NUNCA NEGLIGENCIE A DEPRESSÃO

Imagem Movimento Abismo 3

“No fim do mundo tem um tesouro
Quem for primeiro carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa que arranje um carro
Pra andar ligeiro, sem ter porque
Sem ter pra onde, pois é, pra quê?”

In: Pois é, pra quê? – Sidney Miller

 

 

Já falamos aqui de quantas pessoas pensam, tentam ou cometem suicídio no Brasil. É quase certo que cada um de nós, em algum momento da vida, pensou em dar cabo – desta forma – àquela dor intolerável que parecia não ter fim.

Mas, afinal, por que é que a depressão permanece sendo incompreensivelmente negligenciada como algo secundário e sem grande importância?

Considero fundamental refletir sobre o tema porque percebo, com profunda preocupação, a existência de correntes dentro da própria esfera psi que, simplesmente, resistem à ideia de indicar ou prescrever o uso de qualquer tipo de medicamento que contribua para a remissão dos desagradáveis e, muitas vezes, insuportáveis sintomas deste fenômeno humano.

Afirmo que este é um terrível e imperdoável equívoco!

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2020, a depressão será a segunda maior causa de doenças em todo o mundo, com sua consequente perda de qualidade de vida, perdendo apenas para os problemas cardiovasculares.

Existe, em contrapartida, muita dificuldade em se aceitar ajuda para questões relacionadas à área psíquica porque elas podem desvelar um “campo emocional”, invariavelmente, bastante confuso e obscuro para todos nós.

Logo, a depressão persiste enquanto doença sub diagnosticada. Primeiro, pela falta de conhecimento que redunda na incapacidade de identificar os sintomas e, segundo, pela dificuldade de entender que nem toda desordem psíquica significa ausência de lucidez ou incapacidade de manter o equilíbrio ad infinitum.

Parece que precisamos atravessar o deserto gelado da ideia de suicídio para sermos capazes de apreciar nossa existência sendo aquilo que somos, vivendo como queremos, amando a quem desejamos.

E como detectar os sinais?

A pessoa torna-se reclusa. Passa a evitar amigos e familiares íntimos; perde interesse por atividades e eventos sociais. Fica isolada. 

Muitas vezes, parece ansiosa, triste ou com raiva. Também pode ficar muito irritável, temperamental ou agressiva. No entanto, pode, de repente, se acalmar – isto depois de ter decidido pelo suicídio. Então passa a dormir mais ou muito menos do que o habitual.

Bebe ou toma drogas. O abuso de substâncias aumenta a chance de suicídio. Usar muita droga e álcool passa a ser um coadjuvante neste processo.

Age imprudentemente. Assume atitudes perigosas, como dirigir bêbado ou ter relações de risco.

Como tudo começa? 

Muitas vezes, quem comete suicídio é descrito como ‘alguém que sempre esteve lá para os outros mais do que para si próprio’. Outras vezes, parece possuir uma tendência de ‘se esquecer’ ou de ‘ser esquecido’, passando os demais na sua frente e jamais buscando ser considerado importante. Geralmente apresenta uma personalidade bastante introvertida que deseja muito ser respeitada pelos demais.

É bem possível que haja certa falta de autoconfiança. E uma enorme ausência de esperança em relação a si e ao mundo que o rodeia.

Pode acontecer por conta de um luto não concluído, ou de uma lágrima emocional não derramada, algo que, por não ter se realizado, impede seu acesso à alguma plenitude existencial.

Portanto, muitas vezes, há uma contração vivencial, uma sensação de falta de reconhecimento, uma necessidade de ser levado em consideração, tudo isto aliado à impossibilidade de expressar seus mais verdadeiros sentimentos.

Então, um dia, um drama, uma situação problemática, séria e difícil, faz a pessoa sentir-se diante de um abismo, sozinha para enfrentá-lo, e sem possibilidade de encontrar, em seu repertório de recursos pessoais, uma solução para o problema. Os amigos, a família, ninguém parece ser capaz de ajudá-lo.

Durante uma primeira crise, a pessoa sente a necessidade de fugir da dor. A ideia de suicídio, como uma possível solução, cruza sua mente. Ela pode desaparecer e nunca reaparecer. Parece-me que todos passam por isto ao menos uma vez na vida.

E se ela continua a nos visitar? 

