A DOR DA TRAIÇÃO (DEPOIMENTO)

 Imagem Movimento Coração Partido

“O amor é feito de paixões
E quando perde a razão,
Não sabe quem vai machucar.
Quem ama nunca sente medo
De contar os seus segredos.
Sinônimo de amor é amar.”

In: Sinônimos – de Zé Ramalho

 

 

“Passei muito tempo sem conseguir falar sobre os motivos da minha separação.

Primeiro, porque sentia que precisava de algum tempo para processar a situação antes que minha família ou meus amigos soubessem da verdade. Segundo, porque não desejava que me vissem como a coitadinha, despeitada ou vingativa. Pra falar a verdade, preferia não olhar pra mais ninguém pelos próximos 200 anos.

O fato é que vivi muito tempo, tempo demais, com o homem com quem acreditei que iria passar o resto da minha vida. Confiei no meu parceiro e amei-o com cada grama do meu coração e da minha alma. Ele era o ‘único’ para mim e o centro de tudo.

Mas este ‘tudo’ se transformou na mais pura desilusão quando, depois de 14 anos de casados, ele começou a assumir atitudes estranhamente destrutivas que acabariam por quebrar em minúsculos pedaços o que tínhamos – incluindo meu coração. 

Ele me traía há bastante tempo sem que eu sequer imaginasse. Até que, num certo dia, ao voltar para casa às 4 da manhã, mentiu sobre com quem estava me chamando de paranoica. 

O que aconteceu nas 48 horas seguintes, hoje me recordo como um borrão de mentiras. Transformei-me na pior investigadora que jamais imaginaria ser. Desbloqueei celulares, liguei para amigos, abri armários trancados e vasculhei todas as caixas e gavetas que, até então, só mantinha arrumadas.

Foi quando fiz a descoberta dolorosa que me obrigou a enxergar que a pessoa que eu mais admirava e adorava não era aquilo que eu acreditava ser.

Tentei reescrever mentalmente toda a nossa história. Passo a passo. Estou envolvida? Sou responsável? Por que ele fez isso? Enfim, me senti traída, desprezada e ludibriada. Além de suja.

Por isso precisei de muita coragem para compartilhar essa experiência, tão dolorosa e pessoal, porque sentia vergonha e culpa pelo o que aconteceu. 

Tanto quanto eu posso lembrar, eu me considerava uma mulher confiante e forte. No entanto, passei a duvidar de minha autoestima e me perguntar o que havia de tão errado comigo a ponto do homem que supostamente me amava, ser capaz de jogar tudo fora por alguns momentos semanais com pessoas que ‘não significavam nada’ para ele. 

Claro que só tive arremedos de respostas nas quais não acreditei. Ele poderia me dizer que elas não eram tão bonitas quanto eu, que com elas ele não era tão bom quanto comigo, que não as amava como a mim. Em suma, tudo o que teria me tranquilizado, e eu não acreditaria em nenhuma palavra. Minha imaginação fez outra viagem. Meu ego estava mortalmente ferido. No espelho passei a enxergar-me velha, feia e acabada. Não havia mais nenhuma esperança de me sentir sedutora. Além disso, minha ‘rival’ naquela fatídica madrugada, era vinte anos mais nova do que eu.

Como ele conseguiu continuar voltando para casa, me olhar nos olhos e dizer ’eu te amo’, sem se sentir mal? Onde estava sua consciência? 

Fiquei envergonhada, machucada e com minha dignidade totalmente aniquilada.

Eu acredito que todos cometem erros e que, muitas vezes, não são eles que definem o caráter de uma pessoa e, sim, o que se faz depois disso. Eu esperava, no fundo, que ele se redimisse, assumisse ser responsável por suas ações e trabalhasse para alcançar meu perdão. 

Eu mantive minha fé na possibilidade de que ele se esforçaria para ser o homem que eu esperava que fosse. 

Mas ele não fez isso. E talvez essa seja a parte mais horrível de tudo.

Durante este período eu precisei de muita ajuda. Porém, concentrado na sua própria dor e na raiva de ter sido descoberto, ele não sabia como lidar comigo. Então, em vez de responder as minhas desesperadas indagações com alguma sensibilidade e cuidado, ele finalmente escolheu me ignorar. 

E, desta forma, vi o homem que tanto amava, com o qual compartilhava segredos preciosos e momentos sagrados, passar a me tratar como se eu não fosse nada. Nem ninguém.

Independente do apoio de amigos e familiares durante essa fase, senti-me terrivelmente sozinha. 

Percebi que quando a confiança é violada dentro de um coração, ele fica tão ferido que, imediatamente, surge uma nuvem sombria de miséria que o perseguirá em qualquer lugar onde tente se esconder.

