A INTOLERÂNCIA DO INTOLERANTE

Imagem Movimento Intolerância

“Como água no deserto
Procurei seu passo incerto
Pra me aproximar
A tempo.

O seu código de guerra
E a certeza que te cerca
Me fazem ficar atento. 

Não me importa a sua crença, 
Eu quero a diferença
Que me faz te olhar
De frente.”

In: Tolerância – de Ana Carolina

 

 

Já parou pra pensar como um simples contato, um cruzar de olhos ou uma frase, podem se tornar uma experiência terrível dependendo da pessoa que estiver envolvida?

Por que uma pessoa lhe irrita apenas com sua simples presença?

A intolerância é um problema atual que abrange não poder entrar em contato com diversas pessoas. E esse viés, evidentemente, pode piorar muito nossos relacionamentos e nossa capacidade de dar e receber afeto.

Claro que não me refiro aqui àquelas pessoas horríveis, manipuladoras, cruéis e desumanas. Para estas, nosso total desprezo. Sempre e com louvor.

Escrevo sobre a minúscula diferença que existe entre ter tolerância e ser intolerante com pessoas parecidas com a gente.

Estamos cada vez menos pacientes ou gentis com os outros e tendo mais problemas para nos colocarmos no lugar deles a fim de entender que confrontos estéreis nos levarão a lugar nenhum que não seja o abismo existencial. E à solidão.

Se você se esforçar, vai entender que aquele jovem que espirrou no metrô fez isso sem perceber e sem a intenção de lhe deixar enfermo; que quem faz barulho comendo sua sopa não sabe como fazer de outra forma porque foi ensinado dessa maneira; que os saltos da mulher que mora no apartamento acima do seu não faz um ruído tão alto e que, finalmente, não se trata de pensar que todos estão contra você e que estão fazendo essas ações para incomodá-lo ou perturbar sua paz. Ou seria…. solidão?

Desta forma, já passou da hora de você saber que, invariavelmente associada a outras práticas não muito edificantes como violência ou intransigência, a vovozinha rude, sem-noção e mal-educada intolerância, na maioria dos casos onde resolve dar o ar da sua desgraça, nada mais faz do que revelar a angústia e o medo de enxergar, no outro, partes de nós mesmos.

Ou seja: quanto mais o (a) intolerante se identifica com aquilo que acredita não ser cabível, aceitável, confiável ou legal, mais ele(a) de tudo fará para menosprezar, desacatar, aniquilar o que, no fundo, tanto ameaça suas frágeis convicções.

Quer dizer: se tenho tamanha certeza daquilo que penso, não preciso exterminar meu “oponente” posto que, de uma maneira ou de outra, o razoável e o crível necessariamente irão se sobrepor à tudo aquilo que está errado.

A mentira e o engodo sempre encontram um jeito de aparecer. Ou não?

Mas a vovó intolerância não pensa assim. Ela acredita piamente que todo e qualquer opositor é um ser indigno, maldito e, o que é pior, capaz de fazer acordar aquele cão feroz que ela carrega dentro de si.

Senão, vejamos.

Laura tinha uma prima que parecia ser a parente mais cabeça aberta da família posto que, quando escolheu terminar um casamento de anos com um homem muito rico, resolveu viver um caso amoroso com uma mulher com quem morou por vários anos.

Depois disto, teve alguns namoricos (entre homens e mulheres) e, ainda que aparentasse bastante independência e segurança, estranhamente, jamais prescindiu do auxílio esporádico do ex-marido em relação às suas necessidades pessoais assim como da sustentação total das coisas ligadas à filha de ambos.

E como Laura muito a admirava, criaram uma convivência bastante tranquila, chegando a participarem juntas de encontros familiares e confraternizações.

Mas houve um dia em que, no meio de um desses almoços e no centro de uma conversa sobre qualidade dos desfiles de carnaval que àquela altura inundavam os canais de tevês, Laura emitiu uma opinião sobre uma rede de televisão. Disse que não assistia a globo porque não gostava de sua programação. A resposta veio de maneira destemperada, em altos brados e absolutamente desproporcional ao tom do diálogo: “ – Como assim você não gosta da globo? Ela é reconhecida internacionalmente e ganha os melhores prêmios lá fora! Bah…. eu também já fui como você. Vivia bem e tinha de tudo enquanto ficava com peninha dos miseráveis!