Se as coisas não funcionam, pensamentos suicidas podem reaparecer mais regularmente. Daí, eles podem ganhar mais e mais espaço, voltam mais frequentemente aos nossos pensamentos, ficando presentes por mais tempo tanto que, pouco a pouco, passam a fazer parte do nosso cotidiano.

A pessoa pode tentar falar a respeito de si sem realmente ser ouvida ou levada a sério, recebendo ‘conselhos’ do tipo coisas do tipo: ‘vá fazer uma viagem, arranje um amor, lave um tanque de roupa’.

É preciso reconhecer que esse tipo de assunto pode assustar o interlocutor. Ainda que a primeira reação saudável seja a fuga e a não aceitação dessa ideia, ainda assim, é urgente levar a ameaça a sério!

Justamente para que o isolamento da pessoa em sofrimento não vá se tornando gradualmente irrecuperável.

Porque, diante da descrença, passamos a não confiar mais. Como dizer àqueles que amamos que é essa a vida a que não podemos suportar mais? E que não sabemos como encontrar força para começar tudo de novo, do zero, e o que é bom de qualquer maneira? 

E quando a ideia de suicídio assume corpo e alma?

Os pensamentos suicidas são, agora, contínuos, persistentes e podem tornar-se obsessivos. Ao mesmo tempo, esse questionamento interno é assustador. A pessoa se pergunta se não está ficando louca, o que aumenta seu sofrimento e isolamento. Este é o  período de apreensão. Neste ponto, ela pode rejeitar qualquer contato. Qualquer relacionamento pode se tornar uma fonte de conflito. 

É essencial que, nesta fase, se tente acompanhar a pessoa para um retorno ao desejo de viver, ajudando-a a sair de seu isolamento e, especialmente, a encontrar uma base sólida para seus afazeres diários: estar na presença com carinho sincero, sem necessariamente falar, apenas compartilhando refeições, passeios, presença. Simplesmente estar por perto atento.

E se a ideia se fixa?

Este é o  período de cristalização. Nesta fase, a pessoa em crise considera o suicídio como a solução definitiva para o seu sofrimento. Ela então trabalha no planejamento do ato em si.

Quando a condição da pessoa se deteriora até este ponto, o planejamento do suicídio é especificado: os meios, a data, o local e até o tempo podem ser resolvidos durante esse período. A pessoa pode parecer muito calma porque ela concebe seu planejamento como um apaziguamento, uma saída, uma pausa.

Mas é importante saber que a pessoa suicida é ambivalente até o fim. Ela segura seu futuro em suas mãos. Não se trata mais do estado depressivo em que a pessoa teve a sensação de “sofrer a vida” trata-se, agora, de “dominar sua morte”.

É mais difícil viver do que morrer“.

A passagem para o ato.

O medo da atuação permanece nos últimos momentos. O  suicídio é reversível até o último minuto. Nunca é tarde demais para intervir. Nunca é tarde demais para escolher reviver. 

É preciso coragem para cometer suicídio. Porém, é necessário mais para desistir.

Portanto, fica a sugestão: se uma pessoa próxima a você mudar repentinamente de hábitos, tornando-se mais reclusa e distante, preste atenção. Se demonstrar falta de interesse pela vida, pelas coisas e pessoas ao seu redor, preste atenção. Se falar em suicídio, preste atenção. São sinais, nem sempre muito claros, emitidos como gritos de socorro, que precisam ser levados a sério. Nestes casos, comunique algum parente e, se este for você, encaminhe esta pessoa, o mais rápido possível, a um profissional (psiquiatra e/ou psicólogo).

Se ela já estiver sendo acompanhada e, mesmo assim, não apresentar melhora neste quadro, troque de especialista.

Se mesmo com todos estes cuidados a pessoa cometer um desatino, entenda que ela foi dona absoluta de seu gesto. E ninguém tem o poder de ajudar aquele que não deseja ser ajudado. Infelizmente.

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

 

 

 

3 pensamentos sobre “NUNCA NEGLIGENCIE A DEPRESSÃO

  1. Pingback: NUNCA NEGLIGENCIE A DEPRESSÃO – A luz de bons preceitos humanos, refletirá um estado de equilíbrio harmônico com tudo que vemos e com o que não vemos .Apenas sentimos.

  2. Acredito que em relação a esse tema ….depressão….o que mais dificulta(buscar ajuda …”aceitar” que o problema está presente…buscar tratamento …manter o tratamento)ainda nos dias de hoje…..(por mais incrível que pareça)….é o PRECONCEITO…as pessoas em geral evitam falar sobre…..assim como o Câncer…

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