E não existe rota de fuga. Nem esconderijo possível.

Algo se instala dentro de você. Uma espécie de filtro escuro que se sobrepõe a tudo aquilo que, antes, parecia colorido e iluminado. Qualquer lembrança boa passa a ser remetida à outra muito ruim. Você começa a pensar: aquele sorriso não era verdadeiro. Aquele carinho não era sincero. Fez sexo comigo pensando nela. Quantas mentiras ele me contou?

Um verdadeiro inferno.

É com você, não há como se enganar em relação a isto. E como você deixou passar sem desconfiar de absolutamente nada? 

Mesmo quando tentava dormir, depois de semanas insones, eu não tinha condições de escapar do tormento, pois a dor me assombrava sob a forma de pesadelos atrozes. 

Na tentativa de lidar com a agonia, desumanizei-o. Perdi a compaixão e esqueci que suas ações vinham de um ser humano falível, como somos todos. Culpava-o por tudo e culpava-me por tê-lo deixado entrar na minha vida, por ter acreditado nele, por ter feito tantas concessões em nome do ‘amor’ que sentia e acreditava ser correspondido.

Hoje, quase dois ano depois, ainda tenho momentos em que a tristeza e a raiva se aproximam de mim e me desmancho em lágrimas. Mas entendi que elas vão muito além da minha experiência com traição – elas se debruçam sobre a garotinha que carrego por dentro e cuja insegurança ainda me acusa de não ter sido boa o suficiente. 

É a mesma garotinha que nunca parecia poder ter amor e aprovação de seu pai e que se perguntava se nunca seria digna do amor de um homem.

Mas posso afirmar, com serenidade, que me dei licença para ser vulnerável e me permiti refletir a respeito da multiplicidade de emoções e feridas antigas provocadas pelo evento. 

Houve algumas coisas da minha infância que surgiram depois de terem sido suprimidas por mais de três décadas e que foram arrancadas, como um Band-Aid dolorosamente colado que me forçou a enxergar coisas que eu realmente não via.

Ainda há altos e baixos, mas estou orgulhosa de dizer que há muito mais alegrias do que tristezas. Conheci novas pessoas, frequento lugares diferentes e converso sobre minha experiência com mulheres que passaram pelo mesmo.

E, lentamente, a esperança de que um amor real e autêntico possa existir na minha vida está começando a retornar.”

Comentário:

Uma experiência envolvendo a infidelidade pode provocar a mesma dor de uma fratura exposta cuja dimensão, fulminante e pungente, aparenta ser irrecuperável.

Para muitas pessoas fica um verdadeiro e enorme hematoma, com uma dor cruel e uma recuperação que pode parecer impossível.

A vida fica abalada, a experiência cotidiana torna-se penosa e todos se sentem aniquilados física e mentalmente pelo desgosto.

Aquele que vive uma infidelidade passa por sucessivas e diferentes fases, como que diante da notícia de uma morte, onde há primeiro o choque. Após o choque, surgem muitas perguntas.

Pergunta-se como isso poderia ter acontecido. Por que aconteceu, quais foram os desencadeantes?

A introdução de uma terceira pessoa em nossa privacidade tem o efeito de nos devastar e de minar com toda a segurança que possuíamos. Ainda que admitida a deslealdade, apenas isto não remove seu poder destrutivo.

Ao enfrentar corajosamente os inevitáveis ​​abandonos, rejeições e traições que a vida nos apresenta, podemos tratar as feridas de nosso coração, descobrindo novos aspectos de nós mesmos a fim de encontrarmos um maior grau de segurança nos futuros relacionamentos e nas vivências que experimentaremos dali pra frente.

A traição, em suas múltiplas facetas, pode tornar-se o indesejável rito de passagem que nos guiará para uma compreensão mais clara do que é o amor e do que o amor não é – e o que faz o amor crescer e o que o pode destruí-lo.

A deslealdade, no fundo, pode nos ensinar a sermos mais gentis com nossas limitações e angústias, permitindo-nos o tempo necessário para entendermos a nós mesmos – e talvez ao nosso parceiro – mais profundamente.

Pode ser, finalmente, uma gratificante viagem para dentro dos nossos mais verdadeiros sentimentos.

A única certeza que temos é que haverá um antes e um depois, porque nada mais será como era. E, acredite, isto pode ser muito bom e libertador. De verdade.

“Afinal, tudo nesta vida passa”, já dizia minha sábia mãe. Que completava com um “e nada melhor do que um novo amor – por algo ou por alguém – para se curar do antigo“.

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