NÃO GOSTAM DE MIM. E DAÍ? (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Bruxa 2

“Porque seu coração é bom,
Seu dia a dia natural.
Uma vida tão simples, tão normal,
Sem drogas, com compaixão.

Porque seu coração é bom,
Sua bondade sutil.
Se alguém repele ou finge que não viu
É pra não ter que ser igual a você.”

In: Por Que Alguém Tem Inveja de Você – de Gilberto Gil

 

 

 

Sim. Muita gente não gosta de mim. E daí?

Sei bem que existem muitas pessoas frustradas neste mundo; criaturas irascíveis que gostam de tornar a vida dos outros muito mais difícil do que já é. A minha foi, desde cedo, uma destas. Fui ‘premiada’ com este tipo de personagem participando da minha história.

E descobri que nada enfurece mais esta gente do que conhecer uma pessoa minimamente serena e feliz. E, apesar de todos os pesares que podiam me atingir, eu era e permaneço assim.

Hoje tenho certeza de que falta muita nobreza, além de autocrítica, àqueles que insistem em escamotear seu ciúme e sua inveja num jogo onde vale tudo para se alcançar a destruição do outro.

Ninguém deveria se sentir no direito de julgar outro ser até que fosse capaz de conhecê-lo – de fato e de direto – percorrendo uma parte do seu caminho e de seus problemas, concorda?

Pois o mínimo que podia fazer era tentar entender. E este se tornou meu exercício diário.

Você já se perguntou se um amigo pode estar com ciúmes de você? 

Eu me perguntava frequentemente por que muitos nunca pareciam genuinamente felizes por mim, apesar de ‘avaliarem’ todos os meus movimentos. Ainda que criticando disfarçadamente, ainda que fingindo preocuparem-se com a ‘minha felicidade’.

Até compreender que minha primeira intuição estava correta. Muitos que se diziam ‘amigos’ vivenciavam uma raiva mal disfarçada de mim. Ou seja, sentiam, no fundo, muita inveja e ciúme daquilo que enxergavam como qualidades, pequenas vitórias ou características humanas admiráveis.  

Nunca ficar sozinha, era uma delas. Sim. Numa festa, numa balada, eu era a primeira a ser cortejada. Era divertida e simpática o suficiente para naturalmente chamar a atenção dos homens. Era (e sou) bonita. Sabia escutar e entender as frustrações humanas. Tinha julgamento zero em relação às coisas que escutava. Gostava de ajudar os que me cercavam. Era (e sou) inteligente e sensível.

E custou muito para que eu me aceitasse desta forma. Porque sempre sentia que fazia algo errado. Que meu jeito de ser ofendia quem era diferente de mim. Chegava a esconder certos êxitos para não despertar sentimentos ruins nos outros. Fingia problemas que não tinha para parecer igual.

Mas isto, no lugar de contribuir para a minha paz, parecia aprofundar meus conflitos.

Foi quando passei a analisar as falsas amizades que me atravessaram a vida até então.

Percebi que o problema era que sempre me entregava por inteiro às relações. E nunca encontrava reciprocidade pela frente.

Daí recordei da primeira grande amiga com a qual compartilhava absolutamente tudo: meu sanduíche, meus sapatos novos, meus segredos, minha vida. 

Parecíamos tão íntimas que quando uma sofria um revés, a outra passava horas ao telefone ouvindo mil vezes a mesma história sem reclamar. Chorava junto compreendendo todo o sofrimento.

Esta era a minha melhor amiga e ninguém podia nos separar – a não ser ela mesma. 

Estudaríamos juntas e depois, na época da universidade, partilharíamos de uma casa que também seria frequentada por nossos outros amigos e namorados. Casaríamos no mesmo dia e seríamos madrinhas de nossos filhos. 

Fingia não perceber a total ausência de encorajamento ou apoio quando superava alguma dificuldade. Ouvir um sarcástico “bom para você” era o máximo que conseguia. Ela não dava crédito e criava desculpas para o meu sucesso na escola, por exemplo.

Às vezes, dizia algo como “isso é tão fácil de conseguir que até eu se quisesse, conseguiria”.

Não obstante isto, acreditava que éramos muito próximas até o dia em que, antes de entrarmos na faculdade, ela me disse que preferia dividir apartamento com outra colega com a qual se identificava mais – e justamente a pessoa que eu detestava por sua forma arrogante e dissimulada de ser.

Sabe quando sua melhor amiga se transforma na pior inimiga e você fica imaginando o que poderia ter dado errado? Foi o que fiz e o que consegui foi me culpar por tudo.

Tempos depois, logo no primeiro ano da faculdade, conheci um rapaz muito tímido e, em poucos meses, já me encontrava completamente apaixonada. A recíproca parecia ser verdadeira. Eu era bastante extrovertida e apresentei-lhe a coisas com as quais jamais tivera contato. Nos tornamos muito parceiros. Praticamente inseparáveis. Apresentei-o aos meus amigos e passei a considerá-lo meu companheiro ideal. Saímos regularmente e, muitas vezes, ele encontrava minha turma mesmo que eu não estivesse junto. Achava isto muito legal.

