cumprirá apenas três.

Por um tempo, minha família e eu nos mudamos para outro estado, mas percebi que não queria que meus filhos pensassem que tínhamos feito algo errado. Então, retornei para São Paulo e ainda mantenho uma ordem de restrição contra ele em vigor e muita segurança na minha casa.

Muitos homicídios de mulheres ocorrem quando elas tentam sair de relacionamentos abusivos e perigosos como o meu e esta nunca é uma decisão fácil de ser tomada. 

Gostaria de encorajar as mulheres a procurarem apoio o mais rápido possível, além de tentarem descobrir quais são as instituições aptas a apoiá-las, criando planos seguros antes de partir.

Acredito que a responsabilidade de tamanho desterro deva recair sobre a sociedade como um todo. Devemos acreditar nas mulheres e apoiá-las. Sempre. Compreender e confiar nas mulheres é fundamental. Protegê-las é uma obrigação de todos. Afinal, a vida depende delas, não?

COMENTÁRIO:

Na base da violência masculina existe uma profunda crise existencial que leva o sujeito a considerar a mulher como um nada. Muito provavelmente porque ele próprio não consegue dar muito valor à sua vida, nem é capaz de obter a consideração almejada dos outros – especialmente das mulheres. A violência, desse ponto de vista, aparece como o único recurso possível, a única maneira de se ‘impor’, mostrando à sociedade que ao menos suas vítimas tiveram de cumprir suas demandas e sua necessidade de poder. Em outras palavras: todo homem violento é um fraco. E covarde.

Homens violentos são aqueles indivíduos que não aceitam a ‘resistência’ do real, ou seja, o fato de que a realidade pode se opor ao seu desejo e que, por vezes, as pessoas podem não corresponder às suas exigências e anseios.

Isso os leva a querer forçar quem resiste e a querer dobrar aqueles que recusam a submissão.

Relações abusivas ocorrem em convivências que – seja no âmbito reservado, público ou familiar – se sustentam através do exercício de controle, manipulação, desrespeito e violência.

O abuso é quase sempre uma técnica para obter e manter o controle. O abusador mantém o outro sob seu domínio culpando-o e envergonhando-o. Na maior parte dos casos, ele é altamente manipulador e narcisista.

As formas de abusos variam entre a meramente emocional (e nem por isto menos lesiva), passando pela verbal até alcançar, como em tantas vezes, a física e a sexual.

A leitora, autora do depoimento cuja reprodução foi aqui autorizada, felizmente, tinha uma família que contava com boas condições para auxiliá-la, inclusive financeiramente.

Mas este não é o caso da esmagadora maioria das mulheres no Brasil.

Mesmo assim, sugiro a seguir alguns lugares a serem procurados, não obstante a constatação de que a atual prefeitura de São Paulo cortou verbas, referentes a R$3 milhões, destinadas a estes serviços, ainda que ciente do aumento em 31% no número de casos de violência contra a mulher.

Em tempo: a cada uma hora, 503 mulheres brasileiras são agredidas.

http://www.justicadesaia.com.br/ongs-e-associacoes-na-capital-combate-a-violencia-contra-a-mulher/

http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/ultimas-noticias/sp-possui-delegacias-especializadas-as-mulheres-vitimas-de-violencia/

http://www.capital.sp.gov.br/cidadao/familia-e-assistencia-social/servicos-de-direitos-humanos/atendimento-para-mulheres-vitimas-de-violencia

http://www.redededefesadedireitos.com.br/category/abrigosmoradias-provisorias/

http://www.riosolidario.org/programas/mulheres/casa-abrigo-lar-da-mulher/

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