Laura, então, retraiu-se ponderando que o único deslize que cometera fora dizer que não gostava de um canal de televisão.

Momentos depois recebeu um pedido de desculpas da prima que explicou que andava mesmo muito nervosa e pedia que o despropósito da sua atitude não merecesse nenhuma consideração.

Tudo voltou a ficar bem até que, meses depois, parte da sociedade entrou num embate acerca do impeachment ou não de uma presidenta eleita.

Não precisou de muito tempo para que a prima de Laura passasse a apresentar sua raiva latente através dos famigerados “Reaction Buttons” (carinhas que pretendem expressar raiva, espanto, amor, etc.) usados, dentro do facebook, como forma de reação aos posts de pessoas conhecidas ou não.

Fez isto de maneira ostensiva por diversas vezes e Laura não se manifestou.

Mas a prima muito a surpreendeu porque isto significava, sem qualquer dúvida, uma demonstração cabal de rigidez e fanatismo operando acima de qualquer rastro de sensibilidade e de quaisquer laços de afeto.

A prima afastou-se por completo de Laura e a história terminou assim. Sem nenhum diálogo. 

Já Carlos adorava a tia de sua esposa, conhecida como Nena. Nutria, pela doce Nena, muito carinho e uma boa dose de genuína afeição.

Por isto foi pego de surpresa quando, no meio de uma discussão acerca da possibilidade do mesmo impedimento acima descrito, ela publicamente lhe criticou porque entendia (erroneamente) que este defendia um determinado partido por ela detestado.

Disse coisas bastante ríspidas ainda que, em contrapartida, as respostas do sobrinho tenham sido extremamente delicadas. A partir de então, a tia decidiu desvincular-se do casal na ‘vida real’ negando-se, inclusive, a participar de reuniões familiares por eles promovidas.

Posteriormente, tanto a filha quanto os netos da tia, de maneira mais sutil, envergaram o mesmo e pesado fardão do sectarismo da mãe.

E, desta forma, muitos amigos e parentes foram separando-se uns dos outros. Como se nada representassem. Como se nada mais contasse.

Se tanto a prima quanto a tia dos meus caros leitores buscassem compreender, dentro de si, as raízes de tamanha inflexibilidade, certamente encontrariam a resposta na maneira com a qual, provavelmente, ambas foram tratadas no decorrer de suas vidas.

Entenderiam que, tendo sido elas mesmas cuidadas com tão pouca tolerância e delicadeza, estariam reproduzindo justamente o mesmo comportamento do qual, lá atrás, foram meras vítimas incapazes de defesa.

Perceberiam que as temíveis ‘diferenças’ poderiam revelar-se enquanto verdadeiras oportunidades de rever padrões viciados e conceitos ultrapassados. Porque, afinal, abrir-se à influência do ‘diferente’ pode nos render gratas e extraordinárias experiências.

Fora tal compreensão, só lhes restará permanecer acreditando que estão desobrigadas de conviver com tudo aquilo que enxergarem como diferenças e imperfeições.

Pois vítimas inconscientes geralmente tornam-se algozes – na primeira oportunidade. E da pior qualidade.

E demoram a entender (quando entendem) que somos todos lados de uma mesma e dinâmica realidade onde as polaridades jamais serão eliminadas ou definitivamente resolvidas.

Porque tudo aquilo que vier em nome de criar uma dimensão sem qualquer tipo de conflito redundará no terror infligidos pelos pretensamente mais ‘fortes’.

Logo, todos os abusos cometidos em nome de “verdades absolutas” transformam-se em cárceres e em cenas de horror.

Cabe a cada ser pensante escolher o seu polo de maneira livre da mesma forma que lhe cabe deixar que o outro também o escolha sem pressões ou ameaças. Convivendo com as diferenças de maneira humana e solidária. Abrindo mão das certezas que mais nada são do que formas de nos afastarmos de uma existência mais livre e plena – que tantos temem.

Então, o intolerante que deseja suprimir todo o pensamento discordante impondo aquilo o que pensa de maneira grosseira e malfadada, nada mais é do que um obtuso e fraco covarde pelo qual devemos sentir pena. E raiva, claro. Porque ninguém é de ferro.

Escreva para: psicologaheloisalima@gmail.com

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2 pensamentos sobre “A INTOLERÂNCIA DO INTOLERANTE

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