Contudo, comecei a notar que meus amigos foram ficando distantes de mim ao mesmo tempo em que se aproximavam mais facilmente dele. 

A partir de certo ponto, fazia planos incluindo todos que, de repente, estavam sempre ocupados ou nem sequer me ligavam de volta para conversar. Passei a descobrir festas e viagens para as quais não era convidada.

Até que um dia, um deles me falou que meu namorado havia contado histórias a meu respeito parecendo desejar demonstrar que eu não era uma pessoa confiável.

As calúnias corriam soltas enquanto que, na minha frente, ele parecia amoroso e feliz. 

Quando lhe questionei, fui tão brutalmente atacada por suas palavras que a única coisa que consegui fazer foi chorar.

De um momento para outro, passou a me acusar de todas as coisas que sabia sobre mim. Jogou-me na cara segredos que lhe contei, atacou-me pura e simplesmente com as fraquezas que lhe confiei!

Assim, todas as confidências viraram armas na mão daquele sujeito desprezível do qual imediatamente me afastei.

Desnecessário dizer que perdi a maioria dos amigos dos quais ele se aproximara e fiquei arrasada e infeliz.

Neste grupo havia Cecília, minha amiga de classe na universidade. Éramos boas ‘comadres’ que conversavam sobre tudo. Quando este meu namorado criou a sórdida confusão, ela foi uma das que escolheu se afastar. Lembro que isso me causou um choque tão profundo que senti desaparecerem todos os meus rumos. 

Além de ter perdido o namorado que acreditava me amar, perdera também a melhor amiga com a qual contava poder desabafar.

Alguns meses após tamanho infortúnio, enquanto tentava me recuperar do baque, resolvi ir a um shopping e fui surpreendida com a mais terrível visão: meu ex-namorado e minha ex melhor amiga de mãos dadas, aos beijos e abraços.

Eles me viram e pouco se importaram.

Hoje confio muito pouco nos amigos. Não acredito em amizades eternas. Posso parecer amargurada, mas não sou. Penso ser mais realista e feliz desta forma.

Comentário:

Qual é o segredo de uma amizade bem sucedida? Parece que ninguém realmente tem as instruções. Jules Renard, escritor francês, encontrou sua solução, com a qual concordo. Para ele, “não há amigo, há apenas momentos de amizade“.

Já a escritora Diane de Beausacq, definiu de maneira ainda mais justa seus dissabores: “Para fazer um bom inimigo, pegue um amigo: ele sabe onde atacar”, ao mesmo tempo em que, sobre a família, comentou: “A família é um conjunto de pessoas que se defende em bloco e se ataca em particular”.

Por que reproduzo estas ideias?

Porque acredito mesmo que o problema de confiar na autenticidade dos laços afetivos reside na maneira como nos entregamos a eles. Quer dizer: onde está escrito que devo contar tudo para alguém, incluindo os mais recônditos segredos? Quem nos obriga a abrir o baú de memórias a fim de mostrarmos toda a nossa história sem qualquer ressalva?

É preciso sempre lembrar que a inveja é uma besta de olhos grotescos. É uma doença e, também, uma espécie de fome. 

É a autofagia do eu que necessita possuir aquilo que é mais amado porque, senão, algo é capaz de torná-lo a gota de vinagre no copo de leite doce. 

Portanto, anote aí: nem mesmo as ‘grandes amizades’ estarão isentas dela. 

Aliás, muito pelo contrário.

Seu amigo lhe conta uma vitória. Você sorri. Este é o seu amigo. Certamente você se sente feliz por ele. Mas, no entanto, um espaço se abre entre vocês. Você pode pressentir isso claramente, o suficiente para que uma brisa gelada ali se atravesse.

 “– Como assim, você vem e tira o melhor de nós (nossa igualdade) e ainda parece satisfeito?”

A inveja fica no canto, escondida, quieta e faminta. Para que ela se atice, basta remexê-la ou sacudi-la e, pronto, está feita a desgraça.

Inveja se ataca. Ela está sozinha e é sua própria vítima – que se autopropulsiona e se auto absorve. Afinal, é necessário apenas um para invejar. Ela age sem pressa. É como um buraco, um mundo que se esvaziou e cuja cavidade se preenche com ela, a inveja, uma doença que desperdiça anos e anos para se recuperar.

E, como gosto de dizer: não divida todos os seus tesouros. E suas histórias são isso, tesouros de uma vida única e singular, de uma existência ímpar da qual você deve cuidar. Todos os dias.

Escreva para: psicologaheloisalima@gmail.com

E acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

4 pensamentos sobre “NÃO GOSTAM DE MIM. E DAÍ? (DEPOIMENTO)

  1. Não tem nada mais complicado do que lidar com gente, né? É por ler textos como os seus, e conhecer a vida de outras pessoas, eu aprendi a não confiar nas pessoas. Só que isso é uma espada de dois gumes, ao mesmo tempo que me protege, me torna mais fechada. O negócio é ficar esperto e achar o ponto de equilíbrio.

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